Em toda sua trajetória, Paul Singer buscou unir teoria e prática, de forma que esta prática desembocasse numa ação política, transformadora. Os que o conheceram e à sua obra têm por ele um sentimento comum: a gratidão.
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Brasil Debate

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Eliane Rosandiski

É professora-extensionista da PUC-Campinas; economista, doutora em economia social pela Unicamp

 
Eliane Rosandiski

Paul Israel Singer, muito obrigada!

Crítico ao neoliberalismo, o professor mostrava que a marcha para o socialismo consistia em aprofundar a democracia nas relações de produção. Só assim se poderia promover a justa distribuição da riqueza no processo produtivo

19/04/2018

Ao longo do dia de terça-feira, 17 de abril, vários textos nas mais diversas formas de mídia prestaram lindas homenagens ao professor Paul Singer. Li muitos deles e percebi que havia um sentimento comum que os ligava: a gratidão. Me questionei a razão deste sentimento, pois  também o tenho. Penso que a resposta pode ser encontrada no engajamento presente na sua história de vida.

Como amplamente divulgado, Paul Singer nasceu na Áustria em 1932. Chegou ao Brasil em 1940, fugindo no nazismo. Aos 20 anos, trabalhando como eletrotécnico, filiado ao Sindicato dos Metalúrgicos, ajudou a organizar a greve dos 300 mil. Sua atividade político-partidária se iniciou em 1980 com a fundação  do Partido dos Trabalhadores. Foi secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo na gestão da Luiza Erundina. Integrou ao lado de outros intelectuais a equipe do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Finalmente, Em 2003 assumiu a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) no Ministério do Trabalho e lá permaneceu até 2015. Era economista com pós-graduação em sociologia e lecionou na USP. Escreveu dezenas de artigos e livros. Descrever sua trajetória, dessa forma impessoal, não dá a dimensão da importância do Paul Singer no campo da transformação social.

Não tive a sorte de participar de nenhuma das atividades profissionais ao lado do professor, meu encontro com ele ocorreu de outra forma. Sou economista e ministrava um curso de Economia do Trabalho. Insatisfeita com os diagnósticos sombrios acerca da exclusão social, decidi ampliar meu repertório na busca por soluções. Nesta busca me deparei com um texto, cujo título já era uma resposta às minhas inquietações: “É possível levar o desenvolvimento para as comunidades pobres”. Este pequeno texto, escrito em 2004, trazia uma série de elementos de política pública para promover o desenvolvimento local, mas, diferentemente dos demais, trazia proposta de preservar a identidade dessas comunidades.

Fiquei muito intrigada e comecei a buscar mais publicações desse autor um tanto desconhecido para mim até aquele momento. Como todos os que adentram no universo de Paul Singer, me deparei com o livro “Introdução à Economia Solidária”, escrito em 2002, no qual os princípios de propriedade coletiva dos meios de produção, a autogestão e solidariedade eram defendidos como uma nova forma de organização da produção. Este livro, coerente com sua visão de mundo crítica ao neoliberalismo, mostrava que a marcha para o socialismo consistia em ampliar a democracia nas relações de produção. Para Singer, aprofundar a democracia seria a única opção capaz de promover a justa distribuição da riqueza gerada no processo produtivo.

Tal como para muitos que leem este livro pela primeira vez, tais princípios me pareceram um pouco utópicos. Felizmente, as evidências práticas mostram o equívoco dessa primeira impressão e que, de fato, uma outra economia é possível. As informações coletadas pelo SIES/Senaes mostram que no Brasil existem aproximadamente 20 mil empreendimentos organizados segundo os princípios da Economia Solidária, que atuam em diversas áreas, em especial agricultura familiar, abrigando mais de 1 milhão de trabalhadores.

A mobilização política dos atores sociais também vem sendo exitosa; ao longo desse período de atuação da Senaes foram realizadas três Conferências Nacionais de Economia Solidária (Conaes) que desembocaram na elaboração de um Projeto de Lei para Política Nacional de Economia Solidária, aprovado pela Câmara dos Deputados em 2017.

Internacionalmente, o tema da Economia Solidária também vem ganhando destaque. Em 2010 Paul Singer participou do Fórum Social Mundial e as Conferências da Organização Internacional do Trabalho (OIT) começaram a tratar a Economia Social como solução para a exclusão.

Importante destacar que toda sua trajetória de ação sempre buscou juntar a teoria com a prática e esta prática, na visão do próprio Singer, deveria sempre que possível desembocar numa ação política, transformadora. Com isto, Singer nos mostra que o caminho mais efetivo de praticar o socialismo não é por meio do autoritarismo, mas sim por meio da democracia praticada no interior do sistema capitalista.

Sim, o professor Singer era um otimista. Tenho certeza de que seu legado está vivo em todas as sementes que ele jogou e que germinaram, regadas pela admiração e respeito aos seus ideais e à sua atuação. Hoje, um grupo de intelectuais, pesquisadores, técnicos, pequenos produtores urbanos e rurais, levam adiante seus ensinamentos simplesmente porque perceberam que a Economia Solidária é uma realidade que comprova que uma outra forma de economia é possível.

“Figura doce”, esta é a característica pessoal que o professor nos deixa, sempre atento, sempre capaz de ouvir as pessoas ao seu redor, independentemente da classe social ou nível intelectual. Tive algumas chances de dialogar com ele e sempre, com os olhinhos azuis atentos, escutava e era capaz de dizer que tinha aprendido muito com minha dúvida. Coisas que só os grandes mestres são capazes de fazer. Muito obrigada, professor!

Crédito da foto da página inicial: Divulgação/ Prefeitura de São Paulo

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