Para o autor, vários fatores e decisões levaram ao fortalecimento da estatal na década passada, o que justifica seu papel importante em políticas que visam à melhoria socioeconômica do País.
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Brasil Debate

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Tadeu Porto

Engenheiro eletricista e mestre em Engenharia Elétrica pelo Cefet-MG, é petroleiro e diretor do departamento de formação do sindipetroNF. É colunista do Brasil Debate

 
Tadeu Porto

Petrobras: uma empresa pública forte a serviço da economia brasileira

O compromisso da maior empresa do País deve ser muito mais que a sua capacidade de obter lucro. É de se esperar, de uma companhia com tal robustez, sacrifícios em prol da população a que serve, afinal o povo é o maior acionista da empresa

23/09/2014

É comum, nas conversas informais sobre economia, que ocorrem desde o happy hourde sexta até em entrevistas de políticos, se dizer que no sistema econômico o cobertor é muito curto. Ou seja, para implementar algumas políticas, necessariamente se deve abrir mão de outras.

Em uma linguagem mais acadêmica, segundo o economista Gregory Mankiw, pode-se explicar esse fenômeno pelo fato de enfrentarmos trade-offs(escolhas) o tempo todo.Com conceitos macroeconômicos não é diferente: mudanças na inflação, desemprego, crescimento do PIB, taxa de câmbio e afins podem se correlacionar de maneira competitiva, em que o ganho de um pode significar a perda de outro.

No Brasil atual, é frequente a afirmação de que o governo tem segurado a alta da inflação com o preço dos combustíveis, prejudicando assim a maior empresa do País: a Petrobras.

Existem, pelo menos, dois motivos básicos para isso: primeiro porque é verdade (e podemos notar isso pela queda no lucro líquido da empresa nos últimos anos) e segundo porque, em anos de eleição, a Petrobras vira alvo sistemático de críticas pouco construtivas, muitas vezes superficiais, que pertencem apenas a um jogo político.

Obviamente, o debate sobre as consequências de o governo congelar ou não os preços dos combustíveis, em detrimento de lançar mão de outras medidas mais [im]populares e conhecidas (aumentar taxa de juros, desvalorizar o salário, câmbio efetivamente livre) é tão complexo que caberia, no mínimo, uma dissertação sobre o assunto.

A despeito dessa discussão, um fato óbvio salta aos olhos: o governo só pode utilizar esse artifício por ser a Petrobras hoje uma empresa sólida e robusta, a ponto de lucrar, investir e ainda ajudar o País ao mesmo tempo.

Ou seja, com o fortalecimento da petrolífera nos últimos anos, o governo conseguiu aumentar o “cobertor econômico” ao qual nos referíamos no início, que mais parecia uma toalha de rosto nos anos 1990.

Destaco aqui alguns fatores que na década passada fizeram a Petrobras atingir um nível tão importante para a estratégia socioeconômica do País:

(1) A política de fortalecimento da empresa como “estatal”, diferente da década de 1990, quando a companhia passou por um período de baixíssima contratação de funcionários, fracos investimentos e uma privatização era quase realidade;

(2) A descoberta de reservatórios gigantes abaixo da camada pré-sal, que deu à empresa ótimas perspectivas de produção. Vale lembrar que as expectativas do mercado foram tão positivas que a Petrobras realizou uma capitalização recorde na história do mercado financeiro;

(3) Uma política nada tímida de investimentos (e.g. construção de plataformas e refinarias) para, num futuro próximo, poder dobrar a sua produção – segundo própria estimativa da ANP– e aumentar sua capacidade de refino, para depender menos das importações de combustíveis;

(4) O auxílio do BNDES (cuja importância já foi muito bem colocada no Brasil Debate) nos tempos em que os bancos internacionais diminuíram muito seus investimentos por conta da crise subprime;

(5) Aumentos de 30% em sua produção e quase 200% em seu lucro líquido, que ajudam a garantir os investimentos e alguma satisfação dos acionistas (a Petrobras está recuperando seu valor de mercado e se tornou, recentemente, a maior empresa de capital aberto do América Latina).

Apesar de todas as controvérsias que podem (e devem, para um rico debate) ser apontadas sobre o papel mais ativo do Estado no Brasil, em termos de resultados para a população, as medidas utilizadas pelo governo federal atual quanto à Petrobras e em geral foram exitosas.

Observa-se, por exemplo, que a diminuição do desemprego para níveis considerados por alguns especialistas como pleno emprego não ocasionou uma alta significativa da inflação.

