Brasil Debate

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Fabrício Augusto de Oliveira

Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e autor, entre outros, do livro “Dívida pública do Estado de Minas Gerais: a renegociação necessária”, de 2012

 
Fabrício Augusto de Oliveira

O que temer do governo Temer

Do anunciado ajuste nas contas públicas, o que se vê é o torniquete nas políticas sociais. Como se as despesas financeiras do governo (os encargos da dívida pública) não tivessem responsabilidade no desequilíbrio fiscal. E ainda acenam com a retomada do crescimento. Não podem ser levados a sério

O artigo faz parte do fórum #Governo sem voto, iniciativa em parceria com a Plataforma Política Social

Em menos de duas semanas, dois ministros “notáveis” do governo interino Temer foram apeados de seus cargos denunciados por conspirarem contra a Operação Lava Jato: Romero Jucá, ministro do planejamento, e Fabiano Silveira, ministro da Transparência e Fiscalização (artigo escrito antes do anúncio, ontem, 16, da saída do ministro Henrique Eduardo Alves). Se este ritmo for mantido, e essa possibilidade não pode ser descartada com a continuidade das investigações e delações premiadas, poderão ser poucos, dentro de pouco tempo, os “notáveis” do governo que ainda continuarão no cargo.

O governo Temer, frouxo até o momento, leniente nessas questões com seus companheiros e colegas de trabalho, praticamente atribuiu a Jucá a condição de gênio na política e na economia ao dele se despedir e agradecer por sua contribuição, mas sem especificar se era um gênio do “bem” ou do “mal”, e, no caso de Silveira, não percebeu, talvez ingênua ou, espertamente, nas gravações divulgadas, algo que o desabonasse e o comprometesse com aquelas conspirações. Este teve, no entanto, o bom senso de pedir demissão do cargo ante os protestos que surgiram de vários setores e em várias partes do país.

Temer é considerado uma raposa no meio político, de espírito conciliador e capaz de administrar adversidades. Mas, o fato, é que ele mesmo preparou essas arapucas para o seu governo. Num momento em que a sociedade anda sedenta por uma limpeza ética dos quadros políticos e governamentais, fechou os olhos para essa demanda da população e convidou para o governo figuras que se encontram na condição de réus ou de investigados na Operação Lava Jato e no Supremo Tribunal Federal (STF), sob o argumento de uma questionável “presunção de inocência” e da necessidade de formar um governo de “coalizão”.

Uma bobagem, que não poderia dar certo. Não bastasse tudo isso, ainda indicou, como líder de seu governo, um deputado de ficha sujíssima, caso de André Moura (PSC-SE) que, só no STF responde a três inquéritos, incluindo um por tentativa de homicídio. Não admira que o jornal alemão, Die Zeit, em artigo do jornalista Thomas Fischermann, tenha classificado o seu governo, no dia 25 de maio, como um “Governo ou um bando de gângsters”. Com este deslize, começou a colher mais cedo do que um esperava um sem número de torpedos, instabilizando politicamente seu governo, que pode durar menos tempo do que se previa.

No campo econômico, embevecido com os afagos recebidos das classes dominantes, entregou o comando da economia para a fina flor da ortodoxia, para quem a questão do ajuste se resume a lançar a conta sobre a classe média e os mais pobres, retirando-lhes benefícios indevidos e programas sociais dispendiosos para reequilibrar as contas públicas e trazer de volta os investimentos.

Como nas histórias da carochinha, acreditam – ou fingem acreditar – que o saneamento financeiro do setor público seja capaz, por si, de despertar o “espírito animal” dos investidores, como se o país não se defrontasse com nenhum outro problema estrutural, e que a recessão seja regeneradora de um tecido econômico carcomido por políticas econômicas incompetentes e irresponsáveis, como se não fosse, ela própria, fonte de maior desequilíbrio das contas públicas, ao derrubar dramaticamente as receitas.

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No vale tudo adotado para se atingir este objetivo, a política econômica tem se transformado num samba de uma nota só: cortes de verbas para programas sociais e investimentos públicos; aumento de impostos indiretos, legalização de jogos até há pouco vistos como nefastos para a sociedade, visando aumentar a arrecadação; reforma da previdência, e qualquer outra coisa a mais que retire direitos da população contempladas na Constituição de 1988 para “aliviar” as contas do governo.

De ajuste mesmo, só o torniquete nas políticas sociais. Tudo isso, como se as despesas financeiras do governo (os encargos da dívida pública) não tivessem nenhuma responsabilidade no desequilíbrio fiscal. E, apesar de tudo, ainda acenam com a retomada do crescimento em meio à política de terra arrasada que se está implementando. Não podem ser levados a sério. Tanto que a OCDE já elevou a retração do PIB brasileiro de 4% para 4,3% em 2016.

Pelo andar da carruagem, tanto no campo político como econômico há muito para se temer do governo Temer. No campo político, pelas indicações de “notáveis” que realizou não será nenhuma surpresa se o seu governo continuar sacudido periodicamente por novas denúncias, envolvendo seus quadros e minando as já poucas forças de apoio dadas a um governo sem legitimidade para realizar mudanças necessárias para reerguer o país.

