Brasil Debate

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José Carlos Peliano

Economista (Phd/Campinas), trabalhou no IPEA, CNPq e Câmara dos Deputados. Atualmente, é pesquisador colaborador no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) - Unicamp

 
José Carlos Peliano

Um jovem da periferia dos Brasis

A falta de saída vinha do fato de ser pobre. Pais ricos, filhos só para estudar, pais pobres, filhos têm de se virar. Alguns conseguem com sacrifício ficar na escola, a maioria sai antes para arranjar algo para fazer, se defender, se manter e ajudar em casa. As cartas já vinham marcadas no sangue, segundo ele. Transfusão não havia chance

Bermuda de boa qualidade, tênis gasto de marca, camiseta regata made in China, braços tatuados, boné de frente para trás, 14 anos de idade. Aluno do ensino fundamental público da periferia de uma das capitais do Brasil. Roupa diferenciada das usadas pelos demais pela qualidade das peças.

O papo finalmente começou a rolar no estacionamento do centro da cidade depois de um tempo, três dias talvez, após me olhar várias vezes de cima a baixo, de um lado a outro, entre silêncios, murmúrios e escapes, desconfiado, retraído. Buscou saber quem eu era, o que queria, logo com ele, por meio de algumas perguntas curtas, diretas, sem rodeios. Rodeou-me ainda assim de suspeitas, mas acabou cedendo aos poucos, respostas telegráficas de início.

A boa roupa viera de rolos efetuados aqui e ali. Rolos de trocas de objetos, produtos, e outras “coisas” mais, muitas, variadas. Que outras coisas? Meio que receptações, surrupio, revendas, origens desconhecidas e “envelopes”.

A diferença, portanto, se amplia, dele para os outros, não estava só na roupa, se estendia às atividades de sobrevivência. Pais separados, vivia com a mãe, faxineira. Precisava se virar para ajudar em casa e a ele mesmo também. Acabou na faixa de acostamento da vida, às escondidas, por um longo trecho da pista, fora das pistas tradicionais e conhecidas de trabalho e emprego.

Os demais, galera de sua idade e residência, a maioria, estavam nas pistas ou correndo atrás delas, fosse em algum bico, fosse nas ruas dando um tempo ou num “rolé”. A escola onde estudava servia de contato com os outros. Onde rolava novos rolos e onde alguns do acostamento surgiam meio que na moita e sondavam. Lá em sua escola a área tinha sido dele por certo período.

Não era mais. Caíra fora. Passou um tempo sumido, longe, protegido. Teria sido perseguido depois de levado duas vezes pelos “ômi”, só para amedrontar, pressionado pelos mandantes, ameaçado pelas casas de correção, apertado mas acalentado em casa. Dava agora, depois de tudo, um tempo. Pensava não voltar mais, um trabalho já estava na mira para não sucumbir de novo às tentações.

Demorou para chegar a contar tudo isso. Bumerangue, ia e voltava. Tipo aproximação com potro selvagem, índio não contatado, bicho acuado. Dava ali uma de flanelinha, a escola o segurava por um período e o estacionamento por outro. A confiança veio porque, de repente, eu era com quem ele pôde desabafar. Assim me pareceu, mais ou menos de igual para igual.

Estava por aceitar uma oferta de entregador, tempo parcial, de uma venda próxima do bairro onde morava, de bicicleta, pela manhã e a tarde, estudo à noite. Teria que trocar de turma, estava na matutina. Lembrei-lhe que o serviço poderia mantê-lo perto das bocas, de onde saíra. Assentiu, mas não via por enquanto outra saída.

Por que não outra saída?, perguntei-lhe. A partir daí soltou mais a língua, sem reticências, mostrou-me como seu mundo entrava no mundo onde eu estava, o resto da sociedade. Dei-lhe linha, como se diz, para que a pipa voasse mais alta, à vontade, seguisse o vento para onde levasse.

