Enquanto as inovações radicais se dão em países tecnologicamente mais desenvolvidos, melhorias marginais, como os aplicativos para smartphones, têm espaço em países como os africanos, o que pode ajudar a reverter seu atraso tecno-econômico.
" />

Brasil Debate

Brasil Debate

Tulio Chiarini

É analista em C&T lotado na Divisão de Estratégia do Instituto Nacional de Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Economista pela UFMG, mestre em economia pela UFRGS, mestre em administração da inovação pela Scuola Superiore Sant’Anna, doutor em teoria econômica pela Unicamp.

 
Tulio Chiarini

Sim, na África também existe inovação!

No Quênia, um aplicativo para smartphones desenvolvido por uma equipe de técnicos, especialistas oculares, médicos de saúde pública e designers de produtos é utilizado para realizar exames oftalmológicos em regiões rurais do país e de difícil acesso

A imitação é uma atividade crucial para o desenvolvimento dos países, sobretudo para aqueles cuja possibilidade de inovações radicais é limitada. Não faltam experiências históricas de países relativamente menos industrializados que copiaram tecnologias, adaptando-as às suas realidades e necessidades, permitindo a geração de inovações incrementais.

Um exemplo bastante elucidativo é o caso dos smartphones. É amplamente sabido que a tecnologia para sua concepção – desenvolvimento, engenharia e design – concentra-se, sobretudo, nos países tecnologicamente mais desenvolvidos. Já a produção propriamente dita – a parte que menos agrega valor – localiza-se nos países relativamente menos desenvolvidos, devido os baixos custos de produção – mão de obra barata, leis trabalhistas menos rigorosas, legislação ambiental menos severa etc. – e, não raras vezes, está ligada às cadeias globais de produção controladas pelas corporações transnacionais.

No entanto, graças às tecnologias de informação e comunicação (TICs), as quais possuem caráter pervasivo e natureza sistêmica, há possibilidade de disseminação de inovações por meio da invenção e produção de novos produtos e processos. Ainda sobre os smartphones, é possível encontrar inovações a eles relacionadas que surgem em regiões menos desenvolvidas, a partir de invenções domésticas e que os locais teriam mais propensão a pensá-las, dadas as suas realidades particulares.

Seria imediato pensar que os aplicativos para smartphones surjam em regiões altamente desenvolvidas e tecnológicas como o Silicon Valley nos EUA, no Sophia Antipolis na França ou em qualquer outro país tecnologicamente avançado, entretanto, existem vários que são desenvolvidos aqui no Brasil, ou mesmo em países africanos.

No Quênia, a título de exemplo, o aplicativo para smartphones chamado PEEK (Portable Eye Examination Kit) – desenvolvido por uma equipe de técnicos, especialistas oculares, médicos de saúde pública e designers de produtos – é utilizado para realizar exames oftalmológicos em regiões rurais do país e de difícil acesso.

De acordo com o estudo de Bolster et al.[1], a digitalização de imagens oftálmicas conseguiu abrir uma série de possibilidades para com o cuidado da saúde ocular,  tais como a detecção precoce de patologias, tendo um enorme potencial para a redução da cegueira evitável. Portanto, o PEEK é considerado uma inovação.

O aplicativo M-Pesa[2] é outro exemplo de inovação no caso queniano. Foi desenvolvido em 2007 e permite que indivíduos transfiram dinheiro para terceiros sem a necessidade de uma conta em um banco tradicional. A sacada dos desenvolvedores foi transformar o estoque de ‘dinheiro vivo’ de um indivíduo em ‘dinheiro virtual’ em seu celular. Desse modo, os indivíduos enviam seus fluxos virtuais a outros usuários de celulares os quais podem transformá-lo em ‘dinheiro vivo’. Esse aplicativo é revolucionário, pois levou em conta uma necessidade local: a inclusão financeira de habitantes de regiões remotas onde não existe uma estrutura bancária bem desenvolvida e pulverizada.

