Para os autores, a falta de qualificação está na raiz dos problemas de inovação das empresas brasileiras. Ela ocorre porque as universidades estão mais interessadas em ampliar o estoque de conhecimento científico do que no desenvolvimento tecnológico, e também pela falta de investimento das empresas.
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Brasil Debate

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Tulio Chiarini

É analista em C&T lotado na Divisão de Estratégia do Instituto Nacional de Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Economista pela UFMG, mestre em economia pela UFRGS, mestre em administração da inovação pela Scuola Superiore Sant’Anna, doutor em teoria econômica pela Unicamp.

Márcia Siqueira Rapini

É professora da Faculdade de Ciências Econômicas (FACE/UFMG) e pesquisadora do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR/UFMG). Economista pela UFMG, mestre e doutora em economia industrial pelo IE/UFRJ

Pablo Felipe Bittencourt

É professor e pesquisador do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC. Economista pela UFSC, mestre em economia pela UFSC e doutor em economia pela UFF

 
Tulio Chiarini, Márcia Siqueira Rapini e Pablo Felipe Bittencourt

Obstáculos para inovação: dois lados da mesma moeda

A moeda é a falta de qualificação, que se evidencia tanto na ausência de mão de obra qualificada capaz de sugerir aprimoramentos no processo produtivo e criar novos produtos, como na ausência de mão de obra que faça a ponte entre as empresas e demais instituições

As empresas aprendem. O processo de aprendizado é essencial para que elas possam realizar suas estratégias e evoluir em trajetórias definidas pela construção de aptidões que permitem aprimoramentos de seus processos produtivos e criação de novos produtos, ou seja, de inovar.

As universidades também aprendem. Em seu processo de apoiar o avanço do conhecimento científico, são influenciadas por soluções tecnológicas advindas do setor produtivo. Com isso, colocam no mercado jovens capacitados que portam consigo conhecimento científico de fronteira que podem ser colocados à disposição das firmas.

O aprendizado, que é cumulativo, é um importante processo para inovação e o conhecimento é um recurso vital nesse processo. Cada empresa possui diferente estoque de conhecimento adquirido com o tempo. Quanto maior a capacidade de aprender, maior a oportunidade de inovar.

Portanto, o sucesso inovativo depende de uma combinação de fatores específicos a cada empresa, incluindo, por exemplo, sua habilidade em recrutar mão de obra qualificada e em interagir com outras instituições que possam lhe disponibilizar novos conhecimentos.

Dois tipos de mão de obra parecem ser especialmente importantes para ampliar o reconhecimento de novas oportunidades tecnológicas: mão de obra qualificada capaz de sugerir aprimoramentos no processo produtivo e criar novos produtos; e mão de obra qualificada para fazer a ponte entre as empresas e demais instituições (sobretudo as universidades e institutos de pesquisa).

Analisando os resultados da Pesquisa de Inovação do IBGE (PINTEC), constata-se que os principais obstáculos para inovar tanto para ‘firmas inovadoras’ quanto para ‘firmas não-inovadoras’, no Brasil, desde 2000 (primeiro ano em que a PINTEC foi lançada) até 2011, foram os elevados custos envolvidos no processo inovativo e os riscos econômicos.

Entretanto, um obstáculo que vem crescendo desde a primeira edição da pesquisa é a falta de pessoal qualificado para criar e aprimorar processos e produtos.

Das ‘firmas inovadoras’, em 2000, 20% declararam que a falta de pessoal qualificado foi uma dificuldade enfrentada quando inovaram, e em 2011 esse percentual subiu para 49%. Levando em conta as ‘firmas não-inovadoras’, em 2000, 16% delas afirmaram não terem inovado devido a falta de pessoal qualificado; e em 2011, 38%.

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A nosso ver, há duas possíveis explicações para essa mudança. Uma primeira se refere ao possível fracasso das universidades em colocar no mercado de trabalho jovens com competências adequadas às firmas. A educação demasiado cientificista estaria formando doutores para a docência em detrimento de uma formação para o desenvolvimento tecnológico.

