Medidas de afastamento social, entre outras, não foram a causa principal da recessão. Antes disso, a economia já estava parada.
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Brasil Debate

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Emilio Chernavsky

É doutor em economia pela USP

 
Emilio Chernavsky

Não, a queda do PIB não é (só) culpa do coronavírus

Vendas no comércio, atividade do setor de serviços e produção da indústria de transformação já estavam estagnados havia meses, antes da adoção de medidas relacionadas à pandemia

02/06/2020

No último dia 29 foi divulgado o resultado das contas nacionais, que apontou a queda de 1,5% do PIB brasileiro em relação ao trimestre anterior e citou os efeitos da pandemia e do distanciamento social como seus causadores. A sugestão de que a pandemia teria levado uma economia de outro modo próspera à recessão foi amplamente reproduzida pela grande imprensa, que ajudou assim a propagar uma falsidade.

Pois, se é verdade que a pandemia possui impactos profundos sobre a economia, estes apenas passaram a ter relevo com a decretação pelos governos locais de medidas de afastamento social, o que, com poucas exceções, somente começou a se dar na segunda quinzena de março, afetando a atividade desse mês. Ocorre que, antes disso, a economia já estava parada.

Como mostra o gráfico, em fevereiro, quando praticamente nenhuma medida relacionada à pandemia havia ainda sido adotada no país, os volumes de vendas no comércio varejista, de atividades no setor de serviços, e da produção da indústria de transformação, estagnados havia meses, se situavam, os três, em patamares levemente inferiores aos registrados em outubro, no início do trimestre anterior.

Era esse o estado real do país enquanto o ministro Guedes continuava a repetir que a economia estava decolando. Contrariando o panorama róseo que transmitia, contudo, as evidências se acumulavam. Mesmo antes de o ano começar, os dados positivos das vendas de Natal de 2019 divulgados pela Associação de Lojistas de Shoppings foram amplamente desmentidos por lojistas e por outras associações do setor.

Dados antecedentes menos otimistas continuaram a surgir com o passar das semanas e, em março, os indicadores do IBGE para janeiro foram divulgados mostrando números desanimadores. Isso não impediu que o ministro, em abril, ainda afirmasse que o Brasil estava decolando antes da crise do coronavírus. Vinda de um expoente do governo que, não obstante as dezenas de milhares de mortos, continua não reconhecendo a gravidade da crise de saúde pública provocada pela pandemia, essa completa negação da realidade não surpreende.

Tampouco surpreende a atitude da grande imprensa, que difunde a explicação oficial para a severa queda no PIB de modo a desresponsabilizar a condução da economia do ministro Guedes. Ela não consegue, entretanto, esconder o acúmulo de fracassos nem sua incapacidade de oferecer ao país um conjunto articulado de medidas eficazes para responder à crise econômica que deve continuar a se agravar.

Crédito da foto da página inicial: Rovena Rosa/Agência Brasil

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