A resposta deve ir além dos argumentos meramente econômicos e políticos. Estamos diante do desafio de repensar a nossa sociedade.
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Brasil Debate

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Ricardo Buratini

É doutor em economia pelo IE-Unicamp e professor da Facamp

 
Ricardo Buratini

Vale a pena parar a economia para enfrentar a crise? Eis a questão

Situações extraordinariamente graves abrem espaço para reflexões inéditas, para novos arranjos políticos e soluções inovadoras até então tidas como inimagináveis. O vírus nos coloca diante de uma crise civilizatória

01/04/2020

A resposta para essa delicada questão deve ir além dos argumentos meramente econômicos e políticos. Ela deve considerar, sobretudo, questões éticas indispensáveis à construção de uma nova racionalidade capaz de equacionar a crise imediata e lançar as bases para o enfrentamento de outros desafios crônicos da sociedade contemporânea. 

É certo que o argumento da severidade dos efeitos econômicos da paralisação geral da atividade e a possibilidade de reincidência da epidemia do Covid-19 num futuro próximo têm que ser levados em consideração quando discutimos as alternativas para lidar com a grave crise atual. Afinal, há razões para crer na possibilidade de reincidência da epidemia após a normalização das rotinas daqui algum tempo e são seriíssimos os efeitos econômicos e sociais de uma ampla e prolongada paralisação, não só agora mas continuamente.

Mas, por outro lado, ainda assim entendo que prevalecem três argumentos fundamentais tanto para sustentar uma defesa enfática da manutenção, por ora, da política do maior isolamento possível, como para lançar outras questões que extrapolam o urgente objetivo da mitigação dos efeitos da pandemia.

O primeiro argumento é da ordem da saúde pública e já vem sendo destacado desde o início dessa crise pela OMS e pela grande maioria dos infectologistas. Ele pode ser resumido nos seguintes termos: independentemente do retorno ou não da epidemia num futuro próximo, o melhor que se tem a fazer agora do ponto de vista da saúde pública é aplainar a curva de transmissão e ganhar tempo, seja para viabilizar o desenvolvimento de tratamentos melhores, seja para observar a experiência de outros países e tomar decisões mais acertadas, seja para evitar o caos que decorrerá do enorme afluxo de pessoas aos centros de atendimento.

O segundo argumento é de ordem econômica e política. Em essência, considero que, por mais grave e complexo que seja o desajuste macroeconômico, não devemos esquecer que a superação de qualquer crise econômica é sempre politicamente possível, podendo ser tão mais rápida quanto mais brevemente for estabelecido um novo consenso sobre o que deve ser feito.

Situações extraordinariamente graves abrem espaço para reflexões inéditas, para novos arranjos políticos e, portanto, para soluções inovadoras até então tidas como impossíveis ou inimagináveis. É isso que tem sido visto e destacado ultimamente, e de forma cada vez mais ampla, por um grupo cada vez maior de agentes econômicos, muitos dos quais até pouco tempo rendidos incondicionalmente à visão neoliberal (segundo a qual bastariam o ajuste fiscal, as reformas microeconômicas e a inflação baixa para atingirmos os máximos resultados possíveis).

Salta aos olhos nesse sentido também o apoio crescente que vêm recebendo duas medidas centrais a nosso juízo no curto prazo: de um lado, um pacote agressivo de suporte financeiro para pequenas, médias e grandes empresas e, de outro, um amplo programa de garantia de renda mínima ao vasto conjunto das pessoas mais vulneráveis no momento (desempregados, informais, pequenos proprietários etc.).

Não ignoro, porém, a existência de importantes desafios operacionais e políticos no curto prazo para a materialização e calibragem dessas iniciativas, desafios que certamente demandarão ajustes do lado técnico e ampla mobilização e união das lideranças mais responsáveis e pragmáticas na esfera política. Também não desconsidero a importância de outras medidas estruturais de médio e longo prazo, essas sim mais difíceis de articular politicamente. Quanto a estas medidas, a despeito de sua importância, vale frisar que são desafios posteriores, ou seja, são esforços que têm que ser pensados, discutidos e negociados desde já, mas que não farão tanta falta por ora na fase mais aguda da crise.

