Uma visão alternativa às críticas de maniqueísmo e simplismo feitas ao filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
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Brasil Debate

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Guilherme Santos Mello

É professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP).

 
Guilherme Mello

Utopia, distopia e realismo em Bacurau

A batalha que se trava no filme é uma representação simbólica de um conflito real, atual e que se percebe em todo o mundo ocidental. Com a grande novidade de trazer o conflito para o campo da brasilidade

01/10/2019

Algumas críticas ao filme Bacurau o acusam de ser simplista, maniqueísta e previsível, fruto de uma visão distorcida da realidade presente em parte da esquerda. Longe de mim querer me arvorar a qualidade de crítico de arte, mas esse artigo é uma tentativa de apresentar uma visão alternativa à crítica descrita, trazendo elementos que apontam para a complexidade e realismo do filme.

Em grandes linhas, Bacurau descreve um conflito entre utopia e distopia. No campo da distopia, o filme se passa em um futuro próximo, onde a crise social e civilizatória brasileira se agudiza e dilacera a sociedade, gerando cisões territoriais e a anulação de direitos humanos. Essa distopia é expressa em alguns momentos do filme, como quando surge a marca do “Brasil do Sul”, em uma referência à vitória da xenofobia e do separatismo como sua forma de expressão.

Outro momento importante, ainda no início do filme, é a explicação da origem da crise hídrica, causada por um bloqueio no canal de distribuição de água realizada aparentemente por algum grupo miliciano que conta com a anuência do Estado. Por fim, destaca-se a cena onde se vê a transmissão televisiva de execuções públicas na cidade de São Paulo, acompanhadas por uma multidão de curiosos e entusiastas. Essas cenas descrevem uma sociedade que se cindiu e desumanizou, perdendo qualquer laço de solidariedade, respeito aos direitos individuais, sociais e mesmo a unidade territorial.

No campo oposto, o povoado de Bacurau representa a utopia. É um povoado pobre, mas marcado pela solidariedade entre seu povo, pelo respeito as diferenças (sociais, étnicas, sexuais, etc.), pela força feminina, pelas liberdades individuais e pelo respeito à história e conhecimento. A Igreja existe, mas é usada como depósito, enquanto o museu é o grande orgulho da cidade, ao relembrar seu passado de luta e resistência. O principal líder da comunidade é um professor negro, que busca ensinar as crianças os mistérios da ciência. Em suma, estamos diante de uma comunidade que pratica uma espécie de comunismo primitivo laico, com valorização da mulher e da diversidade.

Uma característica importante da distopia e da utopia presentes no filme é que ambas se referem mais a valores do que a questões materiais. A distopia não decorre de um mundo pós apocalíptico, da profunda crise econômica, tampouco do uso indevido da tecnologia. A utopia igualmente não decorre de uma melhoria nas condições de produtividade, do avanço tecnológico ou da distribuição de renda. Apesar de estarmos claramente diante de um país pobre, desigual e subdesenvolvido, não são esses elementos que separam a distopia e a utopia.

O que caracteriza as diferenças entre ambas são os valores, as diferentes visões de mundo e de formas de conviver com as agruras de habitar em um país como o Brasil. De um lado, o individualismo, a xenofobia, o preconceito e desrespeito aos direitos humanos; de outro, um apelo à solidariedade, ao distributivismo, aos direitos individuais e coletivos, à liberdade sexual, ao papel da mulher e do conhecimento.

O conflito está presente durante todo o filme, mas a resistência da utopia contra o avanço da distopia ocorre inicialmente de forma pacífica. Uma certa negação da política tradicional está representada na visita eleitoreira do prefeito ao povoado, quando a população se recusa a deixar suas casas. Há mais apatia do que resistência, uma aceitação incômoda da realidade, mesmo diante do bloqueio ao fornecimento de água, que o povoado contorna através da utilização de um caminhão pipa.

