A pergunta crucial é o quanto as tensões geopolíticas pesarão sobre a atividade econômica em 2022 e nos próximos anos.
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Brasil Debate

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Felipe Silva

Graduado em Relações Internacionais e Economia pela FACAMP e doutorando de Economia pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Desenvolve pesquisa relacionadas a macroeconomia, finanças internacionais e conjuntura

 
Felipe Silva

Guerra da Ucrânia e impactos econômicos globais: aonde isso vai parar?

Historicamente, períodos de riscos geopolíticos elevados são associados a efeitos negativos consideráveis sobre a atividade econômica global. Mesmo que esta guerra acabe hoje, sem um programa universal (e sério) de sustentação de renda, recuperar a economia é quase inviável

19/07/2022

Os riscos geopolíticos foram substancialmente elevados a partir da invasão russa na Ucrânia. A expectativa inicial dos investidores, políticos de regiões próximas à Rússia e Ucrânia e das instituições internacionais era que a guerra afetasse a economia global imediatamente, com um aumento acentuado na incerteza e riscos em economias que dependiam de produtos originários de ambos os países. A guerra teve início no fim de fevereiro de 2022, quando subitamente, na madrugada de uma quinta-feira, o pânico tomou conta no território ucraniano. Naquele horário, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que havia ordenado uma invasão militar.

O primeiro ataque foi sucedido de outros intensos bombardeios a cidades com grande relevância política e econômica da Ucrânia, inclusive contra a capital, Kiev.

Naturalmente, ergueram-se dúvidas e rumores sobre os efeitos econômicos mundiais desses ataques e, principalmente, quanto tempo a guerra duraria. Os mercados financeiros e de commodities apresentaram imediatamente uma turbulência, recrudescendo a volatilidade desde o início do conflito. Esse tem sido um dos maiores receios em nível global. À luz desses fatos, a pergunta crucial deste artigo é: quanto as tensões geopolíticas pesarão sobre a atividade econômica em 2022 e além?

Um desafio fundamental para compreender os efeitos das tensões geopolíticas aumentadas diz respeito à identificação setorial de cada uma das partes em conflito. A Rússia é um dos principais produtores de petróleo do mundo, de acordo com os dados Jodi-Oil. Por sinal, os produtos exportados pelos russos com mais destaque são o petróleo bruto e derivados e combustíveis, gás natural e carvão, que equivalem a 56,9% do total exportado pela Rússia e 11% das exportações totais do mundo nesses produtos.

Um percentual expressivo do gás que abastece toda a Europa, cerca de 40% do gás utilizado no continente, é oriundo da Rússia. Isso elevou imediatamente os temores em relação a uma crise no fornecimento de gás, conforme as instituições enrijeciam as retaliações e sanções econômicas sobre Moscou. Não apenas os produtos derivados de petróleo têm ampla relevância na pauta de exportação russa, mas também o alumínio e o trigo (uma das maiores produtoras do mundo).

A Ucrânia, todavia, conta com uma menor participação nas exportações mundiais, totalizando US$100,1 bilhões exportados anualmente, sendo que 23,9% das vendas externas ucranianas são compostas por óleo de girassol, milho e trigo, seguidos pelo minério de ferro (7%). As vendas desses três produtos básicos correspondem a 19%, 4% e 3% das exportações mundiais, respectivamente.

Entre os pontos que mais geram preocupação em nível mundial está o aumento generalizado do preço do barril de petróleo que, por sua vez, encarece todos os produtos da cadeia de refino.

Assim, quanto maior o preço do barril em dólar, maior será a pressão sobre a inflação de três formas: i) o preço do petróleo fica mais caro, elevam-se os preços das importações e, consequentemente, aumentam os preços dos refinados; ii) a elevação dos preços de refinados pressiona os custos do frete de mercadorias por parte das distribuidoras de alimentos, produtos e etc.,  o que gera impactos no ponto seguinte da cadeia de fornecimento; iii) diversos produtos utilizam petróleo em sua composição, o que aumenta os seus preços, embora não proporcionalmente aos aumentos de preços dos combustíveis, mas termina por pressionar os preços finais pagos pelos consumidores.

O aumento do preço dos grãos expressa efeitos potenciais sobre a segurança alimentar, principalmente porque servem de base para a alimentação humana e produção de proteína animal. Os preços do milho em alta elevam os custos da alimentação dos animais que vão ser destinados à produção de proteína animal, encarecendo-os também no elo final da cadeia.

Historicamente, períodos de riscos geopolíticos elevados têm sido associados a efeitos negativos consideráveis ​​sobre a atividade econômica global. As guerras são nocivas tanto social, quanto política e economicamente. Desviam o comércio internacional, esvaziam as instituições, obstruem os fluxos de capital, criam problemas de arrecadação e, consequentemente, impactam a capacidade do Estado de gerenciar as políticas públicas. Interrompem as cadeias globais de suprimentos, acentuando assim a pobreza em todas as partes do mundo, especialmente nas nações economicamente mais frágeis.

