62% dos municípios brasileiros não têm veículos jornalísticos locais e seus moradores não são informados sobre como lidar, na prática, com a pandemia.
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Wagner de Alcântara Aragão

É jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco

 
Wagner de Alcântara Aragão

Os desertos de notícia e os efeitos em tempos de coronavírus

Seis em cada dez municípios brasileiros, onde vivem 37 milhões de pessoas, não são servidos por veículos jornalísticos que prestem informações sobre as condições da localidade em que todo esse povo mora - o que alimenta dúvidas, indecisão ou providências equivocadas

18/03/2020

“Desertos” de notícia?! Soa estranho, justamente na era da informação em que estamos, quando somos bombardeados a todo instante por novas no front, falar em “desertos” desse tipo. Mas, por paradoxal que pareça, existem, são um problema sério, acentuado em momentos de crise como esta do novo coronavírus.

Os “desertos” de notícia são constituídos pelas localidades não servidas por nenhum veículo jornalístico de conteúdo local. E são muitas essas localidades, e são muitas as pessoas que não dispõem de um meio de comunicação que informe sobre sua comunidade.

Segundo dado mais recente (2019) do Atlas da Notícia – projeto do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), mantenedor do Observatório da Imprensa, em parceria com Volt Data Lab – 62% dos municípios brasileiros não contam com veículos jornalísticos locais. Nesses municípios vivem mais de 37 milhões de brasileiros, ou 18% de toda a população do país.



Os municípios sem veículos jornalísticos locais

É muita gente, e que, sem dúvida, está sabendo da pandemia de coronavírus. Já recebeu várias mensagens com imagens sobre o hospital construído em tempo recorde na China, dos italianos e portugueses saindo à janela para saudar médicos e enfermeiras; viu pela televisão e em vídeo no whatsapp a deprimente cena de o presidente da República do Brasil, suspeito de infectado, apertando mãos de aficionados que ignoraram recomendações e formaram aglomerações a facilitar a transmissão do vírus.

É muita gente que está a par de tudo isso, no entanto tem dificuldade para se informar sobre a quem e a onde recorrer, em sua cidade, caso apresente os sintomas do novo coronavírus. Fazer o teste, orienta-se no telejornal nacional… mas onde, aqui perto? Na UPA do bairro? No ambulatório da cidade? Será que os hospitais da região estão preparados para isolar as pessoas cujos testes acusaram positivo? Como tirar tantas dúvidas assim?

Que esquema especial vem sendo adotado pela Prefeitura? Restringiu o funcionamento de escolas, creches e outras atividades? Por quanto tempo; como se deve proceder nesse período? Pode-se embarcar e desembarcar na rodoviária da cidade, ou há algum tipo de controle? No “grupo da igreja” disseram não sei quê, mas será que isso se aplica aqui onde moramos?

Os meios de comunicação nacionais e globais são imprescindíveis para nos situarmos no país e no planeta. Todavia, são os veículos jornalísticos locais que nos informam da realidade específica da comunidade onde trabalhamos, estudamos, comemos, nos cuidamos, passeamos – vivemos, enfim. Os “desertos” de notícias deixam as pessoas pouco ou nada informadas sobre fatos e novidades ao redor que podem ser decisivos a seu dia a dia.

Comunicação não é mera mercadoria, ou luxo, algo supérfluo. É um serviço público. É cidadania. Fazem-se necessárias, portanto, medidas que garantam o acesso a informações em todos os cantos, sobre o que se passa nesses cantos.

Crédito da foto da página inicial: Agência Brasil

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