Para o autor, é possível comparar o momento político atual com o que antecedeu 1964. A diferença é que vivemos o capitalismo pleno, o que torna os conflitos de classe mais complexos e difusos.
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Brasil Debate

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Tiago Camarinha Lopes

É economista pela Goethe Universitat Frankfurt a.M., Alemanha; professor da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (UFG). Coordenador da Formação do Núcleo Goiás da Auditoria da Dívida Pública

 
Tiago Camarinha Lopes

Quem são os inimigos do povo brasileiro?

Hoje, diferentemente do início dos anos 1960, quando também havia forte polarização política, a economia capitalista brasileira é plena, o que torna mais difusos os “inimigos do povo”

Dois eventos de relevância acontecerem em 2013 e 2014. O primeiro foram as manifestações de junho, ocasionada pela delicada situação da questão urbana. O segundo foi a eleição disputada que reelegeu Dilma.

Os dois episódios expressam que a sociedade e a economia brasileira estão concluindo uma fase transitória que conectará o período de capitalização dirigida pelo Estado (1930 – anos 1980) a um novo período de padrão de reprodução capitalista.

A transição em curso significa o fim da estabilidade relativa desde a redemocratização e a emergência de uma nova etapa histórica do capitalismo brasileiro.

A história da economia da América Latina no século 20 é história de sua industrialização.

O grande desafio era promover a internalização da produção sob o capital. Só que o capitalismo do século 20 é um sistema de controle Estatal, em que o crescimento precisa ser constantemente ajustado para atender demandas da base.

Caso contrário, a coesão social extremamente frágil, num ambiente que condensa passado e futuro num único instante, se desfaz e abre caminho para as transformações radicais que miram ultrapassar o capitalismo.

Além disso, a dependência estrutural de todo o continente latino-americano é um atalho a mais para a transição internacionalista devido à condição conservadora dos nacionalismos locais e da disparidade gritante que ela gera entre crescimento e desenvolvimento econômico.

Depois dos avanços iniciais da industrialização dirigida pelo Plano de Metas, o Brasil caiu na instabilidade política do começo dos anos 1960. Naquela época, houve uma polarização política intensa em torno de reformas que visavam a aprofundar as conquistas democráticas obtidas pela elevação da riqueza material absoluta até então.

Um dos principais pontos era a Reforma Agrária. Apesar dos limites gerais impostos pela estratégia reformista, o Brasil caminhava na direção correta de atendimento dos anseios imediatos do povo trabalhador.

O paralelo entre o início dos anos 1960 e o que se iniciou em 2013 vem daí: são dois instantes de esgotamento de progresso social por passos que demandam a partir de então uma mudança qualitativa.

No entanto, devido ao temor concreto no contexto da Guerra Fria de então, o processo de avanço social contido no aprofundamento do capitalismo no continente latino-americano foi substituído pelo avanço técnico excludente.

A partir de 1964, a exacerbação do modelo de associação subalterna ao mercado externo aprofundou as características capitalistas de reprodução econômica no Brasil, deixando para o futuro as questões caras à população trabalhadora do País.

A conclusão da industrialização “tradicional” com o II PND e a crise dos anos 1980 e 1990 marcaram uma etapa de transição para nossos dias.

O neoliberalismo e os ajustes em relação ao novo cenário internacional de escassez de investimentos produtivos só perdeu força a partir da decisão de encontrar uma saída “interna” com base na integração formal dos trabalhadores ao capitalismo de Estado com relativa preocupação social. Esta foi a mudança iniciada em meados dos anos 2000.

O período de estabilidade relativa entre 1994 e 2013 terminou quando a sociedade brasileira deu sinais do esgotamento absoluto da estratégia de desenvolvimento capitalista.

A formação de uma massa formalizada de milhões de trabalhadores com direitos criou a polarização que se observa hoje nos debates da superfície.

A classe trabalhadora (composta dos mais variados estratos de renda) forma um “bolão” extremamente heterogêneo sem condições de elaborar um projeto próprio de renovação para o País.

De um lado, o “popular” é um asco para a pequena burguesia e alto proletariado de consumo elitizado. Do outro lado, o suposto refinamento artístico e intelectual da “sociedade esclarecida” é ridicularizado em peso, inclusive por jornalistas da grande mídia.

A classe média massificada brasileira, o novíssimo fenômeno desde meados dos anos 2000, é um bicho de sete cabeças onde cada uma briga freneticamente com todas as outras.

O conservadorismo desse “bolão” é a esfinge de nossos dias, porque tudo isso ocorre sem que se recupere as grandes questões históricas que marcam os embates entre as classes.

Nos anos 1960, o socialismo real funcionava como possibilidade de alternativa ao que existe. Hoje, a ameaça exterior deste outro mundo possível assume uma forma super caricata a partir de pequenos dissidentes como Cuba, Coreia do Norte, Venezuela e Bolívia.

A face comunista da grande China é automaticamente eliminada e o PC chinês é contemplado como se seu projeto fosse o mesmo do mundo capitalista. A questão internacional é completamente distinta em nossa geração.

O subimperialismo brasileiro passou para o lado forte da cadeia imperialista mundial e não há hoje uma ameaça do comunismo que parta do estrangeiro.

Só que as propostas da mudança brotam, mesmo assim, de dentro do País, de seu interior e das bordas da periferia do sistema. Por isso emerge o discurso de divisória do povo brasileiro ao mesmo tempo em que se apela para os fantasmas passados do nacionalismo.

Só que não há mais como criar a unidade nacional contra o resto do mundo. É imperativo, portanto, que as análises de conjuntura econômica e política passem a ser centradas nas categorias de classe, porque a unidade nacional não pode mais ser criada pela fuga para mundos fantásticos de conciliação de interesses antagônicos.

A difusão dos conflitos de classe na abstração de “uma nação brasileira” não tem mais suporte estrutural.

Os inimigos do povo se tornam muito mais difusos, porque a economia brasileira se tornou capitalista em plenitude, com todas as suas contradições e heterogeneidades.

A posição militante em relação ao imperialismo externo terá que ser dividido com o próprio imperialismo interno, o que eleva ainda mais o grau do desafio e responsabilidade da classe trabalhadora brasileira na transformação do mundo.

É neste contexto que se deve avaliar a polarização atual em comparação àquela que antecedeu 1964, para que possamos compreender a envergadura do momento que vivemos.

 

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2 respostas to “Quem são os inimigos do povo brasileiro?”

  1. marilia canabrava disse:

    O pior inimigo é ovil mercenário que, em nome do “se dar bem”, é capturado pelo “quem der mais”, ou seja, os neocolonialistas do Planeta. Nessa onda sucumpiu o Iraque, a Líbia, Honduras, está indo a Síria, etc.
    O mercenário sempre se deixa capturar c/ facilidade e o pior é que ele não tem nome, nem estrela na testa. Está sempre oculto por uma máscara de nacionalista e patriota, quando o que, na verdade lhe interessa, é o que o Capataz da hora lhe estende como vantagem pessoal.
    O Capataz também não suja as próprias mãos uma vez que usa os subservientes p/ a linha de frente.

  2. m.a.p disse:

    Infelizmente não respondeu a pergunta título.

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