As modificações dos cenários e o risco geopolítico dessa guerra podem resultar em ainda mais incerteza sobre os rumos da atividade econômica internacional, a depender do grau de interação entre os envolvidos, provocando uma debacle institucional, crise de abastecimento, retração massiva do investimento e pressão inflacionária.

O que é curioso é o fato de o ambiente econômico global não ter nem mesmo se restabelecido da crise da Covid-19 e já mergulhar em uma outra crise, atrapalhando ainda mais a recuperação e impondo novas ameaças ao crescimento.

Os efeitos iniciais da alta dos preços já instigaram os bancos centrais a praticarem uma política monetária de caráter contracionista, como o caso do Federal Reserve dos EUA, que mudou o tom elevando as taxas de juros em 50 pontos-base, surpreendendo a muitos pela intensidade da alta, e sinalizando que ainda que há espaço para outros aumentos.

No Brasil, o Banco Central, que já determinara um período de sucessivos aumentos da SELIC a fim de combater a inflação, ganhou desde o fim de fevereiro mais um grande motivo para se preocupar com a condução da política monetária: um ambiente externo com riscos mais elevados do que o previsto. E, diga-se de passagem, o principal instrumento da política monetária do Banco Central do Brasil, já há tempos, parece ser ineficiente no controle inflacionário.

Os preços das commodities no mercado internacional, sob risco de desabastecimento, não pouparam nem mesmo o Brasil, a terra do “pessoal” que fez “arminha” na eleição, forçando o ajuste dos valores nas gôndolas e nos postos de gasolina – o que supostamente teria sido resolvido com a queda da alíquota do ICMS cobrado pelos estados.

O Velho Continente talvez esteja numa situação um pouco pior. Lá, há riscos que vão desde a redução maciça da oferta russa de gás até a insolvência nos mercados financeiros, por conta das dívidas elevadas e superaquecimento dos ativos.

A interrupção do SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) não foi, nem de longe, capaz de assustar os russos com a suspensão das transações financeiras internacionais destinadas e originadas no país.

Nem mesmo a interrupção das operações de exportação de gás e o controle de capitais duraram muito tempo, vide o decreto do presidente russo que ordena que o pagamento do gás seja feito em sua moeda. A ideia inicial da exclusão da Rússia do SWIFT era suprimir a capacidade interna de financiamento e produção, a fim de pressioná-la a adiantar um cessar fogo, mas isso não ocorreu.

A alta do petróleo já tem causado na Europa e nos EUA uma pressão de oferta que deixou espantadas as respectivas autoridades monetárias. A Zona do Euro já engasga com a inflação nos últimos 12 meses acima dos 8,5%; e os EUA registram a maior inflação desde 1980 sob a mesma metodologia, com um aumento de 9,1%. Isso requer muita atenção mundial, justamente porque nesse momento os efeitos econômicos da pandemia se misturaram aos da guerra, abrindo margem para o fantasma de estagflação.

A coordenação desses efeitos nesse momento não parece ser definitiva, apenas paliativa, e ainda expressa dificuldades que não serão solucionadas tão cedo, pelo menos não enquanto o conflito ainda estiver ocorrendo, sem previsão de um cessar fogo.

A Europa é uma das regiões com maior exposição caso a guerra na Ucrânia se prolongue ou escale: há riscos de espalhamento do conflito pela região e ainda sérias dificuldades de substituir o combustível fornecido pelos russos. As economias de baixa renda, subdesenvolvidas e tomadoras de preços internacionais, também estão sob risco devido ao aumento dos preços de alimentos básicos e energia. Isso tem forçado os bancos centrais a agirem tão logo possam, causando uma desaceleração do crescimento maior ainda do que o esperado egerando, assim, problemas sérios no curto e médio prazonos esforços rumo à superação tanto da crise do Covid, quanto da guerra.

Sob a eminência de um colapso alimentar, é urgente o diálogo e cooperação global em logística para evitar uma crise alimentar conjuntamente com o apoio governamental direcionado às famílias mais atingidas pelo aumento da inflação. O futuro da guerra é altamente incerto, e desenvolvimentos imprevistos do conflito podem gerar novas mudanças no risco geopolítico e piorar seus efeitos econômicos, mesmo que todas as medidas aqui sugeridas sejam adotadas com sucesso.

Em conclusão, mesmo que a guerra acabe hoje, se não houver um programa universal (e sério) de sustentação de renda que seja duradouro, a recuperação da atividade econômica é quase inviável.  As instabilidades socioeconômicas se acentuarão ao ponto do esgarçamento do tecido social, principalmente no Brasil, provando que: “um espirro lá fora vira um resfriado aqui dentro”.

Crédito da foto da página inicial: Getty Images

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