Outra explicação pode residir na fraqueza interna das firmas. Como já é sabido, as firmas brasileiras são marcadas por esforço tecnológico de restrita sofisticação, muitas vezes restritos à aquisição de máquinas e equipamentos. Mudar essa ‘trajetória de aprendizado’ para outra, mais intensiva em P&D, não é algo que se faça do dia para a noite, a partir de uma decisão de diretoria.

O processo torna necessário reorganizar suas estruturas produtivas, o que inclui melhorar as aptidões tecnológicas que já possuem (ou contratar novas) e reorganizá-las. A dificuldade em realizar essa mudança pode estar refletindo a falta ‘aparente’ de mão de obra qualificada. Em outras palavras, as firmas, acostumadas a estratégias tecnológicas restritas, de curto prazo, têm dificuldades de reconhecer o potencial da mão de obra que dará resultados apenas de longo prazo.

No que se refere à falta de mão obra qualificada para estabelecer as relações entre universidades e empresas, os dados apresentados pela ‘BR Survey’(1) mostram que, dos grupos de pesquisa entrevistados, 48% disseram ser essa uma dificuldade latente e que, possivelmente, pode dificultar processos inovativos.

Acreditamos que uma explicação possível para essa falta de interação entre as universidades e as empresas decorre da construção histórica das universidades brasileiras interessadas, sobretudo, na criação de uma sociedade mais esclarecida e mais educada com o objetivo de aumentar o estoque de conhecimento científico, ao invés de se preocuparem com o desenvolvimento tecnológico.

Os dois problemas apresentados (falta de mão de obra qualificada capaz de sugerir aprimoramentos no processo produtivo e criar novos produtos; e falta de mão de obra qualificada para fazer a ponte entre as empresas e demais instituições) refletem duas faces de uma mesma moeda, a moeda da falta de qualificação.

Essa reforça a falta de aptidão tecnológica das empresas industriais brasileiras, que acabam sendo incapazes de competir em mercados tecnologicamente mais dinâmicos. As aptidões tecnológicas são fundamentais para a ‘construção’ de vantagens competitivas e proveem de um processo ativo de aprendizado caracterizado pela sua lentidão, cumulatividade e especificidade.

Tal processo não é automático; carece de investimentos, envolve o domínio e a mudança de rotinas empresariais corriqueiras em processos mais intensivos em conhecimento.

Aquelas nações que conseguiram se desenvolver foram capazes de criar medidas para fomentar a educação e o treinamento de pessoal qualificado em vários setores estratégicos e dinâmicos e criaram uma infraestrutura de institutos de C&T com o intuito de servir à industria nacional.

Tais nações fizeram esforços extraordinários para erradicar o analfabetismo, ampliar a rede de ensino básico e médio e melhorar o ensino superior. Foram capazes de desenvolver rapidamente e de forma eficaz uma força de trabalho educada e treinada. Ademais, foram capazes de fomentar um ambiente econômico e político estável, permitindo que as empresas pudessem fazer investimentos de longo prazo.

Notas

(1)Maiores informações sobre a metodologia da pesquisa podem ser encontradas em FERNANDES, A. C.; CAMPELLO DE SOUZA, B.; STAMFORD DA SILVA, A.; SUZIGAN, W.; ALBUQUERQUE, E. M.. Academy-industry links in Brazil: evidence about channels and benefits for firms and researchers. Science & Public Policy, 37(7), August 2010

Os pensamentos e ideias expressos neste trabalho não refletem necessariamente aqueles do INT/MCTI. Os eventuais erros e omissões são de inteira responsabilidade dos autores.

Crédito da foto da página inicial: Adauto Nascimento/Banco de imagens HRAC-USP

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1 resposta to “Obstáculos para inovação: dois lados da mesma moeda”

  1. sandra Eugênia de Oliveira Moura disse:

    Bom dia,

    Vejo como uma visão realista e inovadora, objetivando o conhecimento.

Comentários