A economia pode ser vista como um dos vários componentes de um sistema complexo dinâmico, que exige conhecimento transdisciplinar.
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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Sobre Econofísica ou Economia Evolucionária

Compreendemos melhor a economia como um complexo sistema adaptativo, composto de seres humanos e instituições interdependentes em um mundo dinâmico e vivo, daí a metáfora ‘organismo de mercado’. Sob essa ótica, ela é transdisciplinar

05/03/2020

Os Efeitos de Rede, por terem sido popularizados por Robert Metcalfe, ficaram conhecidos como Lei de Metcalfe. Ele foi um dos inventores da Ethernet. Ao vender o produto, argumentou os clientes precisarem de placas Ethernet para crescer acima de uma certa massa crítica e colher os benefícios da sua rede.

De acordo com essa Lei de Metcalfe, a lógica subjacente à venda de placas de rede era o custo da rede ser diretamente proporcional ao número de placas instaladas, mas o valor da rede ser proporcional ao quadrado do número de utilizadores. Embora o número resultante dessa definição não seja calculável com exatidão, a importância do conceito de múltiplos clientes compartilharem o acesso a recursos caros, tais como enviar correio eletrônico e acessar a Internet, está na resultante interoperabilidade.

O Efeito de Rede também é designado como Externalidade de Rede. Refere-se à importância da multiplicação de utilizadores de um bem ou serviço sobre o valor do produto para outros utilizadores. Quando esse efeito se apresenta, o valor de um produto ou serviço depende do número de utilizações de outras pessoas. O telefone celular onipresente é, talvez, o exemplo mais visível de multiplicação da comunicação interpessoal online em tempo real.

Alcançada uma certa percentagem de assinaturas, a chamada “massa crítica”, os Efeitos de Rede tornam-se significativos. O valor obtido a partir do uso do bem ou serviço iguala até superar o preço pago por esse bem ou serviço. Como esse valor é determinado pela base de utilizadores, isso implica um processo inicial mais lento face ao ritmo avassalador depois de um certo número de pessoas subscreverem o serviço ou comprarem o bem. Com o Efeito Demonstração, mais pessoas adquirirão o bem e/ou subscreverão o serviço, propiciando um valor superior ao elevado custo de produção.

Como atrair utilizadores antes de atingir a massa crítica? É possível propiciar uma motivação extrínseca, como um brinde, uma dispensa de taxa, ou um prêmio por conseguir inscrições de conhecidos. Se o sistema complexo com múltiplos componentes interativos já oferece valor suficiente desde os primeiros subscritores, os Efeitos de Rede serão decorrentes sem maior esforço. O número de utilizadores aumenta, o sistema torna-se ainda mais valioso e capaz de atrair muito mais utilizadores.

Porém, o aumento do número de assinantes além da massa crítica não pode continuar infinitamente. Depois de um certo ponto, a maioria das redes tornam-se congestionadas ou saturadas, suspendendo uma futura captação. O congestionamento ocorre devido ao uso excessivo. Exemplo recente é o uso de robôs para espalhar fake-News em favor de candidatos de extrema-direita via “uotzap ou feicebuque” (sic). Outro é a baixa no uso de mensagens pessoais para e-mail, dado o uso e abuso de spams ou comunicações institucionais ou jornalísticas.

Para evitar um congestionamento, o modelo tecnológico “ponto-a-ponto” ou “sistema P2P” (peer-to-peer ou pessoa-a-pessoa) está relacionado a redes de computadores nas quais cada computador pode atuar como servidor para os outros. Permite assim acesso compartilhado a arquivos e periféricos sem a necessidade de um servidor central. Como essas redes são projetadas para distribuir a carga entre os utilizadores, as redes P2P, hipoteticamente, podem aumentar indefinidamente. É o caso da utilização de torrents para baixar filmes ou músicas na web (rede de internet).

Os Efeitos de Rede são comumente confundidos com Economias de Escala. Estas resultam da dimensão do negócio em lugar da interoperabilidade. Elas aparecem no lado da oferta, quando os custos relativos abaixam face ao volume de produção. Efeitos de Rede surgem do lado da demanda dos utilizadores.

Efeitos de Rede também são confundidos com Economias de Escopo. Estas surgem quando o valor dos produtos e serviços vendidos aumenta como uma função do número de negócios operados por uma empresa. O termo “escopo” se refere à variedade de negócios operados por uma empresa diversificada. Por essa razão, somente empresa diversificada sob uma única marca podem, por definição, explorar Economias de Escopo.

Economia na integração vertical de uma corporação surge quando se torna mais barato uma produção conjunta em lugar de produzir bens separadamente na produção. Há matérias-primas comuns na fabricação de dois, três ou mais produtos, assim como as complementaridades na sua produção. Basta observar linhas de produção de automóveis com diversos modelos da mesma marca compartilhando autopeças.

