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Impostos

Paga-se muito imposto para pouco retorno?

Frequentemente ouve-se falar que no Brasil pagam-se muitos impostos e que não há retorno para a população. O padrão de comparação? Os países desenvolvidos. Há dois mitos e/ou meias verdades embutidas neste pensamento.

Em primeiro lugar, a relação carga tributária/PIB brasileira é semelhante à da OCDE, um grupo de países ricos. Portanto, na média, não pagamos mais impostos do que estes países aos quais geralmente somos comparados.

Em segundo lugar, há um problema lógico e aritmético, que será mostrado por um exemplo simples e estilizado. Sabemos que o PIB per capita do Brasil é algo em torno de US$12.000, medido de forma a equiparar as diferenças de preços internacionais (paridade do poder compra), e, nesse mesmo padrão, o dos Estados Unidos é de US$48.000.

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Se ambos investirem 5% do PIB em educação, tem-se um investimento por habitante no Brasil de US$600, enquanto nos Estados Unidos este investimento será de US$2400 por habitante. Isto é, alocando-se a mesma proporção do PIB em educação, os Estados Unidos podem investir quatro vezes mais neste setor do que o Brasil.

Este exemplo torna evidente que os problemas enfrentados no serviço público no Brasil têm menos a ver com uma ineficiência da alocação dos impostos e mais com a nossa condição de país de renda média-baixa. O lugar comum de que não há retorno dos impostos para os habitantes é uma falácia que enfraquece o real debate que se deve enfrentar: diante da limitação de recursos, quais serão as áreas prioritárias para nos tirar da condição de país ainda relativamente pobre?

Leia também: O brasileiro paga muitos impostos?

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11 respostas to “Paga-se muito imposto para pouco retorno?”

  1. Joao antonio disse:

    há um grande problema quando tratamos o percentual investido para sociedade. uma significativa parte daquilo que se arrecada está sendo destinado a pagamento de dívidas interna e externa, O que impede a aplicação de um percentual maior nas áreas fundamentais, como saúde educação e segurança.

  2. Roberto Gueler disse:

    01/06/2015 12h04 – Atualizado em 01/06/2015 12h54
    Pelo 5º ano, Brasil é último em ranking sobre retorno dos impostos
    Austrália, Coreia do Sul e EUA lideram ranking do IBPT.
    Pesquisa avaliou as 30 nações com as maiores cargas tributárias.
    http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/06/pelo-5-ano-brasil-e-ultimo-em-ranking-sobre-retorno-dos-impostos.html

  3. Elias da Silva Júnior disse:

    Há uma frase que se atribui ao professor Denfin Neto de que “se o sujeito está com o rabo no forno e a cabeça na geladeira, não se pode dizer que ele está com uma ótima temperatura média”.
    Média é somente indicativo grosso que nos dá idéia da realidade!
    Assim, comparações como a do texto nos trazem apenas luz frente a janela, nos fazendo ver um quadro, todavia a realidade tem contornos diversos.
    Se no Brasil tomamos três indivíduos com renda anual de $ 12.000,00, $ 50.000,00 e de $ 200.000,00, constataremos uma progressão na carga tributária efetiva, ou seja pagará mais tributo quanto maior a renda, todavia quanto maior a renda mais ele recorrerá a saúde, segurança, educação, entre outros, por iniciativa privada!
    Quanto mais imposto paga menos recebe em contrapartida do Estado. Isto faz sentido para você?

  4. VLA disse:

    Desculpe-me @ autor@, mas o raciocínio simplista apresentado não permite que se alcancem as conclusões pretendidas. Várias etapas foram puladas. Vou dar só 1 exemplo: o gasto público no Brasil, especialmente o federal, é EXTREMAMENTE regressivo. Ou seja, gasta-se mais com os ricos do que com os pobres. Três provas irrefutáveis: i) o absurdo gasto com juros da dívida (mais de R$ 200 bilhões por ano – equivale a 8 Bolsas-Família); ii) os empréstimos subsidiados do BNDES para grandes empresários (que poderiam muito bem tomá-los no mercado financeiro); iii) a aposentadoria do funcionalismo público, que gera déficits de quase R$ 100 bilhões por ano, sendo que o grosso do valor vai para uma pequena elite.

    Isso tudo contribui, sim, para que os serviços públicos sejam tão ruins, pois drena-se recursos deles para direcioná-los para uma ínfima elite. E, agindo assim, a ação do Estado acaba criando MAIS desigualdade do que havia antes.

  5. Vinicius Domingues disse:

    Discordo do seguinte trecho: “Este exemplo torna evidente que os problemas enfrentados no serviço público no Brasil têm menos a ver com uma ineficiência da alocação dos impostos e mais com a nossa condição de país de renda média-baixa”.

    Ineficiência não é medida pela quantidade de $$ investido em algo, mas exatamente pelo retorno que se tira desse investimento. Vamos voltar ao exemplo Brasil x Estados Unidos:

    Se o Brasil investe 100 e tem uma taxa de eficiencia de 50%, isso equivale a 50.

    Se os Estados Unidos investem 300 e tem uma taxa de eficiência de 15%, isso equivale a 45.

    Embora o primeiro invista menos da metaque que o segundo, a eficiência da alocação dos recursos compensa o montande investido. Ok?

    Então argumentar que o serviço é ruim porque investimos pouco é ser muito simplista.

    Os serviços no Brasil são ruins porque são muito mal planejados, dimensionados e executados – sem contar nos interesses que permeiam cada real que o governo destina.

    • Ítalo disse:

      Vinícius, seu argumento é verdadeiro para casos extremos, puramente teóricos. Precisaria que o mais desenvolvido fosse menos eficiente, o que geralmente não acontece pelos motivos que você menciona: os países menos desenvolvidos têm mais dificuldades para planejar e executar os serviços.
      Vamos olhar a questão de outra forma: vamos supor que os EUA (PIB per capita 4 vezes maior) têm uma taxa de eficiência do gasto em educação de 50%. Vamos também supor que a eficiência do gasto brasileiro atinja 100%.
      Assim, o investimento no Brasil equivale a US$600 e nos EUA a US$1200. Isso valeria até uma taxa de eficiência nos EUA de 25%, mantendo os 100% de eficiência hipotéticos do Brasil.
      A ideia é que, mesmo que resolvamos completamente eventuais ineficiências, isto é, que tenhamos os impostos perfeitamente investidos, ainda assim o Brasil teria serviços aquém dos EUA porque o Brasil é um país mais pobre. Portanto, afirmar que o retorno dos impostos é baixo nessa base comparativa é utilizar um argumento que não é verdadeiro.

  6. Pedro Rossi Pedro Rossi disse:

    Uma amostra do argumento falacioso: “Em dez anos a carga tributária do Brasil subiu cinco pontos percentuais do PIB. É um peso de impostos muito maior do que o de muitos países ricos que oferecem serviços melhores aos cidadãos.” MIRIAM LEITÃO

  7. Marcos disse:

    Os imposto estão um pouco acima da média da OCDE, mas isso não é necessariamente um problema.

    Ter uma das cargas tributarias mais regressivas do mundo sim. Do que adianta dar escola, hospital e bolsas pras classes de baixa renda e média se o imposto de onde vem esse dinheiro é pago pelas mesmas? O imposto indireto no Brasil é provavelmente o maior do mundo. E os impostos diretos com certeza estão entre os mais baixos entre os países de alta tributação

  8. SM disse:

    Excelente nota! Tomara que incentive o bom debate sobre a necessidade da reforma tributária e a necessidade de tornar o sistema brasileiro menos regressivo!

Comentários