A ênfase em componentes do sistema reforça polarização que nem sempre existe. As diferenças ideológicas são reais, mas esse posicionamento é reducionista da pluralidade de entendimentos e expectativas políticas.
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Brasil Debate

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Paulo Savaget

É doutorando em Engenharia pela Universidade de Cambridge, mestre em Política Científica e Tecnológica pelo SPRU (Universidade de Sussex), mestre em Políticas Públicas pela UFRJ e economista pela UFMG. Atuou como professor e consultor em temas relacionados a sustentabilidade e inovação

 
Paulo Savaget

Para além de coxinhas e petralhas

Uma das características de mudanças sistêmicas é a incerteza. Já é um avanço saber que não sabemos. No entanto, algumas questões já se tornam mais claras ao longo desse processo. Com mudanças apenas nos componentes, problemas sistêmicos não serão solucionados

26/09/2016

No Facebook, na mesa do bar, na televisão, no encontro de família… Estamos constantemente ouvindo interpretações, muitas vezes agressivas, sobre os culpados pela instabilidade política. Mas não, a culpa não é da Dilma, nem do Lula. Também não é do Aécio, do Temer, ou do Cunha.  Nem do PMDB, do PT, do PSDB, ou da Globo. Nós superestimamos muito indivíduos e organizações. Nós queremos mudanças, sim. E isso não é apenas no Brasil: os sistemas políticos em vários lugares do mundo estão passando por momentos de instabilidade. Mas as respostas que temos visto não são necessariamente apropriadas para lidar com questões sistêmicas.

Nem sempre 2+2 é igual a 4

As partes de um sistema não estão isoladas: elas são conectadas de modo a assegurar determinada coerência de funcionamento. Por isso, um sistema é muito, mas muito mais do que a soma de suas partes.

Isso faz com que interferências óbvias e pontuais nem sempre tenham o efeito esperado. Você pode ser a favor do impeachment da Dilma, porque esteja cansado de tanta corrupção. A saída lógica, então, seria tirar aquela que se acredita ser corrupta, ou corruptora. Mas, mesmo que ela seja de fato corruptora, a saída dela do governo, da forma como foi realizada, pode acabar piorando ainda mais a situação.

Você acha, por exemplo, que a saída do Collor melhorou a corrupção do nosso sistema político? Mudam-se os elementos governantes, e outros componentes do sistema, mas as regras do jogo se reforçam. Se tornam mais sofisticadas. Os agentes do sistema são instigados a fortalecer os conluios para se protegerem e manter a governabilidade no legislativo. As operações se tornam mais intensas e são mais bem executadas, deixando menos rastros, sendo menos divulgadas ou investigadas.

Esse raciocínio não se aplica só ao Brasil e nem apenas sobre casos de corrupção. No Brexit, muitos dos eleitores culparam imigrantes por problemas que são sistêmicos. Muitos acreditavam, por exemplo, que estes comprometiam a qualidade do sistema público de saúde. A resposta: sair da União Europeia, para acabar com o fluxo de imigrantes, e reinvestir o dinheiro antes destinado às agências supranacionais europeias na melhoria dos serviços públicos. Contudo, o resultado pode ser o oposto do esperado. Com o Brexit, a economia se enfraquece, podendo diminuir a arrecadação pública e os investimentos em saúde. Também ganharam força os movimentos mais conservadores e nacionalistas que, historicamente, são a favor da privatização de bens e serviços públicos.

Tendo a acreditar que eventos recentes apenas deram suspiros para sistemas convalescentes: foram ineficientes (ou, no mínimo insuficientes) para combater os problemas que usaram como justificativa.

Às vezes as palavras mais escondem do que revelam

Você é coxinha ou petralha? A ênfase em componentes do sistema reforça uma polarização que nem sempre existe. Não estou dizendo que não haja diferenças ideológicas: existem e muitas. Pelo contrário, esse posicionamento é reducionista da pluralidade de entendimentos e expectativas políticas. Essas expressões nos levam a entender dinâmicas sociais e políticas como se fossem parte daquilo que a escritora Chimamanda Adichie descreve como “história única”.

Durante a sua infância, em Lagos, na Nigéria, ela lia majoritariamente livros britânicos e, portanto, não conseguia conceber literatura sem protagonistas brancos, que comiam maçãs e que conversavam sobre o tempo. Essas histórias não são erradas, mas são, no mínimo, imprecisas para representar a pluralidade de histórias que não foram contadas.

Histórias únicas também podem nos separar naquilo que nos une. Um paneleiro, vestindo camisa da CBF e a favor do impeachment, pode ter muito em comum com o amigo que fala que Dilmãe sofreu um golpe. Ambos podem estar frustrados com o sistema político, indignados com a corrupção, cansados de escândalos, envergonhados com o buraco na Petrobras e temerosos com a economia.

