Para o autor, inflação não se combate apenas com aumento de taxa de juros, com política econômica contracionista. No Brasil, o mercado de alimentos é um dos que exercem impacto nos índices de preços e a resposta pode ser o estímulo à agricultura familiar.
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Brasil Debate

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Gustavo Noronha

É economista do Incra e colunista do Brasil Debate

 
Gustavo Noronha

O viés anti-inflacionário da política de reforma agrária

É preciso mudar o paradigma da produção agropecuária brasileira. Só é possível reduzir os preços dos alimentos com a democratização do acesso à terra. Inflação também se combate ampliando o número de agricultores familiares, realizando a reforma agrária

20/03/2015

As causas de um processo inflacionário têm várias naturezas: aquecimento da economia; choques de oferta; conflito distributivo entre capital e trabalho; ou resultado das projeções dos agentes. Normalmente, mais de um destes fatores estão associados nas altas de preços.

Todavia, o mais comum, entre os analistas de mercado, é associar como causa única da inflação brasileira recente o excesso de demanda e, neste caso, um único remédio, o aumento da taxa básica de juros, eventualmente combinado com um ajuste fiscal.

O aquecimento da economia como causa singular de um processo inflacionário só se justifica ante análises meramente conjunturais, limitadas em determinado espaço de tempo. E o eventual aumento de taxa de juros, ainda que combata a inflação no curto prazo, em nada resolve as demais causas estruturais de um processo inflacionário.

Pior, seus efeitos colaterais são extremamente nocivos, provocam desequilíbrios cambiais (e consequentemente complicações no balanço de pagamentos), aumentam o desemprego e geram um ciclo vicioso por tornar a economia dependente de juros altos.

Um economista recomendar que qualquer processo inflacionário (independentemente da causa) seja combatido apenas com aumento na taxa de juros seria como um médico amputar seu pé por conta de uma unha encravada.

De modo simplificado, os processos inflacionários decorrentes de excesso de demanda ou de choques de oferta traduzem desequilíbrios entre oferta e procura em diversos setores da economia. Ou seja, aquilo que é produzido na economia não é suficiente para atender as necessidades de consumo das pessoas e empresas, seja em um ou em vários mercados.

Eventualmente, dependendo do peso de determinado mercado na economia, um desequilíbrio apenas neste mercado pode provocar um aumento nos indicadores de inflação.

Todo crescimento econômico traduz-se em crescimento de renda, o que provoca aumento da demanda que, se não for acompanhado de um aumento da oferta, pode causar um processo inflacionário. Alguns economistas partem desta lógica e, com modelos matemáticos demasiado sofisticados para os não iniciados em economia ou estatística, constroem a noção de um crescimento potencial do PIB acima do qual haveria inflação.

Esta argumentação parte do pressuposto de que é possível encontrar todas as variáveis que explicam o crescimento do PIB e a inflação. Apenas com muita ingenuidade ou malícia para comprar esta ideia. O aumento da demanda jamais é uniforme nos diversos mercados, a elasticidade da renda e da procura varia radicalmente conforme o bem analisado, logo, uns mercados são mais impactados que outros.

Deste modo, não é possível assegurar um excesso de demanda generalizado de todos os bens da economia. Eventualmente, o aumento de preços em um único bem cujo peso na composição do índice de preços seja demasiado relevante pode provocar um impacto na inflação medida – desta forma, faria mais sentido atuar cirurgicamente no mercado deste bem. O mesmo pode ser aplicado a um pequeno conjunto de bens.

Uma análise fria indica que o processo inflacionário do último período decorre da projeção dos agentes (incluindo aí o aumento dos preços administrados), problemas de oferta em mercados específicos e do conflito entre capital e trabalho causado pela melhora na distribuição funcional da renda nos últimos anos. A questão dos componentes inercial e distributivo da inflação não está no escopo deste breve artigo.

Pretendemos abordar um aspecto dos choques de oferta. Não podemos falar de um choque homogêneo que afete todos os mercados, isto seria uma recessão e não um choque de oferta a provocar alguma inflação.

Alimentos e energia

Os impactos da oferta em processos inflacionários normalmente estão associados a fatores exógenos aos modelos econômicos usuais e que afetam mercados importantes: quebras de safras agrícolas, guerras, movimentação conjunta dos produtores de determinado bem. No momento, temos perturbações na oferta em dois mercados com impacto nos índices de preço: alimentos e energia.

O problema na oferta de energia está associado à seca que atinge boa parte do Brasil e compromete a geração de energia hidrelétrica. Desta forma, o País acaba sendo forçado a optar pelas usinas térmicas cujo custo de geração é superior.

Deste modo, convém observar o mercado de alimentos. A demanda por alimentos é relativamente inelástica, pode variar entre a natureza do bem, mas pouco provável que alguém deixe de comer para consumir qualquer outro bem, mais crível é o movimento contrário.

Um choque de oferta em um produto cuja demanda é bastante inelástica resultará em um aumento extraordinário de preço. Ademais, a variação nos preços dos alimentos também se explica pela sua vinculação aos mercados internacionais de commodities.

É preciso, portanto, construir uma alternativa que garanta um aumento da oferta de comida. O Censo Agropecuário do IBGE nos mostra que a agricultura familiar é responsável pela maior parte do alimento na mesa do brasileiro. Vários estudos econômicos demonstram que a grande propriedade é ineficiente em razão de custos crescentes de escala. Os custos de gerenciamento, logística e mão de obra, a imprevisibilidade meteorológica e a volatilidade dos preços internacionais são fatores que permitem se afirmar que a agricultura não é uma atividade capitalista em estrito senso.

