Brasil Debate

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Gustavo Noronha

É economista do Incra e colunista do Brasil Debate

 
Gustavo Noronha

Pão, circo e fascismo

O que se avizinha no próximo período é desolador para quem se identifica com a construção de 'um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres' como nos propôs Rosa de Luxemburgo

iam pridem, ex quo suffragia nulli uendimus, effudit curas; nam qui dabat olim imperium, fasces, legiones, omnia, nunc se continet atque duas tantum res anxius optat, panem et circenses. (já há muito tempo, desde quando não vendíamos nossos votos para ninguém, o povo abdicou de seus deveres, o povo que outrora detinha comando militar, altos cargos civis, legiões – tudo, enfim – hoje se restringe, e aguarda ansiosamente, a apenas duas coisas: pão e circo)

 Juvenal, Sátira X.77-81

Foi sacramentado o golpe de Estado. Um golpe escancarado como demonstraram os áudios de Romero Jucá divulgados na segunda, dia 23 de maio de 2016. Ainda que isto provoque algum tumulto, o voto de cinquenta e cinco senadores pela admissibilidade do processo de impedimento da primeira mulher a assumir a Presidência da República demonstra a irreversibilidade do processo. Alguns alardearam esperanças, que alguns senadores podem mudar de posição diante de uma expressiva mobilização popular e dos fatos novos desta semana.

A lei antiterrorismo se assegurará de pôr toda manifestação sob controle. Em breve, muitos de nós no campo da esquerda seremos todos terroristas. O que não for resolvido com bala, porrada e bomba, e algumas prisões, será resolvido com o bom e velho panem et circenses durante os Jogos Olímpicos. Teremos agora pão (será?), circo e lei antiterrorismo.

O ministério de notáveis anunciados pelo presidente golpista não inclui nenhuma mulher, pois estas na nova ordem brasileira devem ser belas, recatadas e do lar. Devem cumprir parte do papel de circo ao macho branco adulto que reassume o poder. Ao contrário da sátira de Juvenal, o povo não abdicou dos seus deveres, estes lhes foram usurpados.

Muitas análises demandavam uma autocrítica do que foi chegada do Partido dos Trabalhadores. A capacidade olhar para trás, analisar e assumir erros para que não se repitam, consiste numa tradição da esquerda, e é urgente e necessária. Foram cometidos erros tanto na condução da política quanto da economia, mas quem deve fazer este balanço é o partido. A autocrítica não pode ser tímida e oriunda apenas do corpo diretivo, como fez. Sem um amplo balanço a partir de suas bases, o PT, quando muito, será um partido secundário no campo da esquerda.

O que se avizinha no próximo período é desolador para quem se identifica com a construção de “um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” como nos propôs Rosa de Luxemburgo. A nomeação de Sérgio Etchegoyen para a Secretaria de Segurança Institucional, a qual estará subordinada a Agência Brasileira de Inteligência, reestrutura o serviço de inteligência no Brasil de forma militarizada e com espírito semelhante ao do antigo SNI da ditadura aberta que o país viveu.

O Ministro escolhido para a pasta da Justiça, Alexandre de Moraes, ocupava até ontem o cargo de Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo. O modo como a Polícia Militar de São Paulo atuou nas ocupações das escolas e em junho de 2013 demonstra o que está por vir.  Para coroar, José Serra nas Relações Exteriores demonstram os interesses que movem o golpe.

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O desmonte do Estado Brasileiro será operado de modo rápido e assustador, teremos uma blitzkrieg neoliberal. Não vai ter Prouni, não vai ter cotas, não vai ter Bolsa Família no mesmo patamar de hoje, não vai ter Farmácia Popular, não vai ter SUS, não vai ter política de aumento real do salário mínimo, não vai ter direitos trabalhistas, não vai ter muita coisa que foi conquistada no último período. E não se iludam os nobres militares nacionalistas que ingenuamente apoiaram o golpe, não vai ter submarino nuclear nem caça novo.

E a conjuntura política ainda ficará mais complicada porque os ataques das classes dominantes da mídia corporativa à esquerda serão mais ferozes que em qualquer tempo. A crise de hegemonia está temporariamente resolvida por uma recomposição das classes dominantes. Os instrumentos de poder que o PT não apenas se furtou de usar como entregou aos golpistas, de acordo com áudios do Jucá, serão usados em toda sua magnitude não apenas contra o PT, mas contra toda a esquerda.

E se a crise por qualquer acaso não for resolvida, se fatos novos continuarem a pipocar de forma a tornar insustentável o governo golpista, não se iludam, a extrema direita vem sendo cuidadosamente preservada. Os movimentos sociais serão criminalizados dia sim, dia também. A esquerda em frangalhos dificilmente será capaz de capitalizar eventual insatisfação popular.

Por outro lado, os Bolsonaros com seus discursos fascistoides já estão organizados no PSC, partido conservador cristão e representação política da Assembleia de Deus, a maior das igrejas evangélicas do Brasil. As pesquisas de opinião indicam Jair Bolsonaro com 8% das intenções de voto, sendo que o fascista lidera entre os mais ricos.

Lembrando as três perguntas que, de acordo com o historiador estadunidense Robert Paxton, se respondidas positivamente nos apontam um caminho irreversível para o fascismo, já caminhamos rapidamente para a primeira resposta positiva. Eles estão se tornando enraizados em partidos que representam grandes interesses e sentimentos e conseguem ampla influência na cena política?

O desastre altamente provável do governo Temer nos levará certamente às outras duas respostas assustadoramente positivas. O sistema econômico e constitucional está num estado de bloqueio aparentemente insolúvel pelas autoridades existentes? Uma rápida mobilização política está ameaçando sair do controle das elites tradicionais ao ponto que elas busquem ajuda para manter a ordem?

A recomposição das classes dominantes tem data marcada para se encerrar na primeira grave crise do governo golpista. A nova crise de hegemonia certamente abrirá espaços para um avanço de uma esquerda unificada, o que só ocorrerá mediante uma fria autocrítica. A alternativa será o fascismo, ainda mais aberto do que as sutilezas autoritárias esperadas de qualquer governo ilegítimo.

Crédito da foto da página inicial: Esquerda Diário

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5 respostas to “Pão, circo e fascismo”

  1. Antonio Elias Sobrinho disse:

    Com o fracasso da estratégia do PT para chegar e se manter no poder, usando os mesmos métodos da tradição, as esquerdas, ficaram numa situação de isolamento e, pior, encurraladas por todos os lados pela ação, o poder e o dinheiro das classes dominantes. Além disso, é bom considerar que não possuímos referência ao nível internacional que possamos nos referir. Existe ainda algo sério, que é nossa incapacidade de unir forças em torno de alguns pontos comuns. Nossa tradição é mais a pulverização em função das divergências. Assim, voltamos à estaca 0, onde temos que começar tudo.

  2. Ilvani moura disse:

    E quem escolheu Temer para vice ?
    Quem escolheu o tal presidencialismo de coalizão ?
    Coalizão com o que mesmo ?

  3. maria lucia disse:

    dois acrescimos: os bancos e o capital financeiro internacioal.mostraram quem.manda no Brasil; ainda nao ha forca politica organizada o suficiente para nenhuma renovacao, nem de direita nem de esquerda. Devo dizer felizmente ou infelizmente, respectivamente.

  4. Debora Macedo disse:

    Imagino a lei de Murphy aplicada a esse texto

Comentários