Segundo as autoras, quando se abordam os temas petróleo e Petrobras, a dimensão humana nunca é tratada. Pouco se sabe das condições de trabalho dos que produzem a riqueza nas refinarias e plataformas marítimas de petróleo.
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Brasil Debate

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Juliane Furno

É graduada em ciências sociais pela UFRGS, doutoranda em desenvolvimento econômico na Unicamp e militante do Levante Popular da Juventude. É colunista do Brasil Debate

Beatriz Gomes

É graduada em Ciências Econômicas pela UEM e mestranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp

 
Juliane Furno e Beatriz Passarelli

(Sobre) vivendo do petróleo: trabalhadores e riscos ocultos nas plataformas

Dentre as mercadorias do capital, a força de trabalho parece ser a menos protegida. A lógica da maximização do lucro rege as regras da acumulação no setor e a grande mídia interessa-se, unicamente, pelas denúncias de corrupção e as possibilidades de privatização da Petrobras

26/02/2016

Conteúdo especial do projeto do Brasil Debate e SindipetroNF Diálogo Petroleiro

Diariamente, a grande mídia nos apresenta informações sobre a Petrobras. A maioria das notícias traz em suas manchetes palavras-chave como corrupção, preço (do combustível), pré-sal… Ou seja: a competição pela acumulação de capital, feita em nome do crescimento econômico.

Porém, a dimensão humana vem sendo irresponsavelmente ferida e obstruída, afogada pelas forças que buscam o imediatismo de lucros crescentes. O deslumbramento pelo lucro concorre para tirar do foco a complexidade e os limites dos seres humanos que produzem a riqueza nas refinarias e plataformas marítimas de petróleo – local de produção de que trata esse texto.

A última vítima da busca incessante pela produção à custa da saúde e vida dos trabalhadores foi o técnico de operação pleno, da Petrobras de Duque de Caxias, REDUC, Luiz Augusto Cabral de Moraes, 56 anos. No dia 03 de fevereiro de 2016 ele foi encontrado morto dentro de um tanque de óleo.

A grande mídia não noticiou. É mais um número na estatística interna.

O movimento sindical dos petroleiros historicamente tem elencado em primeiro lugar a pauta do direito à saúde e – sobretudo – à vida do trabalhador. Acidentes históricos como a P-36 na Bacia de Campos RJ, que deixou 11 mortos em 2011, contribuem para o clima de insegurança.

De 2000 a 2010 foram registrados 33 acidentes fatais, computando-se apenas os que atingiram os trabalhadores concursados do Sistema Petrobras. A cifra sobe imensamente quando acrescidos os trabalhadores terceirizados, principais vítimas da precarização e descaso com a vida do trabalhador. Somente em 2014 foram registrados 14 acidentes fatais, segundo a Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Paradoxalmente, quando os trabalhadores deflagram greve – na qual o tema da segurança está sempre nas primeiras reivindicações – o nosso sistema de Justiça quando a entende como ilegal aplica uma multa diária ao sindicato de não raros 100 mil reais.

Alguém já soube de alguma indenização diária nesse valor às famílias das vítimas? Quanto vale uma vida? Parece que essa conta só é feita na proporção de barris de petróleo, única linguagem que o capital compreende.

Depoimento de esposa e filha do petroleiro denunciaram as condições de trabalho e o motivo do acidente:

“O teto cedeu porque já estava em péssimas condições, corroído, e havia pedido de interdição do mesmo. Mas a Petrobras não interditou. Ele estava em funcionamento porque o lucro que eles têm com um tanque é mais importante do que o respeito e a segurança de seus funcionários. Por isso, Luiz Cabral caiu em um óleo denso, de temperatura de 75 graus celsius. Ele nem teve chances. O óleo denso puxou seu corpo até o fundo do tonel com capacidade de 6631 mil metros cúbicos. Os colegas de Luiz Cabral que foram procurá-lo, quando viram o buraco, entraram em estado de choque e foram afastados. Havia marcas de mãos que tentaram se segurar, e era óbvio o que tinha acontecido. Apenas depois de dois dias esvaziando o tanque acharam o corpo do funcionário “desaparecido”. O mais assustador da história é que há diversos outros tanques assim, diversas escadas quase tombando, postes com perigo de cair…”

Dentre as mercadorias do capital, a força de trabalho parece ser a menos protegida. A lógica da maximização do lucro rege as regras da acumulação no setor e a grande mídia interessa-se, unicamente, pelas denúncias de corrupção e as possibilidades de privatização da Petrobras.

A categoria resiste e mediante as suas greves, denúncias e nas mesas de negociação coletiva reiteram o compromisso com a sociedade, que vai desde a reposição salarial da categoria, passando pela defesa dos interesses estratégicos da soberania nacional, até a luta incansável e permanente pelo direito de viver – daquele herói de macacão laranja que se arrisca cotidianamente na extração de uma das nossas maiores riquezas nacionais, que, no entanto, é permanentemente ameaçada de privatização.

Crédito da foto: Divulgação

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2 respostas to “(Sobre) vivendo do petróleo: trabalhadores e riscos ocultos nas plataformas”

  1. Paulo disse:

    Prezadas: primeiramente uma correção,o acidente com a P-36 foi em 2001 e não em 2011.

    Aproveito para parabenizá-las e enfatizar que concordo plenamente que a grande mídia só sabe relacionar a Petrobras à corrupção. Parece que de uma hora para outra milhares e milhares de trabalhadores viraram um bando de ladrões. Esquecem, por exemplo, que é a empresa que detém maior número de patentes no Brasil, deixando a Unicamp, onde vocês estudam, bem para trás, em segundo lugar. Uma lástima. E vocês, sabem disso?

    Aproveito para perguntar à Juliane e Beatriz se já foram visitar uma das unidades de produção da Petrobras. Se não, e pelo teor do texto acredito que não foram, sugiro a REPLAN, que é mais próximo de Campinas. Vocês poderiam pesquisar como funciona de perto e em primeira mão a cultura de SMS desta grande empresa.

    Abraços!

    • Beatriz disse:

      Oi Paulo.

      Primeiramente, desculpe a demora em responder.

      Sobre a data do acidente com a P-36, cometemos um erro de digitação, vamos verificar como podemos reparar isso. Fizemos um trabalho com a REPLAN sobre a greve de 1995. Hoje estamos trabalhando com o Sindipetro NF e vamos pesquisar e conhecer mais sobre a SMS agora, acredito que será bem enriquecedor.

      Obrigada pelos comentários e sugestões, nos colocamos à disposição.
      Abraços!

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