Outrossim, também é preciso desvincular os preços dos alimentos dos mercados externo e interno. A grande propriedade produz principalmente para o mercado externo, não afeta de sobremaneira a curva de oferta interna de alimentos. O consumo interno destes itens também não afeta seu preço, mas sim as variações no mercado internacional.

Desta forma, é preciso mudar o paradigma da produção agropecuária brasileira. Deve-se entender que entre as funções clássicas da agricultura na economia, a mais primordial é prover a economia de uma oferta crescente de alimentos. Isto não ocorre numa economia cuja produção agrícola está voltada para o mercado externo. Só é possível reduzir os preços dos alimentos com a democratização do acesso à terra. Inflação também se combate ampliando o número de agricultores familiares, realizando a reforma agrária.

Combater inflação com política econômica contracionista é gerar recessão e desemprego e o nome disso é terrorismo.

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6 respostas to “O viés anti-inflacionário da política de reforma agrária”

  1. […] Por Gustavo Noronha, no Brasil Debate […]

  2. […] Por Gustavo Noronha, no Brasil Debate […]

  3. renato disse:

    Fiquei fâ…deste espaço..

  4. lucia Souto disse:

    reflexão que ajuda na construção de projeto de desenvolvimento do país com justiça social, mais democracia e enfrentamento das desigualdades,ainda gigantesca em nosso ´país. Gostei exto e do comentário

  5. Elvis de Almeida Silva disse:

    Prezado Gustavo,

    Em primeiro lugar, congratulo-o pelas agudas observações do seu artigo. Sendo eu economista do Ministério da Fazenda e tendo trabalhado nas áreas do MF que lidam com subsídios à produção agrícola, estou absolutamente de acordo com a colocação de que a agricultura é o melhor seguro contra inflação que existe.

    Em segundo lugar, desejo partilhar um episódio que vivi, quando trabalhava com agricultura, nos idos de 2008. Estava-se no princípio da grande crise internacional e os investidores institucionais do mundo todo encetaram um movimento de migração de ativos financeiros para ativos reais – commodities. Isso parece ter jogado os preços futuros desses ativos para a estratosfera, influenciando os preços correntes de então. O resultado, aqui no Brasil, foi um choque inflacionário localizado sobretudo nos preços de alimentos e matérias-primas. Por essa época, o Bacen começou a elevar a Selic de maneira persistente.

    Da minha mesa, eu praticamente esbravejava contra tal sandice!! Claramente, se tratava de um choque de oferta, que não se presta a tratamento por meio da profilaxia da elevação de juros. Por outro lado, nessa mesma época, a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) vinha abandonando, já fazia uns anos, a formação de estoques públicos em prol da concessão de subvenções aos agricultores. O problema com isso? Subvenções impedem que o agricultor sofra com quedas de preços, mas não garantem que os preços não subam excessivamente no futuro. Já a política de estoques age nas duas frentes: o governo adquire produtos agrícolas quando os preços estão baixos e os vende quando seus preços sobem demais.

    Em outras palavras: as subvenções constituem uma PGPM capenga, que só atua no sentido de evitar queda de preços aos agricultores; a formação de estoques públicos, a despeito de seu custo operacional mais elevado, beneficia o agricultor, de um lado, e a sociedade de forma mais geral, de outro, ao propiciar não só a permanência do agricultor em sua atividade, mas também a estabilidade dos preços agrícolas.

    Voltando a 2008, algo em que eu insistia era que deveríamos voltar a formar estoques, para impedir flutuações dessa espécie no comportamento dos preços. Não me surpreendeu em nada o Ministério da Agricultura, no Plano Safra do ano seguinte, ter consignado mais recursos para as Aquisições do Governo Federal (AGF), ação cuja despesa elevou-se bastante de 2008 para 2009.

    Para ir mais longe, eu mesmo propus tentarmos elaborar, no âmbito do Ministério, uma avaliação da eficácia da PGPM em conter a banda de variação dos preços agrícolas, sugestão que não chegou a ser levada adiante. Para ser franco, houve que estranhasse bastante a ideia, dizendo-me que deixasse os problemas de inflação para o Banco Central resolver… Indício forte desse problema que você levantou em seu artigo: existe já uma predisposição das pessoas (mesmo as que lidam com assuntos econômicos) a crerem que a única forma de debelar inflação é mediante juros altos. Eu sempre acreditei que a política fiscal, bem calibrada, em particular a política agrícola, podem contribuir bastante para evitar excessos de política monetária, que sustem o crescimento potencial da economia sem motivo para tanto.

    A agricultura familiar é um capítulo à parte: subsidiá-la é, na minha opinião, a forma mais barata de financiar a estabilidade de preços, uma vez que a concessão de subsídios a esse público tende a não absorver tantos recursos, pois, em que pese o número de unidades, elas não demandam individualmente aportes financeiros expressivos, como ocorre com a agricultura empresarial. Sempre questionei, aliás, a pertinência de se conceder subsídios a esse último setor, ao menos no que respeita àquelas unidades de maior porte.

    Sabe-se que, de forma geral, são setores cujo impacto na balança comercial é inegável; mas, e o resto? O alto grau de mecanização desses empreendimentos talvez não permita dizer que eles geram muitos empregos; quanto à questão dos preços e da inflação, muitas das culturas de porte empresarial acabam seguindo os preços internacionais das suas commodities, o que retira graus de liberdade do setor no sentido de influenciar os preços internos…

    Peço-lhe desculpas pelo longo comentário. Espero ter contribuído para o debate e que você e os colegas visitantes deste sítio considerem as questões levantadas pertinentes e à altura de boas discussões.

    Abraço a todos.

Comentários