Do ponto de vista econômico, os estragos que a política econômica deve provocar no tecido econômico e social podem levar à perda de apoio até mesmo de setores importantes do capital, assim como à maior oposição não somente dos servidores públicos, dos movimentos sociais, da população mais pobre e mesmo da classe média, fustigada pelo aumento do desemprego, que já ultrapassa os 11%, por uma nova rodada de aumento dos impostos e pela queda no nível de suas rendas e decepcionada com os rumos que o país tomou.

Os caminhos para uma nova eleição presidencial ainda este ano parecem, estar, assim, cada vez mais se abrindo.

Crédito da foto da página inicial: Marcelo Camargo/ABr

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3 respostas to “O que temer do governo Temer”

  1. dejalme andreoli disse:

    Até o Temer sair quanto estrago vai causar?

  2. Marco Danas disse:

    Concordo em partes, antes porém, precisamos fazer algumas ponderações. Todos os integrantes citados pelo Sr. Como o Ex – Ministro Henrique Eduardo Alves, o Ex- Ministro da Transparência Fabiano Silveira e os demais, já compunham o governo da Presidente afastada Dilma Rousseff, assim como todos os envolvidos no maior esquema de corrupção da história. Logo precisamos relativizar a conduta do Presidente Interino Michel Temer, pois quem entende os meandros da política como presumo que o senhor entenda, sobretudo um sistema de presidencialismo de coalizão, sabe que na maioria das vezes os políticos são obrigados a distribuir cargos a políticos de diversos partidos (e ao seu próprio), e até mesmo ignorar se esses políticos respondem a inquéritos, tudo isso em nome da tão almejada governabilidade. Do lado econômico, é consenso entre os economistas que a previdência social brasileira necessita de ajustes, porque os números apontam uma trajetória crescente do déficit, além do bônus demográfico brasileiro estar terminando, somemos a isso o aumento na expectativa de vida da população. Ao meu ver, isso não é mandar a conta para os mais pobres pagarem, mas sim corrigir as distorções criadas ao longo dos anos por governos de diversas matizes ideológicas. Isso precisará ser feito logo, ao passo de colapsar o sistema previdenciário. Precisamos de uma reforma política urgente! (voto distrital, fim de reeeleições sucessivas etc). Pois, o nosso modelo fracassou com a direita, esquerda e se assim prosseguir temo pelo pior. Sobre os juros da dívida (que o próprio governo contraiu em nosso nome para honrar os compromissos que ele assume sabendo que é incapaz de custear com os impostos) temos duas vias a seguir: caloteá – la como fizeram os Hermanos ou continuar pagando o serviço da dívida como o faz até mesmo a Venezuela, que prefere atirar sua população à indigência a escamotear a dívida. Para mim, o default é a pior opção dado que já o fizemos algumas vezes e sabemos o que se sucede. Aguardemos o desenrolar desse imbróglio tupiniquim.

  3. Concordo em partes, antes porém, precisamos fazer algumas ponderações. Todos os integrantes citados pelo Sr. Como o Ex – Ministro Henrique Eduardo Alves, o Ex- Ministro da Transparência Fabiano Silveira e os demais, já compunham o governo da Presidente afastada Dilma Rousseff, assim como todos os envolvidos no maior esquema de corrupção da história. Logo precisamos relativizar a conduta do Presidente Interino Michel Temer, pois quem entende os meandros da política como presumo que o senhor entenda, sobretudo um sistema de presidencialismo de coalizão, sabe que na maioria das vezes os políticos são obrigados a distribuir cargos a políticos de diversos partidos (e ao seu próprio), e até mesmo ignorar se esses políticos respondem a inquéritos, tudo isso em nome da tão almejada governabilidade. Do lado econômico, é consenso entre os economistas que a previdência social brasileira necessita de ajustes, porque os números apontam uma trajetória crescente do déficit, além do bônus demográfico brasileiro estar terminando, somemos a isso o aumento na expectativa de vida da população. Ao meu ver, isso não é mandar a conta para os mais pobres pagarem, mas sim corrigir as distorções criadas ao longo dos anos por governos de diversas matizes ideológicas. Isso precisará ser feito logo, ao passo de colapsar o sistema previdenciário. Precisamos de uma reforma política urgente! (voto distrital, fim de reeeleições sucessivas etc). Pois, o nosso modelo fracassou com a direita, esquerda e se assim prosseguir temo pelo pior. Sobre os juros da dívida (que o próprio governo contraiu em nosso nome para honrar os compromissos que ele assume sabendo que é incapaz de custear com os impostos) temos duas vias a seguir: caloteá – la como fizeram os Hermanos ou continuar pagando o serviço da dívida como o faz até mesmo a Venezuela, que prefere atirar sua população à indigência a escamotear a dívida. Para mim, o default é a pior opção dado que já o fizemos algumas vezes e sabemos o que se sucede. Aguardemos o desenrolar desse imbróglio tupiniquim.

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