Em um país desigual, com um passivo social de 388 anos de escravidão, com periferias imensas nas principais capitais, indaga-se se o caminho escolhido pela elite brasileira de destruir seus adversários é mesmo inteligente.
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Brasil Debate

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Róber Iturriet Avila

Doutor em economia e professor adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É colunista do Brasil Debate

 
Róber Iturriet Avila

O risco de disrupção na estratégia de aniquilar o PT

Além de tirar o PT do poder, os grupos mais conservadores querem banir o partido e tudo o que ele representa. Cabe a reflexão do que ocorrerá ao Brasil heterogêneo e desigual caso não haja um substituto à altura que, como a sigla, proponha apenas remédios e ajustes para maior justiça social e menor desequilíbrio econômico

10/08/2016

Desde 2013 o Brasil vive momentos de tensão política e social. Indubitavelmente, o resultado desse processo foi uma derrota política retumbante do governo Dilma Rousseff, do seu partido, o PT, e da esquerda brasileira de uma maneira geral. Essa alteração é complexa e envolve uma miríade de variáveis, as quais podem ser categorizadas com profundidade. Análise essa que escapa dos objetivos deste pequeno texto.

Entretanto, é possível observar que houve uma derrota no campo das ideias e no imaginário da “opinião pública”, simbolicamente direcionada ao PT. De forma mais abrangente, é possível dizer que a esquerda brasileira perdeu corações e mentes no período recente. A despeito de seus enormes erros na condução do partido e dos governos, a transformação que se deu no poder foi paulatinamente construída pelos conservadores.

As ideias antagônicas foram constantemente plantadas, de maneira nítida a quem consegue enxergar além das obviedades: seja na mídia tradicional, seja nos partidos políticos, seja no enfoque pontual de problemas estruturais. É do jogo. A disputa de ideias e de versões é constante em qualquer sociedade minimamente sadia e organizada.

As disputas entre os “progressistas” e “conservadores” não conformam uma especificidade do nosso tempo e tampouco do Brasil. O PT apenas encabeçou um grupo que possui alguma articulação desde o PTB, pelo menos. Podemos chamar esse segmento de “centro-esquerda”, com enraizamento em setores populares. Quer dizer, não são grupos políticos e sociais que buscam acabar com o capitalismo, mas compreendem que existem distorções históricas e mesmo do próprio sistema que requerem interferências de políticas públicas e, portanto, do Estado.

No campo econômico, particularmente, tais grupos partem da visão de que é preciso correções na distribuição porque o livre mercado tende a concentrar a renda e a riqueza. Seja porque uns capitais são maiores do que outros, seja porque há assimetria na relação capital-trabalho, seja porque os países estão em estágios distintos de acúmulo de capital e, por consequência, de inserção tecnológica.

No caso do PT, ao longo dos últimos governos, houve uma identificação de grupos populares com as políticas implementadas, como as de transferência direta de renda, elevação do salário mínimo em termos reais e políticas de acesso à educação superior. Sejam esses grupos mais ou menos conscientes disto, os 13 anos de governo “do PT” proporcionaram uma inclusão social nunca ocorrida no Brasil.

Ao redor do mundo, há segmentos mais à direita que também patrocinam tais políticas. Não por acaso, desde o século XIX, traços social-democratas nasciam na direita e no conservadorismo, o caso alemão é icônico. Remediar os pobres e ampliar direitos sociais, trabalhistas e civis era uma forma de garantir a estabilidade social em um sistema que reproduz cronicamente a desigualdade.

Sob outra perspectiva, pode-se dizer que dominar grupos sociais exige sacrifício. Aqueles que exercem o poder precisam de consentimento dos dominados. A dominação não ocorre mais através da força bruta, como era nas sociedades mais primitivas. Os dominados precisam se sentir beneficiados com o sistema para que haja estabilidade. Coloquialmente, essa ideia está na analogia de entregar alguns anéis e preservar os dedos.

Contudo, no caso brasileiro, os grupos políticos que emergem ao poder não parecem ter tais intenções. Os sinais autoritários são claros. Na proibição de protestos nos estádios, na tentativa de restringir o pensamento crítico que contesta a ordem social posta (sob o rótulo de “escola sem partido”) , na constante tentativa de criminalizar e desqualificar a esquerda, seus representantes políticos e intelectuais.

Além de tirar o PT do poder, os grupos mais conservadores querem aniquilar com o partido e com tudo o que ele representa. O Ministro do STF Gilmar Mendes chegou a ensaiar um pedido de cassação do partido, tal qual ocorreu com os “comunistas” após o golpe de 1964. Eles não querem adversários que contestem seu poder, sua ordem e o modus operandi na Terra Brasilis.

Suas intenções no campo da organização são igualmente claras: privatizações, perda de direitos sociais e trabalhistas, enxugamento das políticas públicas como saúde, educação e assistência social, redução de salários, congelamento de gastos e sepultamento da constituição de 1988.

