Diante do primeiro caso da doença, síndica e funcionários do condomínio agiram rápido, tomando todas as medidas importantes, entre elas informar bem os moradores.
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Brasil Debate

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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

A síndica do meu prédio gere melhor a crise da Covid-19 que Bolsonaro

Se a síndica conhece os procedimentos e faz muito bem os ajustes necessários, creio que as autoridades públicas não tenham dificuldades técnicas para implementar as medidas importantes. Mas, me questiono se têm o mesmo caráter da dona Acácia

05/06/2020

Permita-me o leitor que eu apresente uma pequena experiência pessoal ao argumento que aqui defenderei em relação à gestão pública da pandemia brasileira do coronavírus: semana passada, no condomínio Monte Carlo, onde moro, foi identificado o primeiro caso de Covid-19 entre os moradores. A síndica e os funcionários do prédio agiram com rapidez. Várias atitudes foram acrescidas às prevenções já implantadas. Primeiro, informes: no elevador, no grupo de whatsapp, na caixa do correio. Todos receberam as informações do caso e as novas medidas necessárias para prevenção.

Acrescentou-se rigor ao convívio dos moradores. Aumentou a frequência com que se higienizam os espaços sociais. Usar máscara em ambiente de convívio. Uma pessoa por vez no elevador. Álcool gel pelo prédio em vários espaços de acesso. Limpar maçanetas. Colocar os sapatos em áreas de serviço dentro do apartamento. Áreas de convivência coletiva foram fechadas. Academia fechada. Ambientes das crianças, fechado. Evitar pedir comida por aplicativo. E uma série de recomendações com a explicação de que a pessoa e a família do caso infectado permaneceriam em quarentena.

Informação precisa e rápida, regras rígidas para o contato social e inciativas que facilitam a prevenção ajudam, e muito, a diminuir as chances de contágio. Foram iniciativas simples, sérias e muito úteis porque contam com educação, aprendizado e colaboração.

Infelizmente, temos poucas alternativas para enfrentar a Covid-19. Diante do estrago que a doença faz (inclusive no próprio sistema de saúde), a melhor maneira para enfrentar a pandemia é o isolamento social. Informação rápida, atitudes preventivas com mãos sempre limpas e máscaras, exames para identificação dos infectados, rápido isolamento para evitar contágio e tempo. Se a síndica do meu prédio conhece os procedimentos e faz muito bem os ajustes necessários, acredito que as autoridades públicas não devem ter dificuldades técnicas para implementar as medidas importantes. Mas, acabo me questionando se têm o mesmo caráter da dona Acácia.

Sabemos que nossos esforços não vão evitar que a doença exista. Mas, faz com que os índices de contágio e o efeito diminuam consideravelmente. O governo federal, infelizmente, não aposta no enfrentamento da doença, mas na sua naturalização. Essa aposta tem como consequência mais contágio e caos no sistema de saúde. Podemos ver a diferença entre o modo com que o presidente do Brasil está lidando com a crise e o presidente Argentino, por exemplo. Enquanto o Brasil ultrapassa 30 mil mortos, a Argentina não chega a mil. Tem mais gente que morreu de Covid-19 na zona Leste de São Paulo do que na Argentina Inteira. Ao final, em resultado real, em torno de 100 mil mortes a mais que nosso vizinho.

Para se perceber o efeito das decisões, segundo o jornal inglês The Sunday Time, um estudo do Imperial College de Londres e a Universidade de Oxfort relacionou a morte de 41 torcedores a um jogo entre Liverpoll e Atlético de Madrid, quando os países estavam com perspectivas diferentes (Espanha com alto crescimento e Inglaterra ainda mantinha jogos com torcidas e eventos públicos). Imagine que se decida que o futebol no Brasil deve voltar. Nosso país tem pelo menos 4 divisões profissionais com 10 jogos cada e mais as divisões menores, amadores etc. Por baixo, sem observar crescimento de contágio que isso gera, são cerca de 2 mil pessoas que morreriam por fim de semana se somadas as quatro divisões do esporte mais amadores.

