O autor retoma o caso da carta do Santander a seus clientes para investigar como certas ideias econômicas e prescrições de política acabam, em certos círculos, dando origem a "consensos" e análises "objetivas" que, na verdade, representam interesses de grupos ou classes sociais.
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Brasil Debate

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Rodrigo Alves Teixeira

Economista e doutor em Economia pela Universidade de São Paulo, é professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 
Rodrigo Alves Teixeira

Técnica como ideologia e terrorismo eleitoral

A carta do Santander aos seus clientes é um exemplo de como profissionais do mercado financeiro fazem os clientes acreditarem em determinadas teorias e previsões (tomadas como verdades absolutas), induzindo o seu comportamento

Retomo aqui o debate sobre a carta enviada pelo banco Santander aos seus clientes contendo críticas veladas (quase explícitas) à condução da economia no governo da presidenta Dilma. Este episódio não foi um fato isolado e revela importantes relações entre ideologias e forças políticas na atual conjuntura eleitoral.

Os que defenderam o governo alegaram que, sob o pretexto de apresentar uma análise técnica, o relatório na verdade tem motivações eleitorais, uma vez que representa um ataque à política econômica do governo Dilma e insinua que, se a presidenta não fosse reeleita, o cenário econômico iria melhorar.

Já os críticos disseram que estaria havendo censura por parte do governo, que teria pressionado o banco a demitir funcionários competentes que teriam feito uma análise estritamente técnica e objetiva a respeito da situação atual da economia brasileira.

Para entender a polêmica, é preciso investigar como certas ideias econômicas e prescrições de política acabam, dentro de certos círculos sociais restritos – no caso em questão, o mundo dos profissionais do mercado financeiro – dando origem a “consensos” nos quais seus integrantes, de forma ingênua ou não, passam a defender que o mundo ideal que construíram reflete a realidade objetiva.

O início de tudo se dá na própria cabeça de vários analistas do mercado financeiro, que pensam ser os donos da verdade acerca do que é a “melhor” forma de se conduzir a política econômica, e que suas análises são “objetivas” e “neutras”, isto é, não são contaminadas por ideologias, nem representam interesses de grupos ou classes sociais.

Mas estes analistas e boa parte da grande imprensa apenas repetem, há décadas, as ideias de economistas ortodoxos brasileiros, por sua vez tomadas de empréstimo de economistas de universidades norte-americanas e aplicadas à interpretação de nossa realidade de forma acrítica.

Muitos destes economistas, que hoje estão por trás dos programas econômicos de Aécio Neves e Marina Silva, foram responsáveis pela desastrosa condução da política econômica dos governos FHC, que conduziu o País a diversas crises cambiais e acordos emergenciais com o FMI, com baixo crescimento econômico e elevadas taxas de desemprego, deixando ainda como legado uma enorme dívida pública como porcentagem do PIB.

Após ficarem apagados nos últimos 12 anos, estes economistas voltaram a ter destaque na imprensa escrita e televisiva, tentando passar a ideia de que o País vive hoje um caos macroeconômico, e novamente usando contra o PT o já conhecido terrorismo econômico eleitoral.

Voltando ao argumento, a partir dessas “verdades” construídas a partir de controversas teorias econômicas e propagadas com o apoio da grande mídia, quando o candidato que não segue a “cartilha” está à frente na disputa eleitoral, na cabeça dos profissionais do mercado financeiro, isso significa que as expectativas sobre o cenário econômico futuro se deterioram.

Tal como na carta do Santander e sua análise rasteira e superficial: redução da projeção de crescimento do PIB, expectativa de queda do preço das ações na bolsa de valores e de alta do dólar, da inflação e dos juros futuros.

Estes mesmos profissionais do mercado financeiro fazem seus clientes acreditarem nestas teorias e suas previsões, induzindo seu comportamento.

A carta do Santander aos seus clientes é um exemplo deste processo, pois parte da aceitação implícita de modelos econômicos duvidosos que são tomados como verdade absoluta, e a crítica implícita a um governo que não segue o receituário destes modelos.

Como as decisões dos agentes no mercado financeiro são tomadas de acordo com as expectativas a respeito da evolução futura esperada das variáveis econômicas, todos passam a se comportar com base nessa crença, puramente ideológica.

Basta lembrar o pessimismo acerca do futuro da economia com a provável vitória de Lula durante as eleições de 2002, quando o bilionário e megaespeculador George Soros bradou que sua eleição traria o caos.

Com todos os agentes do mercado seguindo estas teorias e suas projeções infundadas, elaboradas sob uma roupagem pretensamente técnica, que mascara ideologias e interesses, o comportamento de manada leva à autorrealização da profecia.

Ou seja, quando o candidato de quem eles não gostam está à frente nas pesquisas, todos passam a se comportar com base no pessimismo difundido, levando à efetiva queda de ações nas bolsas, redução dos investimentos e alta do dólar.

Não raro, ou melhor, frequentemente, este mesmos agentes do mercado financeiro que difundem o pessimismo obtêm expressivos ganhos especulativos com a volatilidade das variáveis econômicas gerada pelas suas próprias profecias.

É a chamada “profecia autorrealizadora”: a mentira que se torna verdade pela repetição incessante, apoiada pela grande mídia, que leva todos a acreditarem nela e a se comportarem como se fosse verdadeira, fazendo com que se concretize.

Uma variante sofisticada do ensinamento de Göebels, famoso chefe da propaganda nazista. E uma questão a ser ainda melhor tratada pela filosofia e metodologia da ciência, pois foge ao debate tradicional a respeito da adequação da teoria à realidade, visto que a partir de teorias sem fundamento na realidade, mas que influenciam o comportamento dos agentes, a realidade é “produzida” ou alterada, moldada pela própria teoria.

Naturalmente, a opção dos agentes do mercado financeiro pelos candidatos da oposição não se fundamenta apenas em teorias equivocadas.

As perdas impostas a estes pela corajosa redução da taxa básica de juros empreendida no governo Dilma, que amenizou a enorme transferência de renda que se processava do Estado para os rentistas, bem como pela ousada redução dos spreads bancários também por determinação da presidenta – fazendo uso do poder de mercado dos bancos públicos –, mostram que as análises dos profissionais empregados pelos bancos e outros agentes deste mercado estão longe de serem puramente técnicas e expressam interesses muito claros.

Entretanto, após a eleição de 2002, já sabemos o quanto é infundado este tipo de terrorismo econômico eleitoral. A história recente mostrou que as expectativas pessimistas dos agentes do mercado financeiro acerca de uma condução da política macroeconômica voltada para o desenvolvimento, embasadas em teorias questionáveis e propagadas pela imprensa conservadora, estavam erradas. Eram apenas ideologia disfarçada de ciência e técnica.

Mas esperamos que nas eleições deste ano, como em 2002, este tipo de terrorismo do mercado financeiro, que além da obtenção de ganhos especulativos, também visa claramente a influenciar o processo eleitoral, será novamente derrotado nas urnas.

Para o bem dos milhões de empregos conquistados nos últimos anos e da continuidade e dos avanços que se fazem necessários na política econômica voltada para o desenvolvimento econômico com distribuição de renda.

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