O jogo político como conhecíamos mudou em 28 de outubro. O que exige pôr os pés no chão e dar concretude a pautas conectadas com a vida cotidiana dos cidadãos (na foto, Haddad e governadores eleitos do Nordeste).
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Brasil Debate

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Jorge Armindo Aguiar Varaschin

É bacharel, mestre e doutorando em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 
Jorge Armindo Aguiar Varaschin

Uma faísca de pragmatismo

Forças progressistas precisam se movimentar mais a partir da análise real dos cenários. A eleição de Bolsonaro é o fim de uma era, o que vai exigir da oposição uma ação mais próxima do dia a dia das pessoas e a retomada do espírito de vanguarda

04/12/2018

O dia 28 de outubro deste ano, ao que tudo indica, inaugurou um certo tipo de distopia brasileira, quando o até então impossível torna-se efetivo, quando se consuma algo considerado inimaginável. A sensação de desamparo refere-se muito mais a isso, ao impossível que toma corpo, do que ao aspecto de isolamento político, já que o candidato do campo progressista, Fernando Haddad, teve votação expressiva. Nesse contexto, é necessário ter calma na análise da atual situação, sem subestimar ou superestimar qualquer elemento do cenário. Assim, aqui vão alguns apontamentos que considero relevantes.

Acredito que existam poucas dúvidas sobre qual campo está efetivamente sendo atacado. Com discursos de ministérios técnicos ou qualquer outro blablablá sobre pós-ideologia, a questão principal na história recente brasileira é o espaço ocupado pela política no imaginário nacional. É importante a qualquer campo minimamente progressista a certeza de que não há outro espaço para a construção de alternativas do que a atuação política.

Digo isso, porque não se deve cair no devaneio da replicação do discurso: a suposta tecnicidade, de lá, contraposta à tecnicidade daqui, do campo progressista. Já tivemos no passado recente um exemplo de quadros majoritariamente técnicos ocupando espaços predominantemente políticos. Por mais que se ponha peso na conjuntura da época, sabemos onde isso leva. Negar a política quando se faz política nunca é boa estratégia.

Ciro Gomes fez o jogo que achou que tinha que fazer. E até aí não há nada demais. Não devemos nos perder em busca da suposta culpa de alguém. Se houve, como afirma, o convite para que fosse inicialmente vice de Lula, para, em momento posterior, assumir a dianteira na chapa, tinha todo o direito de recusar essa estratégia. Foi legítimo o movimento que fez, assim como foi legítimo o movimento petista para ocupar a direção política de um processo cuja cabeça de chapa seria Ciro.

À alegação de um suposto hegemonismo do PT é sempre bom lembrar que continua sendo o maior partido de esquerda do país. Não há nenhuma razão para que não pleiteie uma posição de direção em qualquer aliança política que fizer. Cobrar do PT para que não ocupe espaço proporcional ao seu tamanho e representatividade no cenário político brasileiro é um devaneio, assim como achar que o partido deveria aceitar o papel secundário proposto por Ciro é uma fantasia. Os dois fizeram as jogadas que acharam que deveriam fazer.

Não há nenhuma evidência de que o governo Bolsonaro será um fracasso. Sabemos que não há exemplo histórico de políticas neoliberais criando emprego e renda, mas também sabemos que a estratégia do futuro governo não passa por aí. Possivelmente, uma guinada nas privatizações gere uma onda de valorização dos ativos financeiros e a sensação de que a economia está melhorando tenha algum efeito sobre a construção civil e segmentos do setor de serviços.

Querendo ou não, o Brasil continua sendo um dos maiores mercados consumidores do mundo, a crise que se estende desde 2014 já queimou parte substancial de capital ocioso e é possível que haja uma leve melhora no investimento privado, mesmo sem muita ajuda do setor público, baseada na recuperação em algum nível das expectativas empresariais. Esse é um movimento que pode durar até fins de 2020, meados de 2021, dando gás ao novo governo. A situação se complexifica quando se analisa o cenário externo, tendo em vista o arrefecimento do crescimento mundial e intensificação da guerra comercial entre EUA e China.

Militar liberal é uma novidade na história brasileira. Os militares foram, durante boa parte do século passado, predominantemente centralistas, tanto em aspectos políticos quanto econômicos. Apesar de alguns arroubos em sentido contrário, teria alguma calma em afirmar que a sanha neoliberal prevalecerá durante todo o governo Bolsonaro. Não creio que a cultura das forças armadas tenha mudado essencialmente. Pelo contrário. É bem possível que a influência do chamado “núcleo militar” aumente de maneira gradativa, principalmente quando o projeto de Paulo Guedes, com toda a sua superficialidade, começar a fazer água, como exposto no item anterior.

Não existe frente ampla ou qualquer coisa ligada ao campo progressista sem o PT. Quem acredita que o movimento que está se formando, propondo uma frente alternativa ao PT, se manterá no campo da centro-esquerda, se engana. É, evidentemente, um movimento que possui foco majoritariamente ao centro, dando acenos inclusive à centro-direita. O objetivo dos propositores desse arranjo é a ocupação de espaço, o que é, diga-se de passagem, legítimo. Afinal, o que se fará com o vazio deixado pelo PSDB, principalmente alas mais ligadas à origem social-democrata do partido?

Estamos em um momento de reposicionamento das forças sociais e redefinições de campos. Marcos Nobre tem razão quando afirma que o sistema político está destroçado[1] e continuará assim até encontrar forças políticas que o estabilizem. Até que ponto a instabilidade e o caos serão utilizados como instrumentos políticos sendo acionados ou produzidos conforme a necessidade imposta pela estratégia?

A lógica de ocupação de espaços da política torna-se mais complexa em sistemas desequilibrados, onde atores e forças vivem um eterno “sem lugar”. Creio que a tarefa básica da esquerda e centro-esquerda seja estabilizar ao menos o campo progressista, talvez não com apenas uma única força, mas com duas ou três estáveis, com representatividade e legitimidade.

Escrevo esse texto, porque vejo que as principais forças progressistas se movimentam mais com a perspectiva de como as coisas deveriam ser do que através de uma análise efetiva dos cenários possíveis. Bolsonaro marca o fim de um devaneio institucional. De certa forma, representa de fato o fim de uma era. Se foi a Nova República[2] ou a República do Real[3] que se findaram ainda será ainda objeto de pesquisas e estudos. O essencial é que o arroubo de um jogo político com regras nítidas e bem delineadas, respeitadas por todos os jogadores desvaneceu quase que por completo no dia 28 de outubro deste ano. Nesse caso, acredito que está se retomando uma era de vanguardas. É necessário voltar a pôr os pés no chão e dar concretude a pautas mais gerais, como reforma tributária, urbana e política. É necessário voltar a lutar contra o aumento das passagens do transporte público nas cidades, por IPTU progressivo e outras agendas locais.

Talvez tenhamos nos perdido, em algum momento dessa jornada, em pautas gerais sem conectá-las com a vida cotidiana dos cidadãos. A ideologia é o elemento que dá sentido à nossa realidade social, formando os sujeitos que atuam nas várias esferas da política, com as pautas locais e regionais. Contra o discurso da pós-ideologia nada melhor que a concretude ideológica da vida cotidiana.

Notas

[1]https://piaui.folha.uol.com.br/o-grau-zero-da-politica/

[2]https://www.revistaforum.com.br/para-historiadora-eleicao-de-bolsonaro-marca-fim-da-nova-republica/

[3]https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/14/politica/1542228843_630245.html

Crédito da foto da página inicial: Ricardo Stuckert (Haddad e governadores eleitos do Nordeste)

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