Para o autor, a discussão sobre reforma política deve ir além da questão da representatividade para abordar também a atuação das empresas privadas na esfera pública em defesa de seus interesses - como no exemplo do e-mail do Santander recomendando aos clientes a não votarem em Dilma.
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Brasil Debate

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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

Reforma política e os limites entre o privado e o público

Precisamos admitir que as empresas exercem influência não só nas questões políticas como também nos resultados eleitorais e, portanto, criam representatividades artificiais e interferem mais na esfera pública do que o admissível e desejável

Quando o tema é reforma política, parece haver um único consenso: a representatividade está em xeque no Brasil de hoje. Mas, a questão da representatividade não deve ignorar outro ponto crucial que fica marginalizado quando se restringe o debate ao institucional: como tratar os interesses privados dentro da lógica pública que a política deve representar?

Assim, para além da discussão institucional, do núcleo duro da reforma, é importante que avancemos em outro problema: a democratização dos interesses públicos e os limites da atuação do privado na esfera pública.

Ou seja, precisamos admitir que as empresas exercem influência não só nas questões políticas como também nos resultados eleitorais e, portanto, criam representatividades artificiais e interferem mais na esfera pública do que o admissível e desejável.

Limito-me a três exemplos para mostrar como as empresas e instituições privadas agem nas eleições e burlam a lei eleitoral em nome de palavras de ordem vazias de pragmatismo, mas cheias de simbolismo: liberdade e democracia.

Primeiro, recordo o e-mail de uma suposta funcionária do Banco Santander recomendando a seus clientes não votarem em Dilma. Uma instituição financeira que usa sua lista de clientes (selecionados aqueles que têm mais de 10 mil reais investidos) para fazer proselitismo eleitoral – seja um funcionário raso ou um diretor – não é razoável.

Qualquer manifestação eleitoral em época de campanha exige que seja dado igual espaço e tempo a diferentes candidaturas.

Mas, convenhamos, uma coisa é uma pessoa individualmente defender uma ideia e expor uma opinião, outra coisa é uma instituição fazer uma análise pseudocientífica da conjuntura como fez o Santander ou a consultoria Empiricus (que teve um vídeo que viralizou na internet dizendo que a atual politica econômica do governo iria levar o País à bancarrota).

Nos dois casos, as instituições se manifestam no mercado de modo a defender seus interesses privados como se fossem interesses públicos.

Outro caso conhecido, debatido e até mesmo batido de tão citado é o caso das mídias. A verticalização da mídia leva alguns jornalistas a estarem nas revistas impressas, nas análises do rádio e na televisão. Confunde-se facilmente e propositadamente pela grande mídia a opinião pública com a opinião de meia dúzia de jornalistas direcionados pelos seus editores.

Além disso, todos tiveram a oportunidade nesta eleição de acessar o manchetômetro. As críticas à presidenta e ao PT foram desmascaradas pelo método de análise da UERJ sobre como se comportam os jornais diante dos candidatos. De modo geral, a mídia impressa no Brasil não assume candidatura, mas os jornais expressam suas preferências nas suas páginas.

A crise da água ou o metrô em São Paulo, por exemplo, era assunto da Metrópole ou do Cotidiano, enquanto a Petrobrás estava nas manchetes políticas. Seria muito diferente se a Petrobrás estivesse nas páginas da economia ou se os casos envolvendo a oposição estivessem na política.

Também seria muito diferente se o tempo e o esforço para as notícias seguissem um equilíbrio maior entre os interesses em geral e econômicos.

Finalmente, cito um terceiro caso que pode ser importante nessas eleições. Cresceu enormemente o número de matrículas no ensino superior privado do País chegando a superar em proporção o número de matrículas em instituições públicas.

Esse eleitorado pode ser decisivo para votar e apoiar candidatos. O fato é que estão majoritariamente em faculdades e universidades privadas que têm interesses econômicos e buscam apadrinhamento político para defender-se em casos de regulação pública e otimizar seus resultados.

Suas campanhas para votos proporcionais e majoritários se manifesta nos corredores, mas palestras, no acesso de coordenação e diretoria a determinados alinhamentos políticos. O professor em sala é instruído a não manifestar suas preferências, mas as coordenações fazem todo o possível para manifestar as preferências institucionais como se fossem a manifestação dos saberes acadêmicos.

As escolhas dos palestrantes e conferencistas não se fazem ao acaso, obedecem a essa orquestração que faz um aluno supor que o Bolsa Família é um programa assistencialista eleitoreiro e o Prouni e o Fies são algumas das excreções deste assistencialismo.

Mesmo sendo beneficiário dos programas do governo, o aluno é levado a pensar que são propostas vazias e, para provar seu valor, se colocam contra para salvar sua índole de postulante à classe média e que, como tal, precisa renegar qualquer vínculo com as classes subalternas.

Os três casos, de diferentes maneiras têm mostrado a agressividade velada contra as transformações em curso Brasil. E são exemplos da agressividade de parte das elites econômicas que querem preservar seus privilégios contra qualquer avanço da cidadania.

Para esta campanha eleitoral, foi inevitável que o PT partisse para o ataque em contrapartida ao aparelhamento privado que a propaganda adquiriu. Ou as inserções televisivas e os esforços nas redes sociais desconstroem as outras candidaturas, ou nenhum outro veículo fará.

A candidatura de Dilma teve que dividir o seu tempo de TV entre ressaltar seus feitos e avanços do governo. Porque nem as instituições privadas, nem as análises econômicas e muito menos imprensa admitiram seus avanços.

O fato é que o capitalista está cada vez mais afeito ao espetáculo do marketing. Cada empresa é capaz de fazer uma boa comunicação a respeito não só dos seus produtos, mas também dos seus interesses.

A melhor propaganda acontece quando não é preciso te convencer a comprar um produto, mas quando se demonstra que é do seu interesse comprar aquele produto. Estratégia que já está em curso, já que as empresas são ágeis em transformar seus interesses em interesses públicos.

E, se nada for feito em termos de reforma para esse esquema, qualquer reforma política vai esbarrar em reforço ou afirmação desta distopia do capital.

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1 resposta to “Reforma política e os limites entre o privado e o público”

  1. mz disse:

    Ainda bem que hoje temos a internet e os blogs de esquerda para fazer o contraponto ao rolo compressor da mídia de direita. Mas a esquerda precisa avançar nas mídias convencionais também, com TV, rádio e jornais impressos.
    Eles têm a seu favor toda força financeira do capital especulativo globalizado,são capazes de “produzirem” seus políticos com sofisticados recursos de marketing , mas para que funcione, o “produto” precisa mostrar-se consistente e funcional do ponto de vista da demanda.

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