A falta de saída vinha do fato de ser pobre. Pais ricos, filhos só para estudar, pais pobres, filhos têm de se virar. Alguns conseguem com sacrifício ficar na escola, a maioria sai antes para arranjar algo para fazer, se defender, se manter e ajudar em casa. As cartas já vinham marcadas no sangue, segundo ele. Transfusão não havia chance.

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Quando um pobre conseguia seguir estudo superior, no arrocho e na fome, e se formava como “dotô”, os ricos aplaudiam, como exemplo de estudo e esforço, vitrine aos demais. O grosso dos pobres não, ficavam todos eles fora, no limbo. Aquele que conseguia era um em milhões, os demais queriam, sim, chegar lá como aquele. Sonho curto, porém, pesadelo longo. Uma andorinha só não faz verão nem traz outras da espécie.

Sobrava o quê? Para os pobres as migalhas, a marginalidade, o bico, o emprego sem carteira assinada, o ambulante, poucas chances e sorte de chegada ao ensino “de profissão”. Qual? Trabalhador de obra, estrada ou comércio, auxiliar de qualquer serviço, garçom, carregador de mala em hotel, doméstico, vigia, polícia.

Parava aí, não dava para ir mais alto. Poucos os pobres que conseguiam trabalhar o dia inteiro, estudar à noite, demorar para ir ao trabalho e chegar em casa, dormir pouco, semana inteira, e prosseguir até o final do curso com o diploma na mão. Depois disputar vaga com ricos que só viviam estudando. Não dava, segundo ele. Mundo que parece igual na TV e nos painéis de propaganda, mas desigual, safado, falso no chão, nas ruas, nos andares dos edifícios e empresas.

Sem falar das meninas que se engravidavam, muitas, e tinham de tomar conta dos filhos, ou pagar para alguém fazê-lo, enquanto trabalhavam fora. Sem escape. Lutavam por vagas que também eram poucas, lavadeiras, faxineiras, empregadas domésticas, cuidadoras, auxiliares no comércio, manicures. Indo e voltando de “busão”, caro. A grana da semana ou do mês não dava para tudo. Não sobrava. Conta pendurada na venda ou no “devo” de amigos e parentes, quando tinham.

O governo vem ajudando aos pobres com uma “graninha” para filho ficar nas aulas. Condições para famílias terem casa, para galera ter merenda e dentista na escola, cursos de profissão. Mas, amigos lhe diziam e sua casa sabia, um ou dois salários por mês não dá para a família se manter, ter como comprar uma casa financiada e deixar de ter filho no trabalho para completar a grana do mês, custosa, ano inteiro. Mais filhos, então, aí é que nem pensar.

“Vivo da flanela aqui no estacionamento, não sei ainda se pego a vaga na venda, penso assim: aonde vou e até onde posso? Se tentar me formar bem estudado quem vai ajudar minha mãe em casa e meus dois irmãos menores? Sei não, cara, esse mundo não é igual para todos. Pô, meu!Raiva muita. Queria ter nascido rico. Vim pobre. Sem chance melhor”.

“Também não dá para ficar de flanela muito tempo, tem o cara que manda no pedaço, aqui, divide o trabalho, o tempo do dia, de repente vem outro e toma meu lugar. Tenho de pensar em me virar noutro canto e serviço, sair dessa. E fazer o meu hoje para ter o que comer e ver se sobra algum amanhã”.

(Bem, esse jovem existe, mas é uma composição, ele está em muitos, resultado da montagem feita por mim de outros tantos que conheci, conversei, li depoimentos e ouvi relatos por esses Brasis de salve-se quem puder. O estacionamento é um dos locais urbanos quaisquer onde os jovens circulam. A escola pública da periferia também. Mas não a dureza da situação econômica, social e pessoal de cada um e de todos eles, esta é típica de um menino ou menina periféricos, pobres, dentro mas fora da sociedade feita, arrumada, rica. O mundo dito civilizado conta e leva em conta somente aqueles que conseguiram subir melhor no trabalho e na vida, deixam para trás da contagem e da menção aqueles que ficaram para trás na escada social por não terem tido semelhantes berços, oportunidades, indicações, patrimônios e heranças).

 

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