As autoras lembram que, passados 20 anos, a célebre greve dos petroleiros de 1995 tem o que ensinar nos dias de hoje, diante dos atuais ataques ao caráter estatal da Petrobrás e tentativas de retrocesso nos direitos trabalhistas.
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Brasil Debate

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Beatriz Gomes

É graduada em Ciências Econômicas pela UEM e mestranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp

Juliane Furno

É graduada em ciências sociais pela UFRGS, doutoranda em desenvolvimento econômico na Unicamp e militante do Levante Popular da Juventude. É colunista do Brasil Debate

 
Beatriz Gomes e Juliane Furno

Sete mil trezentos e cinco dias de resistência: A greve dos petroleiros de 1995

Emblemática, a grande greve de 1995 dos petroleiros não teve ganhos econômicos, mas políticos e sociais, em um período marcado pelo projeto neoliberal e seu objetivo de desconstruir as organizações das classes trabalhadoras

O ano de 2015 marca exatamente duas décadas de um dos principais momentos de luta e resistência do movimento sindical brasileiro. Especificamente no dia 3 de maio de 1995 é deflagrada uma greve geral, organizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), que contou com a participação de importantes categorias do movimento operário brasileiro.

Os petroleiros vinham de um intenso processo de greves, paralisações e debates a respeito da proposta de reajuste sistematizada pela Federação Unificada dos Petroleiros (FUP). Além da justeza da pauta econômica de reivindicações, dois outros importantes elementos alimentaram o sentimento de revolta por parte dos petroleiros.

O primeiro foi o sentimento de traição, em função de Fernando Henrique Cardoso – recém-eleito presidente da República – ter se negado a cumprir o acordo firmado entre o ex-presidente Itamar Franco e a FUP. E o segundo elemento, que aguçou a luta dos petroleiros, foi compreender que a política econômica de desenvolvimento nacional proposta por FHC, em conformidade com a perspectiva neoliberal, ia à contramão das conquistas dos trabalhadores e do povo brasileiro na década de 1980.

Essa foi uma greve paradigmática, uma vez que o ideário neoliberal tem como estratégia formar um senso comum antiestatismo. Dessa forma, utilizam os sindicatos, no caso, os petroleiros, como artifício de controle do descontentamento da sociedade frente às políticas salariais e diminuição dos gastos sociais: tenta-se convencer a opinião pública de que os trabalhadores sindicalizados são exageradamente protegidos.

Os 32 dias dessa greve que abalou o final do século 20 foram uma verdadeira queda de braço entre a impossibilidade do neoliberalismo de atender às reivindicações sindicais e a impossibilidade de os petroleiros aceitarem o descumprimento de um acordo firmado anteriormente e ceder à ofensiva neoliberal.

Famosa foi a frase proferida por Fernando Henrique Cardoso, que disse que “quebraria a espinha dorsal do movimento sindical”. Essa sinalização do ex-presidente reflete a construção política de um projeto neoliberal de desenvolvimento, que tinha como objetivo central desconstruir as organizações das classes trabalhadoras, consolidadas e em ascensão desde o fim da ditadura militar.

Para isso, a mídia e a justiça mostraram que estão a serviço da ordem, do conservadorismo e da desmoralização e criminalização dos movimentos sociais. No dia 10 de maio, ao final do Jornal Nacional da Rede Globo, é anunciada uma lista de 25 demitidos do sistema Petrobrás, entre eles Antonio Carlos Spis, coordenador nacional da FUP.

O governo se manteve firme e intransigente na tentativa de negociação. A única ação do governo com relação à greve parece ter sido dar ordem para o exército ocupar as refinarias. Isso em um contexto de renascença da democracia brasileira, ou seja, uma afronta à transição democrática e à negociação política.

Findadas as tentativas de negociação e desgastados pelo cerco midiático e judicial, os petroleiros definiram pelo fim da greve, porém pela permanência da situação de mobilização e alerta. Embora os ganhos econômicos e as pautas reivindicativas não tenham sido conquistados, a “grande greve de 1995” teve significativos ganhos políticos e sociais.

Em 32 dias, os petroleiros deram uma verdadeira aula de solidariedade de classe, de resistência, de organização social e principalmente de esperança com o aprendizado de que é só com o povo organizado que se conquista vitórias.

Após 20 anos, as lições e desafios permanecem vivos para os brasileiros. A Operação Lava Jato ilustra como a mídia e seus ataques continuam e a necessidade de ainda lutar pelo caráter estatal da Petrobrás. A Câmara dos Deputados aprovou a PL 4330, que significa um grande retrocesso na luta dos trabalhadores. Maio de 2015 e ainda se faz necessário lutar – com o espírito dos petroleiros de 1995 – para não cairmos nas armadilhas conservadoras e, pior, retrocedermos anos de resistência.

No Brasil, tendo a greve dos petroleiros de 1995 como primeiro grande embate dos trabalhadores à ofensiva neoliberal, são sete mil trezentos e cinco dias de resistência. Seguimos firmes!

Crédito da foto da página inicial: Acervo Sindipetro Rio de Janeiro

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1 resposta to “Sete mil trezentos e cinco dias de resistência: A greve dos petroleiros de 1995”

  1. Antonia Garcia disse:

    Avançar sempre! A classe trabalhadora é maioria e não pode se curvar diante dos ataques da direita!

Comentários