Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Sobre equilíbrio

O estado real da economia é de desequilíbrio, pois há assimetria, contraposição e fúria nos diversos conflitos de interesses entre agentes heterogêneos em suas forças econômicas

Equilíbrio tem como etimologia a palavra latina aequilibrĭum,ĭi, que se refere ao “nível igual da balança”, ou seja, aequus + libra (balança). Balanço, por sua vez, em Contabilidade, é a demonstração sintética do estado patrimonial de uma empresa através do seu ativo, passivo, capital e patrimônio, por meio de seus investimentos e da origem do financiamento desses investimentos.

Em contabilidade, o Método das Partidas Dobradas é o sistema-padrão usado em empresas para registrar transações financeiras. Sua premissa é de que a condição financeira e os resultados das operações de uma empresa são melhores representadas por diversas variáveis, chamadas Contas, em que cada uma reflete um aspecto em particular do negócio como um valor monetário. Cada transação financeira é registrada na forma de entradas em pelo menos duas contas, nas quais, por definição, o total de débitos deve ser igual ao total de créditos.

Assim, toda transação que uma empresa faz está apenas alterando o seu patrimônio, ou seja, “uma saída de valor corresponde a outro valor que entra em seu lugar”. Em uma compra de um bem à vista, por exemplo, esse “haver” que chegou à empresa será representado por uma conta contábil com dada entrada no patrimônio por um valor.

Concomitantemente, outra conta contábil (o “Caixa”) será igualmente movimentada, a que representa os numerários da saída para cumprir o “dever”. Se a compra for a prazo, essa outra conta (Caixa) será substituída por uma que representa uma obrigação futura, outra conta contábil de “dever” chamada “Contas a Pagar”.

Portanto, a partida dobrada representa um registro, patrimonial ou de resultado do período, que representa “algo que vai, simultaneamente a outro algo que vem”, portanto, são lançamentos de débito e crédito, ou de haver e dever, de igual valor. Nas Contas de Resultado, as Receitas serão “credoras” do patrimônio, e as Despesas, “devedoras” do patrimônio. Balanços contábeis se equilibram pelo lucro ou prejuízo.

Qual é a diferença entre um economista e um contabilista? Resume-se a uma palavrinha: hipótese. O contador registra as variações dos saldos entre os fins de período, isto é, do passado ao presente; o economista levanta hipóteses sobre o estado das variáveis econômicas do presente ao futuro. Por que este demonstra um estado de certeza, tal como no caso dos balanços contábeis, de que a economia alcançará uma ordem espontânea, ou seja, um equilíbrio futuro?

Equilíbrio, em  Física, é a condição de um sistema no qual as grandezas que sobre ele atuam se compõem, para não provocar nenhuma mudança em seu estado. Trata-se, então, da posição estável de um corpo, sem oscilações ou desvios. Mutatis mutandis, em Economia, seria o equivalente a alcançar uma postura ou posição estável, um aprumo ou posição “endireitada”… epa!

Será possível, na sociedade humana, a igualdade de força entre duas ou mais pessoas, grupos, partidos, etc., em oposição? O equilíbrio econômico seria o estado da economia em que ela estaria submetida a duas forças opostas iguais em uma igualdade quantitativa, por exemplo, entre a receita e a despesa. Este estado (ou condição alcançada) teria de se manter constante, inalterado, para se manter a estabilidade dos preços no mercado em longo prazo. Haveria, então, uma distribuição de renda em proporção harmoniosa.

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O confucionismo chinês tem essa meta de alcançar “uma sociedade harmoniosa”. Porém, é difícil viabilizá-la quando se parte do antagonismo entre remuneração do trabalho e do capital, isto é, do conflito distributivo da Economia de Mercado.

Exigiria de todos os agentes econômicos moderação nas maneiras, gestos, palavras e sentimentos, comedimento, prudência, meio-termo etc. Esta harmonia seria fruto da estabilidade mental e emocional, do autocontrole ou autodomínio geral. Nesse equilíbrio da estrutura social, os agentes econômicos manteriam entre si relações de conformidade com as regras estabelecidas.