Ambos podem querer mudanças e ambos podem ter pressa. Mas, de um lado, a culpa é da Dilma, do Lula ou do PT. Do outro, é do PMDB, do PSDB, do Temer, do Cunha, do Aécio ou da Globo. Ao colocarem a culpa de problemas que concordam em componentes distintos, acabam fortalecendo histórias únicas. Passam a se ver como inimigos, como se tivessem prioridades e ideologias opostas, quando, na verdade, possuem muito em comum.

Da mesma forma, duas pessoas no mesmo lado do aparente espectro político podem ter muitas diferenças. Por exemplo, coxinha pode se referir a quem quer o Aécio, ou a ditadura militar, ou o Temer, ou novas eleições. Essa polarização não é apenas negativa do ponto de vista prático, prejudicando a mobilização para realizar as mudanças que queremos, mas também nos falta certo rigor analítico. Estamos camuflando toda a pluralidade de entendimentos e aspirações políticas em dois espectros que, na verdade, não existem além do campo do discurso.

E agora?

Não sei e duvido de quem sabe. Uma das características de mudanças sistêmicas é a incerteza. Já é um avanço saber que não sabemos. Em muitas circunstâncias sequer sabemos que não sabemos. No entanto, algumas questões já se tornam mais claras ao longo desse processo. Enquanto não propormos mudanças sistêmicas, problemas sistêmicos não serão solucionados. Com mudanças apenas nos componentes, o sistema pode até sofrer pequenas fraturas, que podem eventualmente evoluir e se tornar uma grande ruptura. Além de incerto, nesse caso nós não teremos grande agência sobre a configuração do novo sistema.

Se queremos ter voz ativa no processo de configuração de um novo sistema político, nós precisamos participar do planejamento da sua reforma. Uma que visaria a mudanças não só nos seus componentes, mas também nas suas interconexões e funções. Que vai focar em mudar nas regras do jogo, e não apenas na substituição de jogadores.

E, para isso, precisamos nos mobilizar, não apenas pelas nossas semelhanças, mas também pelas nossas diferenças. A pluralidade será importante para a construção de um sistema político que consiga reconhecer e incorporar a diversidade de interesses frustrados e expectativas ignoradas. Para isso, vamos precisar dos coxinhas e dos petralhas. Mas também vamos precisar de novas palavras: umas que revelem mais do que escondam, que aproximem mais do que distanciem.

Crédito da foto da página inicial: Nelson Antoine (AP)/El País

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3 respostas to “Para além de coxinhas e petralhas”

  1. José Eduardo de Camargo disse:

    Excelente análise! Mas sinto informar que para mim o Brasil acabou, morreu e ainda não sabe. Só falta o enterro que esse governo golpista já está providenciando, aliás! Not rest in peace brazil…

  2. Isa Cardoso disse:

    Excelente, Paulo! Parabéns pelo texto e clareza de ideias!!!

  3. Marcos PB disse:

    Li o excelente texto e lembrei de um “pequeno detalhe” que reforça os riscos de assumir a história única.
    Os procuradores da Lava Jato e vários outros procuradores formularam as “10 medidas contra a corrupção”, encaminharam de um jeito errado: 1) elas não são de iniciativa popular, mas obra da elite de uma corporação pública; 2) foi feita uma campanha maciça de mobilização para apoiar as medidas, não para debatê-las (pois os “iluminados” já tinham atingido o ponto máximo de excelência.
    Com a falta de debate, muita gente assinou sem ler uma proposta de redução das garantias e direitos básicos – a limitação de habeas-corpus é o caso mais gritante (lembrando: o habeas-corpus é o remédio jurídico a ser usado quando há ameaça evidente de autoridades a direitos básicos).
    Outro erro crasso e gritante veio à tona quando deputados federais, tentaram colocar em votação uma das “10 medidas” (que na verdade são mais de 20): a criminalização do Caixa 2. É quase unânime a análise de que criar um novo tipo de crime (Caixa 2) anistia quem o cometeu antes. E o Caixa 2 já é criminalizado na em uma Lei Eleitoral, com pena parecida com a que os procuradores propuseram para o “novo” crime. A mídia oligopólica noticiou o risco de anistia, mas não está mostrando que a proposta veio da Lava Jato e de outros procuradores, porque: a) reforçaria argumentos de quem diz que a “santa cruzada”, da forma como está sendo conduzida, leva a erros e resulta em arbitrariedades; b) evidenciaria dois erros crassos dos procuradores, mostrando os riscos do excesso de convicção sem o cuidado da análise: criar um “novo” crime, quando a legislação já o define e prevê penas parecidas; elaborar uma medida a favor e nao contra a corrupção, ao anistiar quem já cometeu o crime, em vez de aplicar a lei existente contra estes criminosos.

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