Diferentemente do observado no final do século passado, em que o sistema de metas de inflação aplicado (porém apenas parcialmente obedecido) foi combinado ao aumento do desemprego. Esse é apenas mais um indício de que, com uma economia mais desenvolvida, pode-se aumentar o “cobertor” e encontrar um equilíbrio entre os indicadores econômicos e sociais que sejam benéficos para a população.

É preciso que os brasileiros avaliem bem as críticas que o governo recebe em sua gestão da Petrobras.

Considerando todos os interesses do País, é fácil constatar que a União – acionista majoritária da companhia e que deve zelar pelo Brasil como um todo – não deva pensar única e exclusivamente no lucro da empresa sem considerar os efeitos colaterais envolvidos. Da mesma forma, seria no mínimo ilógico abrir mão do poder que a Petrobras tem como uma empresa estratégica para a sociedade.

O Brasil, apesar de ser a sétima economia mundial e dos recentes avanços, ainda possui uma alta desigualdade social, má distribuição de renda e carece de serviços de qualidade essenciais como saúde, educação e infraestrutura, mas a Petrobras pode ser um instrumento para a modificação desse quadro.

Exemplos bem-sucedidos como o da Statoil, petrolífera norueguesa e uma das grandes responsáveis pelo fundo do petróleo (que fez, esse ano, a Noruega ter todos os “habitantes milionários”), não podem ser menosprezados em nome de uma política que busque exclusivamente o lucro.

Crédito da foto da página inicial: EBC

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6 respostas to “Petrobras: uma empresa pública forte a serviço da economia brasileira”

  1. Luis disse:

    Tadeu,

    Os pontos que você levanta são importantes, e devem ser discutidos, mas eu me surpreendo de você silenciar sobre o principal problema da Petrobras: Uma parte não desprezível do dinheiro da companhia foi desviada para pagar campanhas de aliados e comprar apoio político.
    Talvez você inclua isto no rol das “críticas pouco construtivas, muitas vezes superficiais, que pertencem apenas a um jogo político”.
    Frente à esta questão, o resto parece apenas detalhes.

    Att,

    Luis

    • Tadeu Porto Tadeu Porto disse:

      Fala Luis!!

      Cara, o artigo é uma opinião específica sobre um certo trade off q existe entre o país lucrar com a petrobras mas descontrolar a inflação. Eu me surpreendo de vc se surpreender (rs) com o meu silêncio, pq ele não existe sobre esse assunto… Tenho a minha opinião construída sobre o câncer que é o financiamento privado de campanha e nosso sindicato inclusive foi uma das instituições que ajudou no plebescito popular para uma constituinte exclusiva que é um caminho que eu acredito ser uma boa opção para a reforma política que tanto precisamos. Dentro dessa reforma, certamente as questões que mitigam a corrupção serão debatidas e nossa ideia é q elas sejam implementadas!

      Agora, em véspera de campanha eleitoral a Petrobras aparecer como o “símbolo da corrupção mor do país” isso pra mim é certamente parte de um jogo político. Falar de desvio de dinheiro pra financiar campanha, num debate limpo, teria que passar pela razão do Gilmar Mendes ter pedido vista do processo da OAB, o porquê que o jatinho do Campos não tem dono, o fato da Cowan ter doado dinheiro pra campanhas em MG e conseguido a proeza de construir um viaduto com 1/9 do aço q deveria ter (que caiu e infelizmente matou duas pessoas)… E esse tipo de discussão atingiria todas as principais campanhas, não só federais, como estaduais e não só do executivo como tb do legislativo.
      Não pense que focar as críticas numa só empresa vai curar um sistema extremamente complexo e viciado…
      Eu repito: só acredito na mudança com a reforma, e só acredito na reforma com mobilização popular e minha parte eu faço dentro das minhas capacidades! 🙂

      Abraços Luis!!!

  2. Geovani disse:

    Tadeu,
    Discordo de alguns pontos e vou me concentrar nos enumerados por você mantendo a numeração:
    1. O que seria este fortalecimento da Petrobras como estatal? Que diferencial isto traria? A VALE se tornou forte sem ser estatal.
    2. Os reservatórios encontrados dependem de altos investimentos, o Brasil não seria capaz de realizar este investimento e dependia de investidores privados, dai a capitalização. Estes investidores teriam participado se existisse a expectativa de tamanha intervenção no preço dos combustíveis no controle da inflação?
    3. Política nada tímida sim, mas com o uso da Petrobras para controle da inflação, a capitalização se tornou insuficiente, pois os lucros são menores e aumenta a dependência de financiamento privado, isto leva ao aumento da dívida, redução de rating, aumento do custo de capital. A capitalização na bolsa possui um custo de capital menor, mas com a política do governo, quem arriscaria?
    4. Vou omitir opinião sobre o BNDES pois quero focar em Petrobras.
    5. Isoladamente, o aumento do lucro e da produção da Petrobras colocados como estão, parecem bons, mas precisa de um benchmark, por exemplo, seus pares, lembre-se dos números como o da dívida.

