Segundo análise do cientista político João Feres Júnior, da UERJ, a grande mídia distorce os resultados das pesquisas feitas até agora com suas interpretações “meio copo vazio”.
" />

Brasil Debate

Brasil Debate

João Feres Júnior

É cientista político, vice-diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) e do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA)

 
João Feres Júnior

O que os números das pesquisas eleitorais também revelam

Ao contrário do que as manchetes da grande mídia afirmam, os números das intenções de voto, considerando as seis pesquisas feitas pelo Datafolha esse ano, é impressionantemente estático. Isso apesar do ataque sistemático sofrido pelo governo Dilma, acusado de má gestão, desmando e corrupção

A campanha eleitoral mal começou, mas as análises “meio copo vazio” de Dilma já frequentam a grande mídia há muito tempo. A publicação de pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha no último dia 18 foi razão para mais uma enxurrada de leituras desse tipo. Se a comunicação social deve ter uma função pedagógica, é mister mostrar que os números exibidos dão base também a outras interpretações, pelo menos para que o leitor/eleitor possa comparar, pesar e julgar.

Comecemos pelos números das intenções de voto. O quadro geral que transparece, ao tomarmos como um todo as seis pesquisas eleitorais feitas pelo citado instituto, desde meados de fevereiro deste ano, é impressionantemente estático, ao contrário do que as manchetes dão a entender. Não houve mudanças significativas da última pesquisa, coletada nos dias 1 e 2 de julho, para a atual, coletada nos dias 15 e 16 de julho.

Tampouco da penúltima, ou da antepenúltima. Todos os candidatos mantiveram-se dentro da margem de erro, ainda que, há de se notar, o cálculo das margens de erro feito pelos institutos, de 2% a 4%, seja incerto, pois a pesquisa utiliza metodologia de cotas e não puramente probabilística.

Na verdade, ao tomarmos as seis pesquisas em conjunto, notamos que Dilma somente caiu nas intenções de voto, de 44% para 38%, da primeira pesquisa, 19 e 20 de fevereiro, para a segunda, 2 e 3 de abril. Desde então, a candidata tem se mantido em torno dessa marca.

Por seu turno, Aécio Neves somente subiu, de 16% para 20%, da segunda para a terceira pesquisas, feitas nos meses de abril e maio, respectivamente. Desde então tem se mantido estático nos 20%, pesquisa após pesquisa. Eduardo Campos parece, à primeira vista, o que mais variou, pois a curva de seu gráfico pelo menos se mexe, mas sempre dentro da margem de erro.
Começa a série com 9%, em fevereiro, e acaba com 8%, na última pesquisa.

O que esses dados querem dizer? Entre outras coisas, que as preferências dos eleitores não estão mudando rapidamente. Há certa expectativa ou paralisia do eleitorado, o que é compreensível, dado que, no primeiro semestre desse ano, a Copa do Mundo da FIFA ocupou grande parte do noticiário. Esses dados também revelam o tão comentado impacto da Copa do Mundo nas percepções políticas do eleitorado. Na verdade, mais correto seria falar em falta de impacto, pois o que se constata é que o evento não alterou as preferências dos eleitores frente aos candidatos.

Mas isso não se deu em um contexto neutro. Pelo contrário, a grande mídia moveu uma forte campanha contra a organização do evento, culpando o governo federal, quando não Dilma diretamente, por supostas falhas, atrasos, corrupção, promessas não cumpridas e má administração. Tal campanha negativa ecoou fortemente nas mídias internacionais, que também passaram a projetar expectativas de catástrofe para a Copa do Brasil. Esperava-se o fracasso e que esse fracasso fosse cobrado de Dilma.

A Copa foi, contudo, um sucesso, o que aparentemente cancelou os efeitos da campanha negativa da mídia sobre as intenções de voto em Dilma. Outro dado importante a se notar é a rejeição dos candidatos. Aqui, os jornais chamaram bastante atenção para o fato de Dilma ter um índice de rejeição, 35%, que é praticamente o dobro do de Aécio, 17%, e três vezes o de Eduardo Campos, 12%.