Mesmo ocorrendo em nível nacional, restaria ainda o desafio do equilíbrio internacional, especialmente entre superpotências, baseado na posse por parte de cada beligerante em potencial de um armamento nuclear suficiente para dissuadir os demais de deflagrarem um conflito. Este equilíbrio estático seria equivalente na  Física se alcançar a condição de um sistema mecânico no qual a soma vetorial das forças que agem sobre ele se anula.

Só seria estável aquele equilíbrio em que o sistema retorna ao equilíbrio original após uma ligeira perturbação. Seria um equilíbrio instável aquele em que o sistema se afasta do equilíbrio original após uma ligeira perturbação.

O equilíbrio físico-químico é o estado de um sistema cuja composição não varia, seja por ausência de reação, seja por existência de reações com a mesma velocidade em ambos os sentidos. O equilíbrio térmico é a condição de um sistema que se caracteriza pela igualdade da temperatura em todos os seus pontos e as fontes de calor com as quais ele se encontra em contato.

Mais desafiante ainda é o equilíbrio termodinâmico, que é a condição de um sistema em que há coexistência de três tipos de equilíbrio: o térmico, o químico e o mecânico. Então, o equilíbrio econômico seria a compatibilidade dos planos e/ou decisões de todos os agentes econômicos, entre si e com a disponibilidade de recursos produtivos, preservando o meio ambiente.

É válido fazer analogias entre as metodologias de diversas áreas do conhecimento humano? Sim, a metodologia é o ramo da Lógica que se ocupa dos métodos das diferentes ciências com essa finalidade. Então, no caso de economista, é a parte da Ciência Econômica que estuda os métodos aos quais ela própria recorre. Por extensão, é um corpo de regras e diligências estabelecidas para realizar uma pesquisa econômica ou um método de pensamento teórico em análise.

Porém, no mundo real, é válido recorrer à noção de “quase equilíbrio” para se descrever o fato de um sistema se encontrar em estado próximo ao do equilíbrio idealizado? Isto é mera apelação para um recurso retórico que evita dizer que o estado real da economia é de desequilíbrio, pois há assimetria, contraposição e fúria nos diversos conflitos de interesses entre agentes heterogêneos em suas forças econômicas. Anunciar a ordem espontânea produzida pelo livre mercado é mera ideologia dos economistas que se transformaram em sábios-pregadores.

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5 respostas to “Sobre equilíbrio”

  1. Pelo contrário, se é “textinho” não pode ser “pretencioso”…
    Se tem um propósito — a crítica à pretensão equilibrista do ajuste fiscal atual –, não é “despropositado”.
    Se incomodou ao Carlos Tramontina, deve ser por ele “vestir-a-carapuça” na leitura da última frase do “textinho”: “Anunciar a ordem espontânea produzida pelo livre-mercado é mera ideologia dos economistas que se transformaram em sábios-pregadores”.
    att.

  2. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Perfeito. E é preciso lembrar que esta questão de Equilíbrio faz parte daqueles MODELOS teóricos da Economia Clássica (concorrência perfeita, concorrência imperfeita, monopólio, oligopólio, etc). E Modelo é Modelo. Não é Realidade.

  3. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Não acho não. Absolutamente realista e inventivo.É por discordâmcias deste tipo que ocorre o Desequilíbrio.

  4. Carlos Tramontina disse:

    Que textinho pretensioso e despropositado.

  5. Antonio Elias Sobrinho disse:

    Se falar em equilíbrio econômico já é uma falácia, um argumento com a intenção de impor a uma sociedade uma posição, um projeto, escondendo-se por trás de uma mentira que é a comparação entre uma sociedade e uma empresa. Pior ainda tratando-se de uma sociedade complexa, que habita um território de dimensões continentais como o Brasil.
    Além disso, admitir essa hipótese significa ignorar os conflitos de várias ordens, num processo de democratização completamente imprevisível, em que os mais variados agentes e componentes sociais encontram-se formulando as mais variadas estratégias.
    Finalmente, é bom considerar que todos aqueles que defendem ajustes e várias formas de buscas de equilíbrios, desejam realizar uma determinada forma de equilíbrio, as custas dos outros, sobretudo dos mais fragilizados. Isto é, não querem discutir as formas de buscas. Isto significaria admitir a possibilidade que eles teriam que colaborar com esse processo.

Comentários