A derrota do PT parece irreversível. É bastante provável que haja uma disputa nas esquerdas pelo seu espólio, ou mesmo internamente, caso o partido sobreviva. Cabe a reflexão, entretanto, do que ocorrerá caso o partido seja banido e não haja um substituto à altura. Ora, o partido nunca foi revolucionário e sempre esteve de acordo com a ordem posta, ele propõe apenas remédios e ajustes para que haja maior justiça social e menor desequilíbrio econômico. É um partido que representa a conciliação de interesses, a partir da voz dos trabalhadores e dos mais excluídos. Sem esse campo político, sob o nome de “PT” ou sob outro agrupamento, a possibilidade de conciliação é mais difícil.

O Brasil é um país bastante heterogêneo, desigual, com um passivo social de 388 anos de escravidão, com periferias imensas nas principais capitais. É preciso ter em mente que 50% da população recebe menos de R$ 1.300,00 mensais! Na derruba recente, os grupos populares não saíram em massa às ruas para defender o governo, possivelmente por insatisfações diversas, já sentindo os efeitos do austericídio de 2015.

A partir do momento em que esses grupos sentirem na pele o que representa o aniquilamento da esquerda e sem uma direita consciente de que é preciso atender aos dominados, os riscos de disrupção social não são pequenos. Indaga-se se o caminho escolhido pela elite brasileira de destruir seus adversários é mesmo inteligente. Aniquilar a voz e os direitos dos dominados pode ter efeitos deletérios sobre os interesses de quem executa essas articulações.

Crédito da foto da página inicial: Jorge Maruta/Jornal da USP (Favela de Paraisópolis)

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5 respostas to “O risco de disrupção na estratégia de aniquilar o PT”

  1. Carlos Tramontina disse:

    Excelente artigo.

  2. Silvio C.C disse:

    Ötima análise. De fato, propor a cassação do PT e a consagração literal da ruptura institucional, pois longe de ser um partido revolucionário, o PT é um partido social democrata, uma peça do sistema. Que tratamento terão partidos como PSDB,PMDB se a lógica foi a mesma no financiamento de suas campanhas? Se isto de fato acontecer, não haverá espaço para o discurso, o pensamento de centro, muito menos para a esquerda mais tradicional.
    Não há uma cultura democrática na tal elite brasileira, que guardadas as proporções não passa de uma escória secularmente elitizada. Tem um comportamento colonialista e escravocrata, fundado na corrupção e no patrimonialismo.

  3. Maria Dinair Acosta Gonçalves disse:

    A ditadura militar de 1964 fechou os grêmios estudantis onde os estudantes discutiam vários assuntos sociais e políticas, puniu os professores que defendiam a liberdade de pensamento e ideias diferentes entre as pessoas.
    Agora a mesma direita atuou no convencimento da população pela midia marrom do Brasil, que os culpados pelo roubo da petrobras é do PT. A repetição de tantas mentiras contra Lula , Dilma e PT, mesmo os beneficiados pela políticas sociais por eles implementadas eles gritaram fora PT. Eles esqueceram dos benefícios recebidos pensaram que eram ricos da direita que os domina.
    Para agravar os dominadores da direita GOLPISTA” que usurparam o poder do votos para continuar dominando os que não pensam querem implantar a ESCOLA SEM PARTIDO, ou seja impedir que a criança obtenha conhecimento, não discutam, não pensem,não falem, não contestem.Impõem novamente a MORDAÇA. Sem esquerda o povo retornará a senzala.SUSTENTAMOS OS QUE PENSAM VAMOS RESISTIR….E RESTABELECER O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO !!!

  4. Iris Alves Andrade disse:

    Normalmente os ditadores não estão preocupados com o povo na Rua é o efeito deletério de suas ações. São sádicos e covardes, tipo o que se vê no STF e no Senado. São literalmente inimigos do povo, egocentristas e egoístas adoram brilar e aparecer, no a parceria com a Globo é ótima. São incapazes de andar no meio do povo. Fazem igual Nero incendeiam os brinquedos para os outros não desfrutar. O incêndio moderno é a privatização do Estado e desestruturação dos direitos sociais. O prazer está em ser importante para um status, no caso os capitalistas internacionais, preservar excelente patrimônio e fazer do povo escravos, o que satisfaz o ego de mentes doentes. O ATÉ e o Senado é integrado ou dominado por indivíduos solicalmente doentes e com moral duvidosa, alguns têm menos moral que bandidos.

  5. José Flávio Avila disse:

    Excelente análise Róber!
    Concordo com o que expões no texto. As questões que vêm a seguir são: será que não é interessante que aconteça? Se sim, qual seriam as consequências a longo prazo de uma ruptura social num país com as estrutura política do Brasil?

Comentários