Brasil Debate

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Marco Aurélio Cabral Pinto

É professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU. É colunista do Brasil Debate

 
Marco Aurélio Cabral Pinto

Por que devemos perseguir o objetivo do crescimento?

Todo o esforço e sacrifício da população brasileira com as políticas de ajuste serão em vão, com a interrupção de um processo de aceleração da acumulação iniciado a partir de 2003 e que teve como base a redução da pobreza

Economistas com formação superficial em história costumam defender publicamente que o objetivo de controle da inflação é o único legítimo. Defende-se a ênfase na estabilização de preços com argumento de que esta afeta mais os mais pobres. Alega-se que os instrumentos de combate são “transversais”, distribuindo para a sociedade como um todo o sofrimento de forma parecida – via elevação nas taxas de juros.

Naturalmente, o componente de combate à inflação referente à redução de gastos fiscais se dá mediante prejuízo de segmentos específicos da sociedade. Como no caso das megacorporações automotivas, com restabelecimento do IPI nominal, ou no caso dos trabalhadores, com diminuição de seguro-desemprego.

A história, contudo, mostra que elevação nas taxas de juros enriquece mais aqueles que vivem de rendas financeiras (bancos), em prejuízo dos mais pobres, em geral endividados. Assim como os mais pobres possuem menos poder para se defenderem diante de cortes em benefícios orçamentários, o que resulta em maior prejuízo diante de “contingenciamentos”.

O objetivo, aqui, é apresentar razões para priorização do objetivo do desenvolvimento (crescimento + distribuição de riqueza). Acredita-se como relevante a discussão sobre a natureza última do projeto brasileiro, o que ajudará no discernimento quanto a hipóteses equivocadas de assistencialismo ou populismo.

Conforme se procurará mostrar, a acumulação de poder e riqueza (crescimento), principalmente por meio da expansão de firmas (empregos…) inovadoras (…qualificados), explica como os diferentes povos ascenderam historicamente na hierarquia do sistema internacional. A industrialização como estratégia, como meio e não como fim em si mesma.

Crescimento como resultante do processo de concorrência inter capitalista

Desde o pós-guerra, os atuais blocos capitalistas centrais (Europa, EUA, Japão e China) passaram a concorrer entre si em múltiplas frentes industriais e tecnológicas. Desde então, a China destacou-se na ocupação de diferentes territórios econômicos, principalmente América Latina e África. Naturalmente, a expensas de receitas auferidas por firmas ocidentais, principalmente europeias.

Desde 2001, com a aprovação da entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio), houve aproximação sino-americana, com substituição progressiva de fornecedores industriais europeus por chineses. Este deslocamento da indústria europeia contribuiu para diminuição no crescimento econômico que vinha sendo experimentado no continente desde a incorporação do leste europeu pela economia alemã no início dos anos 1990.

Com o estopim da crise financeira em 2008, o esforço fiscal exigido no continente europeu colocou economias nacionais em situação pré-falimentar (Grécia, Espanha, Itália). Em contraparte, acelerou-se a ocupação chinesa na periferia pacificada do império norte-americano.

Nos últimos 45 anos, a concorrência entre grandes potências ocidentais tem sido limitada pela capacidade dos EUA em acumular poder e riqueza. No período, enquanto os EUA parecem afirmar-se sobre o concorrente japonês, as finanças inglesas provaram-se superiores à indústria pesada alemã (Figura 1).

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Quanto à rivalidade com a Rússia, o que se pode constatar é o desastre causado nos adversários asiáticos pela adoção da agenda neoliberal durante os anos 1990.

Privatizações e abertura comercial levaram os principais aliados Rússia-Ucrânia a perderem espaço no processo de acumulação de poder e riqueza. A recuperação ocorreu apenas após a retomada do Estado russo por interesses nacionalistas (Figura 2).

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Nos últimos 45 anos, o Brasil foi o país que mais cresceu frente aos concorrentes americanos. A acumulação de poder e riqueza pelos interesses estabelecidos no território econômico do país superaram em cerca de 40% aquela gerada no território dos EUA (Figura 3).

Note-se que o México não possui qualquer iniciativa de contestação da superioridade norte-americana, enquanto Brasil e Argentina mantiveram comportamento relativamente cooperativo durante o período em que houve tentativa de afirmação de projeto independente (2003-2014).

