Muito mais do que um atentado à liberdade de imprensa, o que aconteceu na França, segundo o autor, foi um episódio bárbaro que tem dimensão religiosa e política e merece resposta no campo da negociação política e entendimento humano.
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Brasil Debate

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Saturnino Braga

Formado em engenharia civil e econômica, teve longa vida política como vereador, deputado federal e senador por três mandatos, tendo sido o primeiro prefeito do Rio de Janeiro eleito pelo voto direto. Escritor com 15 livros publicados, preside o Centro Internacional Celso Furtado e o Instituto Cultural Casa Grande.

 
Saturnino Braga

Viva Charlie

O atentado na França faz parte de uma guerra que levanta ódios de grande perversidade e suscita um radicalismo crescente e assustador entre os islâmicos agredidos. Radicalismo completamente estranho à histórica tolerância dos antigos Califados

Não foi um atentado à liberdade de imprensa; isso é coisa da mídia do pensamento único. Foi, sim, muito mais, foi um atentado ao ser humano, no seu direito fundamental à vida e à dignidade. E um atentado bárbaro que merece condenação veemente de toda a humanidade, acima de qualquer consideração outra.

O assassinato teve uma evidente dimensão religiosa, na medida em que pretendeu justificar-se como punição de atitude sacrílega contra o Profeta, e assim fez reviver o sentimento humano de horror a qualquer fanatismo, religioso ou político.

Mas teve, também, uma dimensão política, menos evidente, porém muito forte e presente. Há uma guerra no Oriente Médio, devastando há décadas vários países islâmicos, uma guerra movida pelos interesses do grande capital ocidental, que há cerca de um século ocupa a região e explora suas populações e suas riquezas, antes administradas rotineiramente pelo Império Otomano.

Uma guerra que levanta ódios de grande perversidade e suscita um radicalismo crescente e assustador entre os islâmicos agredidos, radicalismo completamente estranho à histórica tolerância dos antigos Califados.

Alastrar esta guerra, fazendo com que ela atinja diretamente o Ocidente no seu território e na sua população, pode ser um objetivo islâmico. Mas pode coincidir com outro interesse, do grande capital, em que este Ocidente atingido se fixe e se restrinja ao território da França, onde é maior a concentração de muçulmanos e onde ainda fermenta um rancor histórico que vem da guerra da Argélia com todas as suas barbaridades. São especulações que é bom deixar correr.

Bem, mas a França, com a sua História, com a sua literatura, com o seu teatro, suas artes, suas universidades, com a sua filosofia, com a sua ciência, é um dos pilares de formação e de sustentação da nossa Civilização Cristã Ocidental.

E é preciso que dê consequência a esta condição, preservando as virtudes fundamentais desta Civilização neste confronto em que foi jogada.É essencial, é indispensável que encontre o caminho de responder à barbárie com a dignidade essencial desta Civilização.

A França tem que buscar e seguir este difícil caminho de diálogo e convivência, de negociação política e entendimento humano fundado nos direitos fundamentais do homem estabelecidos pela Civilização que ela tanto operou para edificar.

Tem esta responsabilidade por uma tríplice razão: porque dominou, colonizou e oprimiu e explorou esses povos no Oriente Médio e no norte da África; porque foi direta e brutalmente atingida e continua seriamente ameaçada; e porque é uma das maiores construtoras desta nossa Civilização.

O mundo cristão espera isto da França e este mesmo mundo ocidental tem também a obrigação moral e cultural de ajudar, de colaborar, de participar ativamente desta difícil negociação.

Será muito difícil, pela larga diferença de tempos culturais que separam essas sociedades. Difícil e demorado; para se consumar na segunda metade do século. Difícil pelas diferenças que terão de se compreender e difícil pela força dos interesses do grande capital que terão de ser enfrentados e subjugados.

O Ocidente tem que começar negociando a retirada das armas, das tropas e do business que operam nesses territórios. Muito difícil, mas não impossível. E é a causa da paz, e da sobrevivência mesma da nossa Civilização que está em jogo.

O Brasil pode e deve colaborar, com a sua tradição e com a sua sabedoria.

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