Novamente, a informação só vem pela metade, pois o índice de rejeição tem que ser pesado juntamente com o índice de conhecimento que o eleitorado tem do candidato, e esse dado não foi apresentado, ainda que saibamos que o de Dilma, pelo simples fato de ser presidente, é quase 100%, enquanto Aécio e Campos têm índices muito menores.

As conclusões a serem tiradas desse quadro são nada óbvias. Se as coisas continuam mais ou menos da maneira como estão, Dilma teria atingido o teto de sua rejeição, pois o eleitorado já a conhece e já tem alguma opinião formada sobre ela. Já Aécio e Campos têm um caminho pela frente. Ao se tornarem mais conhecidos certamente verão seus índices de rejeição também aumentarem.

Mais uma vez, precisamos levar em consideração o contexto informacional. Até o momento, o governo Dilma e o partido da presidente, o PT, têm sofrido um ataque sistemático da grande mídia, acusados de má gestão, desmando e corrupção, enquanto os candidatos da oposição são tratados de maneira bem mais leniente, quando não francamente simpática. Ou seja, com raríssimas exceções, tudo o que o público de eleitores recebe são notícias ruins sobre o governo, acrescidas de uma cobertura que pinta o País em franca crise econômica e política, a despeito de todas as evidências em contrário.

Compondo a situação, o governo federal tem tido dificuldade em comunicar ao eleitorado notícias positivas de sua gestão e do País como um todo. A despeito do bloqueio midiático, o governo tem em suas mãos instrumentos de comunicação, ainda que limitados, mas essas informações parecem não chegar à população. Talvez embevecido por suas seguidas vitórias eleitorais, o PT também parece ter aberto mão, desde o primeiro governo Lula, de cultivar meios de comunicação que constituam alternativas reais para o grande público. Em suma, do ponto de vista informacional, estamos no pior momento possível para a candidatura da situação.

Isso não quer dizer que as coisas vão necessariamente melhorar para Dilma. Em breve, contudo, sua candidatura terá no horário eleitoral gratuito, no qual contará com muito mais tempo que qualquer oponente, uma chance real de informar os eleitores e assim resistir à avalanche de propaganda negativa da qual é objeto.

É claro que os candidatos da oposição aumentarão o tom das críticas. O mesmo devemos esperar da grande mídia, que tende a repetir o comportamento extremamente militante das eleições passadas. Enfim, entramos no período abertamente político do calendário eleitoral, no qual as máximas maquiavelianas da virtude e da fortuna imperam. O resultado do pleito de 2014 está longe de estar determinado. Vamos ao jogo!

Clique para contribuir!

10 respostas to “O que os números das pesquisas eleitorais também revelam”

  1. alves silva disse:

    A fome; Marina disse que passou fome. NÃO ACREDITO, onde ela morava Tem a maior diversidade de frutas do Brasil. Tem muita caça,Tem rios e muito peixe, tem abacaxi que pesam até 25 Kg, tem macaxeira,Antas, porco do mato, capivaras, cotias, preás, macuco, galinha. tem onde plantar horta.
    Acho que ela é muito preguiçosa, pois os indios da amazonia nunca passaram fome. Será que so ela passava fome?

    Dizia que comeu ovo com farinha e sal, hoje ela come a mesma coisa, ovas de peixe(CAVIAR)com farinha, ainda não perdeu a mania de comer farinha grossa.

  2. kkkkkk disse:

    e ainda com moderação!

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    isso sim é democracia! só sai o que querem!

  3. Gilberto Rezende-Rio Grande/RS disse:

    Excelente artigo principalmente esclarecedor no que tange a avaliação do grau de rejeição quando o candidato não é conhecido pelo eleitorado nacional.
    Já incluí o Brasil Debate no meus favoritos…

    Uma análise ampla, bem fundamentada e principalmente compreensiva.