A utilização do M-Pesa possui risco menor se comparado com outros métodos de pagamentos informais e armazenamento de moeda, além disso, sua utilização é mais econômica do que as transferências bancárias tradicionais. De acordo com o economista queniano Tavneet Suri[3], em apenas quatro anos, desde sua implantação, o M-Pesa é utilizado por aproximadamente 70% da população adulta do Quênia e em ¾ dos domicílios quenianos é possível encontrar pelo menos um usuário do aplicativo. De acordo com Michael Porte e Mark Kramer[4], os fundos que administram o M-Pesa chegam a representar 11% do PIB do país.

Obviamente, o avanço do M-Pesa só foi possível graças à penetração das TICs no continente africano em geral e no Quênia em particular. Conforme a pesquisa dos economistas Jenny Aker e Issac Mbiti[5], da quase inexistência de acesso à telefonia móvel nos anos 1990, em pouco mais de duas décadas, a cobertura chega a 60% dos africanos. Há mais de dez vezes o número de telefones móveis do que telefones fixos no continente, segundo os pesquisadores.

Isso é facilmente comprovado empiricamente com uma rápida visita ao interior da Tanzânia: é possível ver nativos de tribos tradicionais, na região de Ngorongoro, como os seminômades Massais que, ao mesmo tempo em que preservam suas tradições culturais, carregando um seme e um rungu[6], levam consigo um celular. É possível também ver na favela de Kibera, em Nairobi, vendedores informais fazendo uso do M-Pesa em seus smartphones, promovendo a economia local.

De todo o exposto e dos exemplos apresentados, fica evidente que o processo de imitação e as consequentes inovações incrementais não podem ser negligenciados para o processo de desenvolvimento econômico e tecnológico. Uma vez que as inovações radicais transbordam dos países tecnologicamente mais desenvolvidos, elas penetram nos periféricos e encontram espaço para melhorias marginais, isto é, desenvolvimentos incrementais. Nesse sentido, a capacidade de imitação e adaptação de tecnologias já existentes deve ser vista como uma possibilidade da reversão do atraso tecno-econômico.

[1]           BOLSTER, N.M.; GIARDINI, M. E.; LIVINGSTONE, I. A. T.; BASTAWROUS, A.. How the smartphone is driving the eye-health imaging revolution. Expert Review of Ophthalmology, v. 9, n. 6, 2014.

[2]           A palavra ‘M-Pesa’ é o acrônimo de ‘dinheiro móvel’: ‘M’ para ‘mobile’ e ‘pesa’ para ‘dinheiro’ na língua swhahili.

[3]           WILLIAM, J.; SURI, T.. Risk sharing and transactions costs: evidence from Kenya’s mobile money revolution. American Economic Review, v. 104, n. 1, p. 183-233, 2014.

[4]           PORTER, M. E.; KRAMER, M. R.. Creating shared value. Harvard Business Review, Jan./Fev. 2011.

[5]           AKER, J. C.; MBITI, I. M.. Mobile phones and economic development in Africa.  Journal of Economic Perspectives, v. 23, n. 3, p. 207-232, 2010.

[6]           ‘Seme’ é uma espécie de espada e ‘rungu’, uma espécie de bastão de madeira, ambos usados pelos massais homens para se defenderem de animais nos planaltos africanos.

Os pensamentos e opiniões aqui expressos não refletem necessariamente aqueles das instituições às quais o autor está vinculado profissionalmente.

Crédito da foto da página inicial: Svin Torfinn/Verso Books

Clique para contribuir!

1 resposta to “Sim, na África também existe inovação!”

  1. Moraes disse:

    Muito oportuno. Ocorre que mesmo entre adadêmicos e especialistas em inovação (se é que faz sentido o termo) parece haver um fetiche da inovação radical e um certo desdém ou descuido para com a inovacao incremental, adaptativa, ou daquelas que nascem no uso e na produção. Além disso, há certo nariz torcido para a ideia de imitacao, engenharia reversa e, acrescentaria, à inovação reversa, algo que se tem mostrado muuito relevante em paises do oriente.

Comentários