As opções colocadas são as seguintes: ir para as ruas ou assistir à direita comandar um longo processo de retrocesso democrático e social.
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Brasil Debate

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Pedro Rossi

É professor do Instituto de Economia da Unicamp, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e coordenador do Conselho Editorial do Brasil Debate.

 
Pedro Rossi

Por que vou para a rua nesse dia 18?

Está em curso um golpe no Brasil. Os golpistas decidiram que esse governo tem que cair, por bem ou por mal. Esse provável golpe sofrerá resistência, o que deve provocar uma escalada de autoritarismo e de perseguições e, se confirmado, terá efeitos profundos e duradouros na democracia brasileira

18/03/2016

1) GOVERNO: Sou crítico desse governo por diversos motivos, em especial pela austeridade econômica que aprofundou a crise e está pesando no bolso da maioria. De certa forma, esse governo renunciou ao próprio projeto vencedor nas urnas de 2014 para fazer concessão atrás de concessão para os derrotados. Nem por isso deixo de me manifestar em apoio à legalidade e à democracia.

2) JUDICIÁRIO: o combate ao crime não se faz cometendo crimes. O exercício da função de juiz pressupõe equilíbrio e imparcialidade. Moro não atende a esses critérios, o que ele faz é perseguição política e linchamento público. Apoiar isso, contra quem quer que seja, é apoiar um estado de exceção que pode coagir, condenar sem julgamento, desrespeitar direitos básicos e prender qualquer cidadão. Isso, que de certa forma já acontece todo dia no Brasil nas favelas e periferias das grandes cidades, deve ser repudiado com veemência. Não podemos deixar crescer essa onda de abusos do judiciário, caso contrário qualquer juiz de 1ª instância poderá perseguir e prender você e eu, a despeito da lei.

3) MÍDIA: A mídia está em uma campanha obscena na qual a manipulação não se resume somente à desinformação mas também trabalha com informações falsas, que estampam manchetes de jornal e vão ao ar no Jornal Nacional. Se há como apontar um principal entrave ao avanço da democracia no Brasil, esse se chama mídia.

4) GOLPE: Está em curso um golpe no Brasil. Os golpistas decidiram que esse governo tem que cair, por bem ou por mal, fora da ordem democrática, falta decidir quem vai assumir. Esse provável golpe sofrerá resistência, o que deve provocar uma escalada de autoritarismo e de perseguições políticas da parte dos golpistas. Se confirmado, o golpe terá efeitos profundos e duradouros na democracia brasileira.

5) PROJETO DE PAÍS: Por detrás do discurso anticorrupção, da irracionalidade e do ódio que caracterizam o debate politico, há outro projeto de país. O que está em jogo é a desconstrução do Estado Social previsto pela Constituição de 1988. Na constituição cidadã está contemplado um projeto de nação que preserva instrumentos para o Estado atuar na economia (vinculação de fundos, estatais etc.) e apresenta como grande novidade o Estado Social, que garante direitos ao cidadão e atribui deveres ao Estado.

Pois o programa pós-golpe é a retirada desses direitos sociais e dessas atribuições do Estado. Trata-se da substituição da solidariedade pelo individualismo como princípio norteador da sociedade brasileira. É isso que o povo brasileiro quer? Acho que não, e para ter certeza é preciso fazer um amplo e longo debate democrático. De uma forma ou de outra, essa agenda não pode ser empurrada a toque de caixa, de cima para baixo.

6) ESQUERDA NAS RUAS: Vamos deixar claro; a direita nunca fez avançar a democracia, isso sempre foi papel da esquerda. A democracia nunca foi resultado espontâneo da evolução econômica, nem é subproduto do individualismo ou do mercado. Historicamente, a democracia é uma construção que ocorreu nas ruas, desde a derrubada dos poderes do rei na revolução francesa, que deu origem aos adjetivos de direita (pessoa que defendia a continuidade dos poderes reais) e esquerda (aquele que era pela revogação)…. passando pelos movimentos sufragistas que garantiram o voto universal, mas foram violentamente reprimidos pela direita… até as lutas que deram novo sentido à democracia com a incorporação da noção de cidadania e de direitos sociais, o que consolidou a chamada “Democracia Social”, hoje atacada ferozmente no Brasil e no mundo.

7) MORAL DA HISTÓRIA: temos que escolher entre ir para as ruas ou assistir a direita comandar um longo processo de retrocesso democrático e social.

Pela legalidade democrática e pelo Estado Social!

 

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6 respostas to “Por que vou para a rua nesse dia 18?”

  1. Eduardo disse:

    Tchau, esquerda.

  2. Mônica Samia disse:

    Professor
    Não seria importante um movimento de esquerda independente do apoio a este governo? Não se trata de defender impeachment, mas associar a defesa da democracia a estas lideranças de esquerda que se associaram a uma direita reacionária como Temer, Renan, Maluf…. francamente, seria o melhir caminho???

  3. Caio disse:

    É dificil ir pra uma manifestação onde a direção do movimento fica gritando ole ola dilma, dilma e lula lá… as coisas ficam mais complicadas ainda quando o governo sanciona a lei anti-terrorismo na semana da manifestação. Quando Lula faz um discurso fundamentalmente conciliador, que dá a entender que o que se o pt pretende fazer é tentar trazer o pmdb de volta pro governo, a desesperança chega. Lutar para viver mais do mesmo?? O PT não aprendeu nada com a aliança com o PMDB? Será que o que nos resta é lutar por essa democracia hipocrita que temos hoje? Por um governo que vai reatar com o pmdb e retomar o projeto de reformas trabalhista e da previdencia? Ou se cria um movimento de resistencia ao ajuste e as reformas neoliberais independente do governo, de lula e de sua estratégia conciliadora, ou logo a esquerda perceberá que não está lutando por si e os protestos se esvaziarão. Nisso que querem fazer crer ser um fla flu, me parece que a solução é torcer pro vasco.

  4. Ernesto disse:

    E quem são esses golpistaS?

  5. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Realmente, realismo fantástico.Surrealismo. Estamos todos agora condenados a sobreviver num clima destes.Estava tudo indo razoavelmente bem até 2013 – o Brasil dando um show para o público interno e internacionalmente: pleno emprego, alinhamentos internacionais soberanos, valorização do Salário Mínimo, mercado interno… De repente, não mais que de repente, a turma do Passe Livre (naturalmente depois que Moro já havia cursado Harvard e se abeberado da cultura mani pulitti de seus antepassados calabreses e sicilianos)veio com aquelas reivindicações todas, todos devidamente cooptados pela safada Reação que espertamente os “endossou” (era o gancho de que precisava) mas mais do que depressa os reorientou para o seu plano golpista. Os empresários deixaram de investir e toda aquela sequência grotesca de factóides e pautas-bomba (Lava Jato, pedaladas, Atibaia, triplex, pedalinhos, agora Grampos Telefônicos…)Meu Deus! Como é que fomos deixar chegar a este ponto? Num único ponto aquela fétida,asquerosa, repelente e nauseabunda UDN (agora revivida) tinha razão: o preço da Liberdade é REALMENTE a Eterna Vigilância!

  6. Marília Paixão Linhares disse:

    O texto sensato do Pedro nos ajuda a enfrentar o momento, nos instrumentaliza para enfrentar a situação absurda que estamos passando. A direita golpista e reacionária saiu do armário sem cerimônia, criando a atmosfera de um conto de realismo fantástico. Estaremos torcendo para a direita não golpista caia em si e mude para o lado em defesa da democracia.
    Parabéns ao trabalho realizado pelos coordenadores do Brasil Debate!

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