Compreendemos melhor a economia como um complexo sistema adaptativo, composto de seres humanos e instituições interdependentes em um mundo dinâmico e vivo. A metáfora “organismo de mercado”, baseada em ideias evolucionistas de Charles Darwin, em lugar da metáfora “mecanismo de mercado”, inspirado em Isaac Newton, é mais utilizada atualmente na chamada EconoFísica. Ultrapassa a apresentação da Economia como fosse um sistema mecânico em equilíbrio pendular via preços relativos.

Economia vista como um componente de um Sistema Complexo é transdisciplinar. Interage com os demais componentes, cujas áreas de conhecimento vão além dela, para emergirem distintos padrões de comportamento coletivo ou configurações conjunturais. É um processo dinâmico e caótico, isto é, varia ao longo do tempo ao se afastar das condições iniciais.

Os níveis de um estoque mudam com o tempo devido ao saldo entre suas entradas e saídas, ou seja, devido aos fluxos. Ciclos de feedback são interconexões. As de reforço fazem o sistema se mover. As de balanceamento o impedem de explodir ou implodir.

Com reforços de feedback, quanto mais se tem, mais se ganha. Sem controle, amplificam o movimento dinâmico em círculos virtuosos ou viciosos. Atrasos nos fluxos para acumulação de estoque podem gerar obstinação no sistema, isto é, tempo demasiado para regeneração, por exemplo, da confiança na alavancagem financeira depois de um longo processo de desalavancagem ou queda do endividamento.

O Efeito de Rede tem muitas semelhanças com a descrição desse fenômeno de reforço de laços de feedback positivo, descrito na dinâmica de um sistema complexo. Esta pode ser um método de modelagem para descrever fenômenos macros sistêmicos, possíveis de serem observados apenas através de visão holista. Compreende os fenômenos na sua totalidade ou globalidade. Por exemplo, o Paradoxo da Parcimônia é holístico. A evolução criativa configura um todo – queda da renda e, portanto, da poupança agregada – distinto da soma das suas partes – aumento geral de poupanças individuais.

Capitalismo é um complexo sistema financeiro, onde houve não só a evolução do escambo direto para as trocas de mercadorias por moedas, mas os agentes econômicos buscam também conceder dinheiro no presente para obter mais dinheiro no futuro.

Por exemplo, as bolsas de valores e de derivativos apresentam Efeitos de Rede. A liquidez de cada mercado determina o custo de transação na compra ou venda de um título financeiro ou ações. Incentiva a aposta de prosseguimento da tendência firme de alta desde o preço da compra até o preço da venda do mesmo ativo: qualquer forma de acumulação de riqueza. Quando há progressivo aumento do número de compradores e vendedores na bolsa de valores, há aumento de liquidez e diminuição dos custos de transação. Isso atrai maior número de compradores e vendedores para a especulação.

No fim do ano do golpe, haviam 564 mil investidores PF na Bovespa, exatamente o mesmo número de dois anos antes, quando findou a Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014). Um ano depois, em 2017, se elevou para 620 mil, e no fim do governo temeroso golpista já eram 813 mil. No fim de 2019, eram 1.678.754 investidores em ações, ou seja, uma variação anual superior a 100%: além do dobro. Explodiu a bolha.

O Banco Central do Brasil tirou o grande atraso em baixar a taxa de juro básica. Só se mexeu quando a economia já apresentava sólida estagdesigualdade. Em meados de 2019, inflou de vez a bolha de ações ao aumentar a fuga de capitais da renda fixa para a renda variável, em mercados de riscos, seja o de ações, seja o de dólar ou ouro. Já está sendo também providenciada a retomada a inflação de ativos imobiliários.

O multiplicador de renda, popularizado por Keynes, talvez seja a variável mais conhecida por economistas para visualizar as várias rodadas de variações de gastos em consumo e investimento ao longo do tempo. Análogo é o multiplicador monetário, onde os empréstimos criam depósitos e estes são lastros passivos de novos empréstimos ativos.

Todos eles mostram efeitos de segunda ordem sobre o sistema econômico, criado pelo investimento motivado por alavancagem financeira. Quando um investimento é financiado, ele permite não só um aumento proporcional ao seu tamanho na produção, mas também um impacto ainda maior na rentabilidade patrimonial, depois de descontadas as despesas com juros, devido à economia de escala, senão os Efeitos Rede.

As receitas são gastas em consumo ou em investimentos financeiros. Estes não ficam fora do circuito monetário, seja como “poupança”, seja como “preferência pela liquidez”. Se há demanda efetiva por crédito são logo reinjetados. O estímulo da demanda por investimento não depende da “propensão a poupar” dos agentes. O dinamismo sistêmico depende sim de projetos de investimentos em expansão da capacidade produtiva e de crédito. Jogue no lixo o popular conceito de “poupança”!

Crédito da foto da página inicial: Kacper Pempel/Reuters

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