  4. luiz ribeiro vale disse:

    Acho que o povo brasileiro já tem conhecimento político suficiente para identificar os políticos que representam o atraso na vida do nosso povo, portanto, devemos cada vez mais fazer nossa parte estando sempre vigilantes junto à nossos amigos e parentes envolvendo-os na discussão política para que estes não fiquem soltos a merce das manipulaçõe de qualquer que seja o instrumento eleitoral.

  5. maria antonia silva de arcanjo disse:

    Precisamos muito dessas análises que esclarecem como se dá a manipulação das informações nas pesquisas eleitorais.
    Na verdade as informações distorcidas tem o claro objetivo de dificultar a reeleição da Presidenta Dilma e criar boas expectativas para o adversário principal que carrega a bandeira do neoliberalismo.
    Vou divulgar o máximo possível porque sei que precisamos ter atitudes que combatam essas velhas manobras.

  6. Fabio Nogueira disse:

    A midia não é a favor de A ou B. Ela é sempre contra o governo federal, qualquer que seja ele. Antes de cada eleição sobram criticas à gestão do partido ocupante do poder central. E isso é uma coisa esperada. Quem está no governo é quem faz ou deixa de fazer as coisas. Só ele é vitrine. A oposição sempre está em posição de vantagem. No modelo político brasileiro, a exposição que um partido tem no âmbito estadual é infinitamente menor do que no âmbito federal. Isso beneficia tanto Aécio quanto Eduardo, que não fizeram bons governos em seus estados mas a exploração política de seus entreveros regionais dificilmente afetará profundamente a opinião de habitantes de outros estados que não sentiram na pele essas gestões. Já o governo federal é culpado de tudo no país, da falta de chuva no nordeste ao fracasso do time na Copa. Por fim, a ideia de uma imprensa de direita se posicionando contra um governo de esquerda é ridícula. A tal imprensa de direita é a mesma que malhou todos os governos federais anteriores. E se vivemos em um país democrático, a melhor maneira de contrabalançar uma midia com visão conservadora é crescer uma midia com visão socialista. E isso depende dos leitores, apenas. De mais ninguém.

    • Octavio disse:

      Gostei muito do texto que vc escreveu. Mas, concordo com vc em parte. Não acho que a mídia tenha essa independência toda. Este governo bateu de frente com os bancos, fazendo o juro diminuir. Com isto, os principais anunciantes das emissoras (os grandes bancos) devem estar fazendo uma pressão para que elas detonem a Dilma. Além disto, já é fato conhecido que a administração tucana tem a mão aberta para a contratação de propaganda e compra de exemplares de revistas de quem os apoia, diferentemente da postura do PT. Além disto, a questão ideológica também tem que ser contabilizada. Os jornalistas só permanecem nestas emissoras e jornais se forem adeptos da ideologia de direita e do capitalismo selvagem. Quanto a fazer crescer uma mídia plural, isto nós já estamos fazendo. Olha eu aqui respondendo o seu comentário.
      Um grande abraço

    • Fernando Soares Campos disse:

      Em outras épocas, a mídia empresarial só atacava o governo quando alguns setores dentro daqueles governos se desentendiam. Briga de cachorro grande, no dizer popular. A partir de 2003, as coisas se inverteram: escândalo entre oposicionistas só vai para o conhecimento público se eles estiverem brigando entre si. Mas o fogo cerrado fica sempre contra os governos petistas. Nos tempos de FHC, este chegou a ironizar, dizendo que a imprensa só falava bem deles e que aquilo estava “pegando mal”. “Jornais e revistas [os demais veículos também] serviram de suporte político para o governo Fernando Henrique”, afirmou Janio de Freitas, colunista da Folha de São paulo, que, no programa Roda Viva, disse ainda: “A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto”.

  7. Luiz Carlos disse:

    Parabéns, muito esclarecedor e abrangente.

  8. […] O Conversa Afiada reproduz artigo do professor  no novo e valioso site Brasil Debate: […]

Comentários