Outro estudo mostra que uma passeata na Espanha em fevereiro ajudou na propagação do vírus e no seu descontrole. Aglomerações públicas são terreno fértil para o espalhamento da doença, mas não só; espaços fechados como ônibus, metrô, sala de aulas, escritórios, locais sem circulação de ar natural são meios de propagação do vírus. Quando mais gente junta, mais difícil conter a proliferação da doença.

A abertura precoce da vida cotidiana no Brasil e o fim do isolamento social podem ter duas consequências: a) na pior das hipóteses, um novo surto da doença e o descontrole maior dos casos a partir de um espalhamento que seja pior e mais difícil de controlar; ou b) na melhor das hipóteses, não haver novo surto, mas um aumento irresponsável de mortes.

O fato é que o enfrentamento da pandemia de coronavírus exige coordenação e cooperação das diversas instituições de governo em todos os níveis federativos. Coisa que o modo de operar da coalização Bolsonarista não tem e não aceita fazer. Em alguma medida, Bolsonaro se elegeu com o discurso (ou como resultado) da antipolítica e do antissistema. O problema é que numa crise tão difícil como a que estamos vivendo, não existe espaço para o antissistema. Enfrentar a Covid-19 significa conversar com governadores, disponibilizar recursos, negociar prazos, buscar atender aos mais frágeis, implementar políticas emergenciais. Nada das coisas que esse governo está disposto a fazer politicamente.

Não sei se houve um erro de avaliação por parte da equipe ou se há irresponsabilidade mesmo deles. Bolsonaro desde sempre quis que a economia não parasse e foi contra o isolamento social. As universidades ao redor do mundo que estudam a proliferação do contágio chegaram a supor que se não houvesse rápido isolamento social, países como o Brasil teriam cerca de 2 milhões de mortos. Essa perspectiva se reduziu para 200 mil com as atitudes até aqui tomadas. Bolsonaro mantém o discurso de retomada da atividade econômica, que preocupa a todos nós. Não quer fazer políticas anticíclicas de recuperação e participação do estado. Outra bandeira que foi completamente revista pelos liberais mais radicais ao redor do mundo.

O discurso das fakenews e a interpretação tradicionalista da história faz com que o vírus da Covid-19 seja ignorado. Obviamente, muita gente embarca na estupidez. A população de modo geral, se arrisca. É frágil e não pode abrir mão de trabalhar sem um apoio a renda. Os governos dos Estados, sem respaldo do governo federal, têm pouca estrutura para bancar sozinhos a guerra contra o vírus. Nessas desavenças, a doença avança, faz estrago e acentua a curva de contaminados e mortos.

De outro lado, parte dos tomadores de decisão, da imprensa e da elite econômica do país têm recursos e proteção, consegue melhores condições de proteção e tratamento (se for necessário). Esse mesmo grupo pressiona para a volta antecipada da circulação de pessoas, minimizando os efeitos coletivos de ser uma decisão precoce. E, ao identificar essa parcela da população que pensa assim, podemos perceber o atraso em que nos encontramos, porque a Covid-19 nos obriga a pensar diferente, menos individualisticamente e mais coletivamente.

Não somos Robson Cruzoé numa ilha isolados, compartilhamos o ar, a água, a vida e os recursos.  Se essa chave não mudar rapidamente, o vírus ganha e o país perde parte importante das pessoas. Não tenha dúvidas, individualmente também todos nós teremos perdas.

Crédito da foto da página inicial: Rovena Rosa/Agência Brasil

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1 resposta to “A síndica do meu prédio gere melhor a crise da Covid-19 que Bolsonaro”

  1. Benedicto Damião disse:

    Depois do STF ter impedido do Governo Federal intervir nas decisões de Governadores e Prefeitos, sobre a execução da política de enfrentamento da pandemia, e deixar pra União a responsabilidade de custear financeiramente as estratégias dos gestores dos estados e dos municípios, se endividando para repassar quase R$ 1 trilhão para compra de equipamentos e instalações físicas, o que mais você sugeriria que o Governo Federal fizesse?

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