    Você alega que a intervenção do governo na Petrobras possibilitou a queda do desemprego sem inflação, mas ao meu ver, ocorreu apenas um represamento da inflação, hoje estamos diante de uma Petrobras fragilizada e um Brasil a beira de uma recessão com inflação.

    Acho apenas que se o governo queria fazer uso social da Petrobras, então não deveria recorrer a capitalização.

    Abraço
    Geovani

    • Tadeu Porto Tadeu Porto disse:

      Geovani,

      Obrigado também por comentar e contribuir com o debate! Gostei das suas colocações, achei bem pertinente!!
      Vou responder enumerado tb, pra facilitar nossa conversa. 🙂

      1) O fortalecimento é justamente como estatal, que reflete uma maneira mais aguda de servir ao Estado. Pra mim não cabe comparações com Vale, ou Bradesco, ou Ambev… São empresas fortes também e tem seus méritos… Eu quis dizer em termos de auxiliar nas políticas do governo e esse é justamente o diferencial… Como eu disse no texto, com o controle sobre os preços do combustível o governo tem uma ferramenta a mais dentro dos trade offs dos conceitos macroecônomicos… Isso, de certa forma, pode ajudar na estratégia de trazer melhores resultados socioeconômicos!

      2) Não sei como funcionou a mente dos investidores na época.Tenho certa idéia, mas é complicado dar um veredito sobre. O que eu penso é que a maior capitalização da história (foi na época, não sei se é hoje) não ocorre atoa… Tem “n” fatores que fizeram os acionistas acreditarem, inclusive a robustez da companhia e a grande expectativa pela exploração do pré-sal que possui uma grande reserva! em 2010 já tinhamos 8 anos de governo do PT, então não acredito que os investidores entraram “vendidos”… Por mais que a gnt pense em toda a história por trás, a capitalização é um fato e auxiliou a empresa!

      3) Aqui eu falo um pouco do que respondi para o Eduardo. A estratégia do governo tem uma lógica, que imagina ser melhor sacrificar parte do lucro da Petrobras em prol de segurar a inflação. Isso tem as más consequencias para a companhia, mas, ao meu ver, são positivas para o país. Afinal, o preço vai ser um ajuste da oferta e da procura, e a inflação pode ficar tão grande que atrapalhe a procura e o lucro da empresa continue baixo. Eu respeito as suas razões de acreditar que outras medidas poderiam ser mais efetivas, mas o Brasil com uma economia mais frágil, atingiria o mercado consumidor e, consequentemente, a propria Petrobras. Ou seja, o resultado para a empresa poderia ser igualmente ruim ou pior, só que nesse caso o país estaria num quadro piorado. A questão aqui seria discutir a estratégia… Como eu disse no texto, isso renderia um assunto de dissertação! De qualquer maneira, a Petro hoje é a maior empresa da américa latina e a tendência eu sei que é melhorar com entrada das refinarias e dos replicantes… As obras já sairam do papel, as perspectivas são postivas! Por isso citei os investimentos…

      4) Se quiser pode comentar no texto que “linkei” sobre o BNDES! Sei q sua contribuição tb será positiva lá! Aqui no Brasil Debate, tem dois textos sobre isso!!

      5) Os números são bons. A dívida aumentou pq o período é de investimento agudo… Aí entraria tb o caso de gerar emprego no Brasil e etc… q eu tb acho bem positivo! Sair de 2 pra 7 estaleiros não é fácil… Construir 8 navios pro Pré-sal aqui gera custo, construir refinarias… Não tem como fazer essas obras importantes e ousadas de infraestrutura sem gastar!

      Eu pesquisei bem sobre o assunto específico do trade off entre inflação e desemprego e concluí, pelos artigos que li, que é muito difícil notar a existência da curva de Phillips aqui… Existem estudos que falam que sim, outros que não… O fato que coloquei para ilustrar foi que logo após a implantação do sistema de metas em 1999 o alcance dos objetivos da inflação no Brasil teve um preço. Sabemos que o BC jogou a taxa de juros lá no alto, desvalorizou bem o câmbio e nos últimos anos do FHC tanto desemprego estava em alta qto nem a banda da inflação foi cumprida. Isso me faz pensar que o BC em si tem certa dificuldade de gerir todas variáveis socioeconomicas… Por isso, eu acho positivo trazer um fato novo (uma empresa estatal forte) para aumentar o “cobertor econômico”! Mas repito, o assunto é complexo e vale todo o tipo de reflexão! Por isso sua contribuição é importante!
      Sobre a Petro fragilizada, acho um pouco exagero… Maior empresa da américa latina, batendo record de produção, contratando ainda mais funcionário… Minha visão pra ela é bem positiva!