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No entanto, quando comparado ao processo de acumulação de poder e riqueza experimentado pela China nos últimos 45 anos, todas as demais experiências parecem fracassar. Na Figura 4 mostra-se a desproporção do crescimento chinês em relação a qualquer outra experiência histórica recente. A China acumulou cerca de 60 vezes o seu tamanho econômico no período.

A medida do sucesso chinês é, até certo ponto, compensado pelas dificuldades experimentadas pela Europa e Japão, de maneira que a rivalidade com os EUA tem-se mantido amortecida porém latente, manifestando-se como guerra de informações (espionagem).

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A estratégia de industrialização brasileira

O aumento na rivalidade entre os EUA e o Brasil resulta da acelerada ascensão do país na hierarquia internacional. Não se trata de ideologia, mas do resultado do aproveitamento de oportunidades que foram criadas no país. O crescimento econômico resultou em acumulação de poder por parte de segmentos importantes das elites locais.

Se é bem verdade que o latifúndio brasileiro se modernizou tecnologicamente nos últimos 45 anos, também ascendeu uma elite comprometida com aumento da atividade industrial no território brasileiro.

A partir de 2003 tornou-se possível aos políticos brasileiros implementar um projeto de aceleração da acumulação tomando-se como base a redução da pobreza. A miséria como oportunidade.

A estratégia foi a de injetar demanda efetiva (criar renda) na base da sociedade (financiamento a construção civil e Bolsa Família). Com isso, os mais pobres começariam a adquirir gêneros industrializados até então fora do alcance no consumo.

O aumento no dispêndio agregado de consumo elevaria a receita das empresas industriais, colaborando-se para alavancar novos projetos voltados para as classes mais baixas. Com isso, a indústria nacional aproveitaria a expansão do mercado interno como motor para novos investimentos.

Enquanto houver pobres a serem resgatados pela via do emprego, haverá mercado potencial para escoamento da produção industrial no país. O benefício se daria para todos, na medida em que aumentaria a taxa de acumulação não apenas para a base, mas também para o topo da hierarquia social do país.

Como se sabe, contudo, o projeto brasileiro foi abortado em golpe civil desfechado em novembro de 2014. Com a reversão nas políticas de gasto e crédito públicos, com o ataque sobre a Petrobrás e sobre as companhias de construção civil pesadas de capital nacional, esgotou-se o modelo, sem que houvesse sinais de fracasso nas políticas adotadas.

Conforme se poderá assistir no futuro próximo, todo o esforço e sacrifício da população brasileira com as políticas de “ajuste” serão em vão. A inflação não será “controlada” com elevações de taxas de juros e cortes de gastos.

Com isso, o único objetivo a ser alcançado será o adiamento do projeto brasileiro. Adiamento porque a crise internacional iniciada em 2008 encontra-se longe de se encontrar superada e, na medida em que o sistema internacional se esgarce, o Brasil voltará a reunir condições de seguir seu destino como pátria independente, soberana e justa.

Crédito da foto da página inicial: EBC

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2 respostas to “Por que devemos perseguir o objetivo do crescimento?”

  1. Marco Aurélio Cabral Pinto Prof. Marco Aurelio disse:

    Vou começar pela segunda. Não. Os chineses tem o projeto deles, nós o nosso. Não ha amor que nos una. Mas podem ser uteis como elemento de “arbitragem politica e Econômica” com os EUA.

    O ajuste fiscal impõe corte de gastos. Cada grupo de pressão com interesses no erário (beneficiários) tentará manter privilégios. O pacto político depende de se negociar o quanto cada um vai ceder. No caso dos trabalhadores, aproveitou-se para “empurrar” uma agenda de flexibilização, típica de macroeconomistas neoliberais.

  2. Rodrigo Umbelino disse:

    Professor Marco Aurelio
    Em primeiro lugar , excelente analise, no entanto lhe questiono: o ajuste fiscal proposto pelo governo Dilma, de modo claro , afetará a todos. A grande midia tenda a todo momento ligar o ajuste fiscal a perda de direitos, você concorda com essa opinião? Outra questão o projeto brasileiro está ligado ao projeto Chinês?

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