O agronegócio ora parece criticar, ora apoiar Bolsonaro. Como entender esse posicionamento?
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Brasil Debate

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Luana Forlini

Internacionalista e bacharel em Ciências e Humanidades, atualmente é mestranda em Ciência Política pela Unicamp. Faz parte dos grupos de pesquisa "Política Externa e Classes Sociais" (UFABC) e "Estado e Burguesia no Brasil" (Cemarx/Unicamp)

 
Luana Forlini

O agronegócio e o governo Bolsonaro

Até que ponto o presidente da República conseguirá tensionar com as tradings e o grande capital internacional para atender aos interesses dos produtores rurais, que formam uma de suas principais bases de sustentação?

01/10/2020

Não é novidade nenhuma afirmar que o governo de Jair Bolsonaro está destruindo o meio ambiente, as florestas e os biomas brasileiros, está passando a boiada, para utilizar uma expressão do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Recordes de queimadas, ataques contra comunidades indígenas e quilombolas, esvaziamento de órgãos como o Ibama e o ICMbio. A imagem do Brasil no exterior, sobretudo na Europa onde a pauta ambiental ganhou terreno nos últimos anos, está fragilizada. O Acordo Mercosul-União Europeia bambeia e os produtos do agronegócio brasileiro estão em vias de serem boicotados. Diante desse cenário, o agronegócio ora parece criticar, ora apoiar Bolsonaro. Como entender esse posicionamento?

O agronegócio é um termo que engloba muitos setores e culturas diferentes, desde a pecuária de corte até a plantação de laranja, por exemplo. Ou seja, não é homogêneo. Podemos delimitar aqueles setores que fazem parte da “porteira para dentro” e aqueles da “porteira para fora”. O primeiro refere-se às atividades que estão ligadas à produção dentro da fazenda, como o plantio e a compra de sementes e agrotóxicos. Quando o produto sai da fazenda, ele fica a cargo de processamentos e/ou comercialização, estando na “porteira para fora”. Em linhas gerais temos, de um lado, produtores rurais e, de outro, as tradings, empresas encarregadas principalmente da compra e venda dos produtos e que são em sua maioria estrangeiras.

As tradings têm mais peso e mais poder econômico dentro das cadeias de produção – são elas que determinam preços e possuem negócios verticalizados, como no caso da chinesa China National Cereals, Oils and Foodstuffs Corporation (COFCO) que atua no processamento e na comercialização de grãos, como a soja e o milho, bem como realiza investimentos em infraestrutura.

É evidente que devido a sua localização nas cadeias de produção, produtores rurais e tradings terão interesses e reivindicações diferentes. Tomando como exemplo a cadeia de produção do principal produto do agronegócio brasileiro, a soja, os produtores rurais estão mais preocupados com expandir áreas para cultivo, conseguir investimentos em infraestrutura e logística e estão alinhados com a narrativa do governo de que existe um complô mundial de ONG’s e atores internacionais para difamar o agronegócio brasileiro. Não à toa, são produtores rurais que estão sendo investigados por começar queimadas na Amazônia e no Pantanal.

As tradings são focadas em expandir mercados, como ampliar a venda de farelo de soja para a China. Como consequência, se preocupam mais com a imagem do Brasil no exterior e com possíveis boicotes aos produtos brasileiros – necessário sublinhar que não fazem isso por responsabilidade social com o meio ambiente.

O caso da moratória da soja, um pacto firmado em 2006 entre empresas, ONG’s e governos para impedir que os signatários comprem o produto de áreas que foram desmatadas ilegalmente após 2008, é bem ilustrativo. Desde o primeiro ano da presidência de Bolsonaro, os produtores de soja, por meio da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), pressionam para o fim da moratória, argumentando que ela impõe restrições muito duras para a produção. As tradings, representadas pela Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), uma das entidades que participaram da criação da moratória, defendem sua continuidade, pois, com ela, os compradores têm mais segurança da procedência dos produtos brasileiros.

É a partir desse contexto e dessas diferenças que podemos apreender o posicionamento do agronegócio frente às investidas de Bolsonaro contra o meio ambiente. Enquanto há críticas por parte de algumas empresas e entidades do agronegócio, a Aprosoja Brasil defende o governo e chegou a romper com a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) depois de essa participar da construção de documento com sugestões para diminuir o desmatamento na Amazônia. 

Bolsonaro possui várias convergências com os produtores rurais, sobretudo no discurso contra a pauta ambiental, contra as ONG’s internacionais e contra a moratória da soja. Entretanto, seu governo representa, em última instância, o grande capital internacional, sendo necessário balancear o posicionamento entre os produtores e as tradings. Não devemos esquecer que uma das conquistas ostentadas no âmbito da política externa em 2019 foi o Acordo Mercosul-União Europeia, o qual beneficiará principalmente aquelas últimas.

O discurso de Bolsonaro na última Assembleia Geral da ONU demonstra essa tentativa de matizar o discurso, apesar de todos os impropérios e mentiras contidas nele. Se por um lado Bolsonaro tentou reforçar seu compromisso com o Acordo de Paris que é essencial para a ratificação do acordo supracitado, por outro eximiu de responsabilidade os produtores rurais pelas queimadas, jogando a culpa nos índios.

A grande questão é até que ponto Bolsonaro conseguirá tensionar com as tradings e o grande capital internacional para atender aos interesses dos produtores rurais, que formam uma de suas principais bases de sustentação no governo. É certo que, se o governo mudar a postura frente ao meio ambiente, não será por ter se preocupado com sua destruição.

Crédito da foto da página inicial: José Cruz/Agência Brasil

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