É recorrente a narrativa de que o poder público enfrenta dificuldades financeiras. Por que, então, aplicar dinheiro para desfazer o que já estava pronto? (Na foto, o Vale Anhangabaú, SP).
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Wagner de Alcântara Aragão

É jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco

 
Wagner de Alcântara Aragão

Obras urbanas onde menos se fazem urgentes

Retroescavadeiras removendo o que estava inteiro; pavimentos e calçadas destruídas para serem reconstruídas. Tudo em nome de uma suposta revitalização, enquanto logradouros bem mais degradados seguem largados

28/08/2019

Vale do Anhangabaú, região central de São Paulo. Ponta da Praia, orla de Santos. Rua Voluntários da Pátria, Centro de Curitiba. Três lugares, em cidades diferentes, com uma paisagem semelhante no momento: espaços tomados por retroescavadeiras e outras máquinas e equipamentos; calçadas que estavam inteiras, pavimentos que estavam sólidos sendo revirados, removidos. Todos, segundo as respectivas administrações municipais, em processo de revitalização.

Obra na rua Voluntários da Pátria, em Curitiba.
Foto de Levy Ferreira/Divulgação Prefeitura de Curitiba

O que há de errado nisso? No mínimo, há de estranho, e de incômodo. Eram – são – lugares em condições muito, mas muito melhores que diversos outros pontos nas mesmas cidades.

É recorrente, quase unânime, a narrativa de que o poder público, em todas as instâncias de governo, enfrenta dificuldades orçamentárias e financeiras. Congelam-se salários de trabalhadores do serviço público sob tal justificativa; praças, ruas, escolas, postos de saúde nas periferias estão largados também com base no argumento da falta de recursos. Ora, por que, então, se aplica dinheiro para desfazer o que já estava pronto?

Evidente que o Vale do Anhangabaú merecia, e merece, manutenção, conservação, intervenções que mantenham a área como espaço de convivência, digno de seu valor histórico, arquitetônico, cultural e social. Mas entre isso e a destruição para depois se reconstruir há uma grande diferença, não é mesmo? Ainda mais na conjuntura já abordada.

A orla da Ponta da Praia, por sua vez, contava com calçamento em ordem, arborização, ciclovia, avenida com asfalto não tão antigo se comparado ao de outras vias de Santos. As ressacas de inverno atingem e derrubam parte das icônicas muretas; era só reerguê-las. Por que, no entanto, arrancar tudo, mudar a geometria do calçadão, com outros bairros da cidade bem mais degradados urbanisticamente e carecendo de intervenções com mais urgência – e se bobear, até custando menos para fazê-las?

Obra na Ponta da Praia, em Santos. Foto de Susan Hortas/Divulgação Prefeitura de Santos

A curitibana Voluntários da Pátria se encontrava em situação incomparavelmente melhor que ruas do Cajuru, do Capão da Imbuia, do Tatuquara, por exemplo. De fato, em alguns pontos as pedras do calçamento estavam soltas, ou faltando. Nada que bons reparos não colocassem tudo em ordem. O que se viu, porém, foi uma detonação desenfreada do que estava inteiro. Sim, está ficando mais bonita do que antes. Sem dúvidas. A dúvida é por que não se priorizou logradouros que estavam muito mais feios, há muito mais tempo.

São três casos, verificados in loco por este articulista. Não são isolados. Certamente em cidades outras pelo Brasil há situações parecidas. Inexplicáveis, à luz da razão. Explicáveis, à luz de interesses outros.

Crédito da foto da página inicial: Luiz Guadanoli/ Divulgação Prefeitura de São Paulo

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