No entanto, o conflito assume nova dimensão quando um grupo de estrangeiros, liderados por um alemão e com o apoio de integrantes da classe média brasileira, resolve usar a vida dos habitantes de Bacurau como forma de praticar seu sadismo. A ameaça deixa de ser contornável, a aniquilação se torna uma realidade palpável e exige dos habitantes do povoado uma reação mais ativa, uma resistência que enfrente as dificuldades, não apenas as contorne.

Neste momento, o lado realista de Bacurau surge. Em primeiro lugar, por retratar um conflito real, atual e inegável. O mundo atual se encontra diante um conflito civilizacional, que põe em jogo conquistas como os direitos humanos, sociais, individuais e o regime democrático.

No entanto, o que há de mais realista em Bacurau é sua brasilidade, construída nas referências ao passado cangaceiro do povoado. A resistência não se dá de forma “civilizada”, com passeatas de classe média gritando palavras de ordem. Ela é organizada por bandidos, assassinos, guerrilheiros, mas também por mulheres, homens andróginos, professores, trabalhadores e prostitutas. Quem tenta fugir, ao invés de resistir, é esmagado pelo inimigo.

Bacurau mistura Canudos e o cangaço, Lampião e Antônio Conselheiro, evocando as raízes brasileiras da resistência diante da barbárie, sem deixar de lado todas as contradições que esse tipo de resistência representa. Não são heróis virtuosos os que resistem, não é uma resistência branca, limpa, ideológica e civilizada. É uma resistência negra, mulata, desviante, pobre e bárbara, sem muita clareza ideológica, calcada na sobrevivência física e portadora de um ideal difuso de sociedade.

O filme termina com uma vitória da utopia contra a distopia. A tentativa da distopia de riscar Bacurau do mapa esbarra na força da resistência de seus habitantes. Mas não sem antes apontar um risco: o alemão assassino, líder da barbárie estrangeira, é enterrado sob o solo de Bacurau e promete que aquilo seria apenas o começo do conflito. Da mesma forma, as ameaças do prefeito expurgado de que os habitantes não sabiam “com quem estavam se metendo”, ecoa uma ameaça constante para países subdesenvolvidos, de que não há resistência possível diante do poder estrangeiro.
A vitória da utopia sobre a distopia nunca é definitiva, uma vez que a distopia vive sob os pés de seus habitantes. Ela fica registrada nas paredes do museu, junto às fotos e evidências de séculos de resistência, que transformam a batalha atual em apenas mais um capítulo de uma longa história de sobrevivência.

Como nota final, ressalto o papel dos “poderosos psicotrópicos” utilizados pela população de Bacurau, particularmente no momento mais crítico da resistência. A forma liberal com que é encarada o uso de drogas não é o elemento central do filme, como algumas críticas apontam. O uso das drogas aparece como um alerta de que o enfrentamento da realidade que ameaça os direitos e a existência de parte da sociedade exige pensar para além do real. Resistir no mundo atual exige sonho, utopia e alguma dose de delírio, para que não sucumbamos ao vaticínio de que o inimigo é poderoso demais e a resistência é inútil. Neste sentido, o psicotrópico funciona como uma alegoria inteligente para o grau de insana ousadia e esperança que o tempo nos exige, sem as quais nos manteremos na passividade anestesiada que hoje nos encontramos.

Em suma, a batalha entre utopia e distopia retratada em Bacurau traz consigo uma grande dose de realismo. Ele é uma representação simbólica de um conflito real, atual e que se percebe em todo o mundo ocidental. Sua grande novidade é trazer o conflito para o campo da brasilidade, resgatando nossas raízes históricas e personagens típicos do povo brasileiro. Por trás de cada personagem, existe uma sociedade complexa e contraditória, que é retratada de forma rica e criativa, evitando embarcar na caricatura do herói virtuoso. A virtude não está nas pessoas, mas na utopia. E quem disse que bandidos não podem sonhar com uma sociedade mais justa?

Crédito da foto da página inicial: Divulgação

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