Brasil Debate

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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI). É colunista do Brasil Debate

 
Marcelo Zero

Só a democracia nos salvará

Publicado no Brasil 247 em em 14-3-2016

Neste último domingo, aconteceu o que os partidos de oposição mais temiam. O movimento golpista e neoudenista que eles insuflaram contra o governo, o PT e a esquerda em geral saiu completamente de seu controle e ameaça engoli-los também.

Na numerosa manifestação das classes médias tradicionais brancas, sua base social e política, Aécio, Alckmin e outros figurões do PSDB foram escorraçados aos gritos de “corruptos”. Figuras do PMDB, como Martha Suplicy, foram obrigadas a buscar refúgio em prédios da FIESP. Dá para imaginar o que teria acontecido também com Serra, Temer e Renan Calheiros, irmanados na estratégia do semipresidencialismo, caso tivessem comparecido. O próprio Eduardo Cunha, herói das manifestações de 2015, agora é também vilipendiado pelos seus antigos adoradores.

O fato concreto é que abriu-se, em definitivo, a caixa de Pandora do protofascismo brasileiro. Nas ruas, o que se vê é um bestiário inacreditável. Gente pedindo intervenção militar, gente apoiando a pena de morte, gente condenando a inclusão social, gente condenando a presença dos pobres na política, gente abertamente homofóbica, gente descaradamente racista e, sobretudo, gente contra “a política e os políticos”. Até mesmo o Supremo passou a ser condenado.

Está se gestando, a olhos vistos, o “que se vayan todos” brasileiro.

Com efeito, a crise política permanente cevada pelo golpismo irresponsável paralisa ao país e aguça a crise econômica. Impede, na realidade, a recuperação do país. Isso cria o cenário ideal para uma crise institucional generalizada, do mesmo tipo da ocorrida na Argentina, em 2002, ou na Alemanha, na década de 1920.

Está dado o quadro para a condenação de todo o sistema político e a emergência de aventureiros bonapartistas da direita mais autoritária e reacionária.

Os heróis políticos agora são os Bolsonaros da vida, os representantes de uma extrema direita abertamente intolerante, fascista e ditatorial. Os mitos são figuras como o Juiz Moro, com sua cruzada neoudenista e seletiva contra os “políticos corruptos”. Os grandes teóricos são patéticos anões intelectuais, que se inspiram em figuras menores como Mises, e até mesmo nos Power Rangers.

O problema é que, uma vez que se abre a caixa de Pandora, é difícil fechá-la de novo, especialmente quando há uma mídia historicamente antidemocrática que, por oportunismo político e interesses menores, que envolvem vasta sonegação de dinheiro público, continua a apostar na desestabilização e no golpe.

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É também difícil fechar a caixa de Pandora desse horror fascistoide quando setores partidarizados das instituições de controle e do próprio judiciário manifestam claro desprezo pelos direitos e garantias fundamentais e pela democracia que deveriam defender.

Sobretudo, é impossível fechar essa caixa de Pandora com uma oposição irresponsável que continua a apostar no golpe e “no quanto pior melhor”.

Cevar raiva e ódio é sempre algo parvo e beócio. Numa democracia, não se procura “sangrar”, “matar” ou “destruir” adversários políticos. Freud, na Psicologia das Massas e Análise do Ego, escrito após a Primeira Guerra Mundial e já na iminência do surgimento do nazismo, chamava a atenção para o perigo que civilização corria quando os indivíduos transferiam seu Super Ego a líderes messiânicos e inescrupulosos. As massas se tornam uma espécie de animal selvagem capaz de tudo, capaz de tudo varrer. Como aconteceu pouco depois na Alemanha, tudo foi varrido. Não apenas os comunistas e os judeus, mas todas as forças políticas e as instituições democráticas.

Partidarizar a imprescindível luta contra corrupção é ainda mais perigoso. Afinal, se essa luta fosse mesmo levada a sério, Dilma Rousseff seria uma das poucas figuras que sobreviveriam. Enganam-se aqueles que acham que o simples afastamento da presidenta aplacaria o ódio contra a política dos “apolíticos”. Na realidade, isso só criaria uma fratura ainda maior na sociedade brasileira, que dificilmente seria superada. A instabilidade se agravaria.

Chegamos ao ponto que é denominado na Teoria dos Jogos de lose-lose situation. Um cenário em que ninguém será capaz de ganhar nada. Ao contrário, todos perderão, à exceção dos novos Berlusconis que surgiriam da nossa Mani Pulite. O Brasil perderá.

Nossa única salvação está na defesa intransigente da Democracia, do Estado Democrático de Direito, dos direitos e garantias individuais e, sobretudo, da tolerância.

O Brasil está precisando mesmo é de uma Operação Paideia, uma defesa dos valores da civilização racional, iluminista e democrática. Só ela poderá fechar essa horrorosa e perigosa caixa de Pandora que se abriu contra todos nós.

Só a democracia poderá nos salvar.

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2 respostas to “Só a democracia nos salvará”

  1. Antonio Elias Sobrinho disse:

    Uma coisa é dizer e acreditar que a democracia nos salvará, outra coisa é identificá-la com a continuação do governo Dilma. Ninguém nega que o golpe pode abrir espaços para o que existe de pior na política brasileira, que são os grupos comprometidos com a consolidação de um Estado policial militar e o aprofundamento de um programa econômico que trucidará, sem dúvida, os mais fragilizados.Porém, podemos salvar o governo do assédio dos aventureiros e não conseguir a democracia e nem evitar os retrocessos sociais que o texto afirma que sim. Aliás, não preciso enumerar, mas todos sabemos que uma série de retrocessos, tanto na questão da legislação com relação aos direitos como na vida das pessoas mais precarizadas em função da política econômica em curso. Então, evitar o golpe é importante, mas se não conseguirmos modificar o rumo das coisas não adiantará muito.

  2. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Exato, nem li ainda o comentário, mas só este resumo do lead já me deixa inteiramente de acordo. Sem dúvida se trata de uma Caixa de Pandora, a bestialogia está solta, os hidrófobos (até ontem) vinham ocupando a Paulista e todas as demais Paulistas espalhadas pelo Brasil afora. Notórios psicopatas espumejando pela boca, em urros guturais, contra a ordem democrática, a legalidade, sobretudo contra o programa generoso do PT que tirou tanta gente da merda. Aparentemente muitos deles anseiam por voltar para lá.É o que conseguirão, se Deus quiser. Uma enorme massa de alienados se atirando nos braços de seus piores inimigos, ansiosos por explorá-los de novo com seus salariozinhos miseráveis, suas demissões, suas falências e seus cortes de benefícios, sem falar em prováveis restrições e mesmo repressões sindicais.Pobre desgraçada gente! E ainda se sentindo no centro das atenções pelo espaço que lhes é gentilmente oferecido pela Geradora de Novelas, de Corinthians versus Flamengo, de BBBs (ou Vamos Espiar como Eles se Lambem), e tantos, tantos outros Documentos da mais expressiva Cultura Pós-Gorilada 64.Ainda estamos sob Ela.

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