Segundo a autora, uma categoria que obteve avanços históricos, como a das empregadas domésticas, já sente os efeitos da crise, o que mostra que conquistas paulatinas podem ser revertidas no curto prazo.
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Juliane Furno

É graduada em ciências sociais pela UFRGS, doutoranda em desenvolvimento econômico na Unicamp e militante do Levante Popular da Juventude. É colunista do Brasil Debate

 
Juliane Furno

Trabalho doméstico: crise e informalidade

Entre 2003 e 2014, a renda média das domésticas subiu 77%, o percentual da categoria entre os extremamente pobres caiu 32% e a taxa de formalização passou de 26% para 31%. Com a crise, porém, essas conquistas começam a ser revertidas

Tornaram-se corriqueiras e cotidianas as notícias que expressam os efeitos da crise econômica brasileira. No que tange ao mercado de trabalho, a situação ainda é mais alarmante. Como se não fossem suficientes as iniciais inflexões na trajetória de melhorias sociais, a mídia brasileira não poupa esforços para incitar o desespero entre aqueles que perderam o emprego ou viram regredir seu poder de compra.

“Não tá fácil pra ninguém” parecem ser as novas palavras de ordem, alardeadas aos quatro ventos. Dentre os que estão em uma situação difícil – leiam-se, os trabalhadores e especialmente os da base da pirâmide social – ainda há aqueles padecem em uma situação ainda mais candente.

As últimas pesquisas que trazem informações sobre emprego e renda – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio 2014, PNAD, PNAD contínua, e Pesquisa Mensal de Emprego (PME) – apontam os efeitos da crise e das opções de política econômica adotadas desde o alvorecer de 2015, com destaque para o ajuste fiscal.

Os anos 2000 foram palco de uma melhora substantiva nos principais indicadores do mercado de mercado de trabalho. No que tange ao trabalho doméstico, essa foi uma década de avanços substanciais. A renda média do trabalho doméstico subiu 77%, o percentual de domésticas entre os extremamente pobres caiu 32%, e a taxa de formalização passou de 26% para 31% da categoria, todos esses dados para a comparação de 2003 com 2014.

Além disso, caiu o número relativo de postos de trabalho nessa ocupação, assim como ela perdeu participação no total da mão de obra feminina ocupada, deixando de absorver 19% e passando a 15% do total da força de trabalho das mulheres. Por fim, a aprovação da “PEC das Domésticas”, que busca a equidade dos direitos trabalhistas das domésticas com os demais trabalhadores formais brasileiros é o exemplo máximo das mudanças positivas desse período.

No entanto, o trabalho doméstico tem a especificidade de correlacionar-se negativamente com os momentos de crise, sendo sua variação muito sensível no curto prazo. Nesse sentido, já é possível identificar o crescimento de pessoas – sobretudo mulheres negras – que encontram nessa ocupação a única forma de inserção no mercado.

quadro juliane

Esses dois gráficos, elaborados por Brunu Amorim Carlos Henrique L. Corseuil na Nota Técnica nº 23 do IPEA, mostram como os serviços domésticos aparecem entre as principais categorias que perderam postos formais de trabalho.

Revoltante é ver como conquistas paulatinas podem ser revertidas no curto prazo. O avanço do emprego doméstico e a reversão da sua trajetória de formalização apontam para a regressão de um mercado de trabalho marcado por empregos de baixos rendimentos, baixo valor agregado, informais, precários e com contornos servis como tem sido a trajetória do trabalho doméstico informal brasileiro.

Retomar o crescimento econômico e as políticas de reestruturação do mercado de trabalho é condição necessária para retomar a trajetória de avanços.

Crédito da foto da página inicial: Divulgação/”Que Horas Ela Volta?”

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2 respostas to “Trabalho doméstico: crise e informalidade”

  1. Marcelo Nunes Coutinho disse:

    Os direitos que foram adquiridos a tão pouco tempo devem ser preservados, apesar dessa “tempestade” neoliberal.
    A renda, ainda tão baixa, que pouco separa da condição de semi-escravidao que fez desta importante classe trabalhadora e que durante tanto tempo contribui nesta enorme base dessa pirâmide. Temos que lutar contra essa mídia que demoniza a classe trabalhadora e faz que figuras de linguagem como: “ela é boazinha como se fosse lá de casa, mesmo”, desapareçam de vez do inconsciente coletivo.

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