      Por fim, não acho que a capitalização exclui o uso social, até mesmo pq a empresa é de capital misto! E qdo elogio a Petrobras de 2014, isso inclui o fato de ela ser uma companhia parcialmente privada!

      Valeu demais Geovani, fique a vontade para poder responder o qto quiser!!!

      Abraços!!!

  3. Eduardo Albanez disse:

    Olá Tadeu Porto,

    Me chamo Eduardo e meu teclado está programado pra escrever françês, entao nao tenho todos os acentos, peço desculpas antecipadas.

    Eu achei muito interessante seu ponto de vista mas discordo depois do título quando diz “O compromisso da maior empresa do País deve ser muito mais que a sua capacidade de obter lucro”.

    Enquanto contador sei que o objetivo de uma empresa é ter lucro, assim ela é medida pelos seus investidores e credores.

    Eu concordo que ela deva ser, enquanto empresa de controle estatal, utilizada para financiar projetos de acordo com seu principal investidor (o Estado), mas através do pagamento de dividendos e jamais em reduçao do lucro. A lógica é simples, devemos repartir o que sobra e nao cortar antes pra ver se sobra.

    Através do lucro da Petro o governo ganha duplamente, seja através do imposto sobre o lucro (que vai a Uniao) seja através dos dividendos, que vai pra Uniao na sua maior parte uma vez que é o seu principal acionista.

    O uso de empresas Estatais pra realizar projetos politicos dao impressao de posturas ditatoriais, onde a empresa deixa de ser uma “pessoa” autonoma (empresa é chamada pessoa juridica), ora, uma pessoa sem liberdade ou é escrava ou faz parte de um regime de coerçao de liberdade.

    Enfim, defendo o uso publico do dinheiro publico, mas nao de empresas publicas.

    Veja que desastre maior esta por vir através da mesma estratégia com energia elétrica, CESP e outras concessionárias estao entregando suas concessoes.

    Abraços

    Eduardo

    • Tadeu Porto Tadeu Porto disse:

      Eduardo,

      primeiramente obrigado por comentar e contribuir com a discussão, mesmo com seu teclado não ajudando (sei como é ruim escrever com um teclado estrangeiro!)…

      Eu também achei seu ponto de vista bem interessante, e fico feliz pois acredito que ele só tem a acrescentar ao debate, mesmo apresentando um viés diferente…

      Todavia, me permita discordar cordialmente de você e defender o meu texto e, consequentemente, minha posição.

      Entendo quando defende o uso do dinheiro público e não das empresas, mas com isso, na minha opinião, o governo perderia uma posição estratégica interessante que ele possui. Por exemplo, uma disparada na inflação pode fazer um estrago tão grande que pode prejudicar a própria União e, inclusive, a empresa num médio prazo. Se a economia se descontrola, os brasileiros (e as empresas do país) principais consumidores da Petrobras podem ser assolados a ponto de frear consideravelmente o consumo, o que dificultaria o lucro da companhia.

      Ademais, essa mistura de visão exclusiva de lucro e liberdade plena eu considero perigosa. Dentro de limites de sustentabilidade um empresa deve, de certa maneira, ter a “coerção da sua liberdade”. Por exemplo, a Petrobras tem que ter uma precaução gigante com saúde, meio ambiente e segurança e isso, muitas vezes, implica em tomar cuidados que vão contra a sua política de produção e, consequentemente, seus lucros. Um poço pode ser feito “as pressas” e acabar como o da Chevron que poluiu o nosso mar… Uma plataforma pode não atender os requisitos de segurança (por corte de gastos, por exemplo) e acabar no fundo do oceano como a P36. Nesse sentido, não acredito em posturas ditatoriais (e muito menos escrava) quando um empresa não exerce sua liberdade total, pra mim é apenas estratégico. Obviamente, o Estado pode pesar a mão demais em suas atribuições e prejudicar a empresa… A solução pra mim, é o diálogo entre as duas partes e a melhor decisão lógica deve ser tomada.

      Por fim, agradeço de novo pela mensagem Eduardo! Somos visões diferentes, eu como trabalhador da empresa, você como contador! Acho que esse tipo de diálogo é muito bacana!
      Eu vou me abster de comentar muito a parte de energia elétrica por não estar tão inteirado no assunto… Na minha visão a priori não vejo um desastre, acho q no longo prazo (que foi a mudança de contrato) os consumidores vão ganhar com a baixa dos preços!!

      Abraços cara!!

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