Os últimos posicionamentos de líderes ligados à candidatura do PSL e às Forças Armadas acendem um sinal amarelo em relação à debilitada democracia brasileira.
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Marcus Ianoni

É cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia

 
Marcus Ianoni

Por um pacto pluripartidário em defesa da democracia

Num provável cenário de segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, um ponto-chave será a formação de uma frente de forças democráticas contra o candidato extremista, em defesa do regime político cada vez mais maltratado

18/09/2018

Os últimos posicionamentos de líderes ligados à candidatura do PSL e às Forças Armadas, a começar pelo vídeo gravado por Jair Bolsonaro no hospital em que está internado, reforçam o sinal amarelo para a debilitada democracia brasileira que, desde 2016, com a deposição presidencial altamente polêmica, ingressou em um processo de desdemocratização. É hora de atenção, de muito cuidado na travessia em curso.

No vídeo, o líder nas pesquisas de intenção de voto diz que não houve ditadura militar no Brasil, que Lula tem um plano B, a se materializar na fraude eleitoral nas eleições em curso, supostamente facilitada pela não aceitação do voto impresso pelo STF, a pedido de Raquel Dodge; que o voto eletrônico é o caminho descoberto pelo PT para se perpetuar no poder; que não há qualquer garantia nas eleições atuais; que Dilma apoiou a criação da Unidade Técnica Eleitoral da Unasul, deixando implícito ser tal medida uma conspiração bolivariana; referiu-se também a documentos do PT supostamente comprometedores da liberdade, como um que aborda a regulação da comunicação social, embora, como é publicamente sabido, o objetivo seria cumprir  o estabelecido no Art. 220, a proibição de monopólio ou oligopólio no setor.

Com base em uma interpretação volátil do artigo da Constituição que afirma que as Forças Armadas “destinam-se […] à garantia dos poderes constitucionais”, o general Mourão, candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, disse na GloboNews, em 8 de setembro, que os militares têm debatido como seria possível eles intervirem ou respaldarem medidas para garantir a lei e a ordem. Essa posição enseja avaliar o risco de um autogolpe em caso de vitória do candidato do PSL.

No dia seguinte, o comandante do Exército, general Villas Boas, previu um possível questionamento da legitimidade das eleições por setores derrotados. Apesar do caráter político do pronunciamento, ultrapassando a delimitação constitucional de suas funções, o presidente Temer, cuja crise de autoridade e legitimidade é gigantesca, não contestou o comportamento do general.

Mais recentemente, Mourão também sugeriu uma Constituição elaborada por notáveis, sem povo. No dia 15 de setembro, o general da reserva Luiz Eduardo da Rocha Paiva afirmou, em programa na GloboNews, que o problema não seria nem o Lula e nem o Haddad, mas os que estariam abaixo deles: José Dirceu, o falecido Marco Aurélio Garcia e o Pomar (o Vladimir ou o Valter?), todos engajados ou interessados em organizar uma suposta revolução gramsciana, silenciosa.

Essas declarações são muito preocupantes. Quem acha que falar em metralhar “petralhas” em público é brincadeira de um candidato brincalhão, ou está mal informado e precisa entender o que se passa no país ou efetivamente compartilha a subcultura política que desvaloriza a democracia. Entre a alusão à metralhadora e o discurso irracional do hospital há um nexo claríssimo de coerência.

No contexto da crise brasileira e do sistema democrático-representativo, atores institucionais de órgãos do aparelho repressivo do Estado, primeiramente a Justiça, o MPF e a Polícia Federal, em seguida alguns expressivos militares da ativa e da reserva passaram a se colocar como engajados na promoção e na garantia de uma nova ordem, mediante comportamentos políticos de conteúdo bonapartista e autoritário. Na perspectiva de Bolsonaro, uma quinta vitória consecutiva do PT nas eleições presidenciais seria inaceitável.

A não aceitação do resultado eleitoral por Aécio Neves, em 2014, foi um dos três pontos recentes da autocrítica de Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB, sendo os outros dois a posição desse partido contra o ajuste fiscal de Joaquim Levy, em 2015, e o ingresso na coalizão de sustentação do governo Temer no Congresso Nacional. Pelo andar da carruagem, uma eventual vitória do PT nas eleições em curso poderá ser objeto de ataque de uma emergente fonte política de questionamento do resultado das urnas.

Enfim, prevalecendo o provável cenário de segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, um ponto-chave será a (in)capacidade de se constituir um pacto pluripartidário pela democracia, pelo respeito às urnas, envolvendo, entre outros atores, o PSDB, o PDT, o MDB, o PT, ciristas, marinistas, alckministas, petistas, uma frente que abranja, mas expanda, o conteúdo da frente das mulheres contra o candidato extremista, pois envolveria, além das questões de gênero, a governabilidade do próximo período e, ainda mais, a própria defesa do regime político em estado de maus-tratos.

Crédito da foto da página inicial: Ricardo Stuckert

 

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3 respostas to “Por um pacto pluripartidário em defesa da democracia”

  1. tadeu vanderlei guilherme disse:

    Marcus, prazer em falar contigo novamente, minha visão politica é totalmente oposta a sua , sou contra a economia desenvolvimentista(Keynes) e prefiro a escola de Chicago(friedman), quanto a ameaça a democracia acredito que o pt o faz com maior enfase que o próprio Exército ao dizer que o pt deverá tomar o poder independente das eleições. Nossa esquerda infelizmente não evoluiu, permanece com as teses de Marx, Engels e Gramnsci. Pelo pensamento escolástico não temos na prática respaldo para apoiar quaisquer formas de governo socialista/comunista, lembrando que as economias na Europa que vem conseguindo bons resultados são a alemanha e Inglaterra, Suécia, Dinamarca,países que adotam práticas econômicas liberais em que pese algumas terem vários pontos assistencialistas . Você é um grande pensador e estudioso, poderá e deveria ajudar a mudar a mentalidade desta esquerda amorfa e ultrapassada pois numa democracia sadia é necessário o contraditório, uma esquerda moderna e uma direita moderna com um centro moderador, abraços e espero que ajude o Brasil

  2. Babillages disse:

    Sub urbano, minha política com gente do naipe do Maduro é cordite. Tua visão de uma operação militar na região e do potencial das FA Venezuelanas é totalmente equivocada. Te informe sobre o terreno. Melhor, assista a entrevista do Mourão no Globonews que ele te conta. Tem um trecho que fala exatamente disso Eu trabalhei em um parque éolico em Casanova, na Bahia. Realmente está havendo um incremento grande, mas este tipo de energia sofre sazonalidade. Uma nuclear no nordeste seria uma reserva e é mais barata que uma hidráulica. Quando a hidráulica no norte, o custo financeiro e ambiental é muito grande, e lembrem, hidroelétricas tem vida util. Nos EUA mais de 500 ja foram desmanchadas. Aqui no RS uma no Ri Passo Fundo ja está assoreada a ponto de encalhar botes no meio do lago. Bota uma nuclear e manda o comunista procurar os dele

  3. […] Enfim, prevalecendo o provável cenário de segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, um ponto-chave será a (in)capacidade de se constituir um pacto pluripartidário pela democracia, pelo respeito às urnas, envolvendo, entre outros atores, o PSDB, o PDT, o MDB, o PT, ciristas, marinistas, alckministas, petistas, uma frente que abranja, mas expanda, o conteúdo da frente das mulheres contra o candidato extremista, pois envolveria, além das questões de gênero, a governabilidade do próximo período e, ainda mais, a própria defesa do regime político em estado de maus-tratos. (Do Brasil Debate) […]

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