O último argumento é ético e penso que é o mais essencial não somente para lidar com a crise associada à pandemia, mas para refletir sobre qual o modelo de sociedade pretendemos resgatar e fortalecer nesse grave capítulo da nossa história. Seria o modelo do utilitarismo, do cálculo, da meritocracia e da máxima concorrência como princípio orquestrador das relações sociais e distribuição dos benefícios (o modelo da racionalidade neoliberal até aqui hegemônico)? Ou seria um novo modelo centrado na solidariedade, na cooperação e no resgate da primazia dos valores humanistas universais? (um modelo que não supõe que estas conquistas possam ser trazidas automaticamente pelo “livre” jogo das forças do mercado).

Trazendo assim a dimensão ética para a discussão do nosso objeto específico (a pandemia) e explicitando minha resposta à pergunta colocada no título desse artigo, já posso enfatizar, então, que o abrandamento das restrições à livre circulação das pessoas nesse momento corresponde a uma ideia criminosa mesmo supondo que, feito isso, estaríamos assegurando o mal menor ao maior número de pessoas no longo prazo. Com efeito, a despeito de parecer uma proposta bem intencionada (poupar a vida de mais pessoas no futuro), trata-se do reforço da ética vigente, ou seja, da ética eminentemente utilitarista centrada no cálculo e, neste caso específico, numa avaliação (muito precária, frise-se!) das possíveis consequências das ações ou omissões humanas.

Defendemos aqui uma outra ética: a dos princípios, a ética deontológica de Kant, onde princípios devem ser seguidos independentemente da avaliação das consequências (um tipo de avaliação sempre muito precário). Sob essa perspectiva, deixar mais pessoas morrerem agora (mesmo que supostamente para salvar a economia e outras vidas) será sempre injustificável, pois a vida, aqui e agora, tem valor supremo.

Vê-se, assim, e sob essa perspectiva, não apenas uma advertência humanista sobre a melhor forma de enfrentar a crise da pandemia no curto prazo, mas a defesa de um princípio ético que entendo ser indispensável para superar a racionalidade vigente (herdeira do utilitarismo, do cálculo, que dá primazia à concorrência) e construir  uma nova racionalidade baseada no comum, na cooperação e na solidariedade.[1]

Se é fato que a crise gerada pela pandemia apenas agravou nossa desordem sem ter sido responsável pela sua gênese e pelo crônico mal-estar na nossa sociedade globalizada/capitalista (mal-estar antes expresso na expansão das desigualdades sociais, na miséria, no problema climático e na exaustão das democracias liberais, dentre outras manifestações), o melhor que se poderia fazer nesse momento é aproveitar a tal desordem para questionar a fundo quais princípios deveriam prevalecer e reger as ações de todos os agentes e das instituições relevantes para que, assim, possamos iniciar uma mudança de fundo no funcionamento das nossas instituições e sociedades.

Felizmente nossa sociedade já é altamente desenvolvida do ponto de vista tecnológico e material. Não precisamos mais, como sociedade, buscar desesperadamente o lucro máximo, a acumulação sem precedentes de riquezas e o consumo de bens supérfluos que ameaçam nossa biosfera. Nosso desafio hoje está muito mais em como aprimorar a cooperação e a distribuição do que em gerar novas riquezas estimulando a concorrência e elegendo vencedores e perdedores.

Sabemos que se trata de um objetivo ainda mais complexo que a superação dessa enorme crise gerada pela pandemia, pois esse desafio envolve uma radical mudança de visão de mundo e de racionalidade. Mas são nesses momentos históricos que temos a obrigação de refletir, de ousar e de levantar nossas bandeiras para a construção de algo verdadeiramente novo. As janelas de oportunidade trazidas pela história não devem ser desperdiçadas por que o mal-estar da nossa civilização não acabará, mera e simplesmente, com o fim da pandemia.

Não enfrentamos apenas um vírus novo e terrível e suas consequências econômicas imediatas. Enfrentamos o vírus e uma crise civilizatória, uma crise do nosso tipo específico de sociabilidade, crise já há muito tempo exposta. E essa crise não terá desfecho promissor se não aproveitarmos a oportunidade histórica que se coloca para repensarmos e construirmos novas bases éticas de convivência e de orientação das nossas instituições.

*As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente a visão das instituições em que trabalha.

Crédito da foto da página inicial: Marcello Casal Jr./Agência Brasil


[1] Os trabalhos de Pierre Dardot, Christian Laval e Wendy Brown, dentre outros, são particularmente importantes para a compreensão da racionalidade hegemônica (a razão neoliberal, herdeira do utilitarismo) e dão pistas interessantes sobre suas contradições e sobre o que poderia ser uma nova racionalidade baseada no comum.

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