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Eduardo Maretti

Temer desqualifica papel do BNDES como incentivador do crescimento, diz Jorge Mattoso

'Agora o BNDES está oferecendo crédito para capital de giro. Nunca vi uma coisa dessa. Para isso não precisa do BNDES e bancos públicos, porque crédito de curto prazo para o cotidiano das empresas os bancos privados fazem. Chega a ser até ridículo', diz ex-presidente da Caixa Econômica Federal

Publicado pela Rede Brasil Atual em 11-1-2017

A devolução, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de R$ 100 bilhões ao Tesouro Nacional, que, segundo o governo Temer, vai reduzir a dívida pública bruta em 1,6 ponto percentual do Produto Interno Bruto, “é uma forma de desqualificar o banco”, na medida em ajuda a tirar dele o potencial de oferecer financiamento de longo prazo.

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Jorge Mattoso. Foto: Gervásio Baptista/ABr

“No fundo é isso. É também uma jogada, supõe-se que vai melhorar as condições fiscais e financeiras do Estado. Mas esses recursos entregues pelo BNDES ao governo poderiam estar sendo utilizados justamente para o investimento e o crescimento”, diz Jorge Mattoso, professor aposentado do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente da Caixa Econômica Federal no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mattoso lembra que o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil tiveram papel fundamental no investimento, sobretudo de longo prazo, durante os governo petistas de Lula e Dilma Rousseff. Basicamente porque os bancos privados não oferecem crédito barato e financiamento de longo prazo. “Esse papel foi muito importante para o avanço da economia, para o investimento das empresas e o crescimento econômico. Além disso, quando houve crise, você tinha  o BNDES, junto com BB e Caixa, que faziam políticas anticíclicas. Mas eles foram muito importantes mesmo nos momentos de expansão, para garantir o crescimento que houve  ao longo desses anos.”

Hoje, segundo Mattoso, existe uma visão que menospreza e desqualifica os bancos públicos. “Agora o BNDES está oferecendo crédito para capital de giro. Nunca vi uma coisa dessa. Para isso não precisa do BNDES e bancos públicos, porque crédito de curto prazo para o cotidiano das empresas os bancos privados fazem. Chega a ser até ridículo.” Em agosto, o governo anunciou a abertura de linhas de crédito, via BNDES, para “ajudar” empresas que precisam de capital de giro.

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Na opinião do economista, o governo mostra claramente que quer a diminuição do papel do BNDES e dos outros bancos públicos como protagonistas de políticas de incentivo ao crescimento. “Acham que os bancos privados vão dar conta. Nunca deram, no caso brasileiro. E quem vai financiar o investimento, que necessariamente é feito com financiamento de longo prazo, de 15, 20, 30 anos, sobretudo num momento de profunda desconfiança dos atores econômicos? Ninguém quer investir, ninguém acredita nessa política, essa é que é a verdade. Eles deram um golpe com o discurso de que iriam mudar o Brasil e então haveria investimentos. Estamos há oito meses do fato e a economia continua indo para baixo.”

Para Mattoso, a operação envolvendo o BNDES faz parte do processo de arrocho do governo Temer. O conjunto das políticas mostra que a intenção é manter o arrocho e o desemprego. “Tem até economistas que dizem que o desemprego vai trazer vantagens econômicas. Não consigo ver isso. Estamos caminhando para mais desemprego, aumento da desigualdade e queda dos salários, graças a um conjunto de políticas que tem levado, mais do que à recessão, à depressão.”

Em entrevista à RBA publicada ontem (10), o economista Luiz Gonzaga Belluzzo comentou  a tese que tem sido defendida por alguns economistas, segundo a qual o desemprego seria menor se houvesse um ajuste pelo lado do emprego informal. “É ilusão dizer que, se o salário real caísse mais rapidamente, o combate à inflação seria mais rápido e a recessão seria menor. Francamente, isso não encontra guarida na lógica”, disse.

Em artigo publicado na revista CartaCapital há duas semanas, Belluzzo comentou estudo da Fiesp para mostrar que, ironicamente, “as empresas brasileiras estão pagando o pato” da crise pós-impeachment. O estudo esclarece que “a expectativa de crescimento do PIB está caindo, tanto para este ano quanto para o próximo”. A expectativa de crescimento do PIB em 2017 passou de 1,34% para 0,96%”.

O estudo aponta outros indicadores: “desempenho ainda muito ruim de variáveis como vendas no varejo, com queda de 6,6% nos 12 meses encerrados em setembro, e produção industrial, que diminuiu 7,9%, nos 12 meses encerrados em outubro”. Já a “derrocada nas vendas do comércio” é atribuída ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como a taxa real de juros básica, “que passou de 3,5% ao ano em janeiro para mais de 9% em novembro”.

Crédito da foto da página inicial: Fundação Perseu Abramo

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