Segundo a autora, o crescimento do movimento feminista no Brasil em 2015 e 2016 precisa se refletir também na política institucional, para que as reivindicações históricas das mulheres deixem de ser decididas principalmente por homens e religiosos.
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Brasil Debate

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Camila Tribess

É cientista social e mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná. Foi bolsista Capes em programa de cooperação internacional em Timor-Leste. Atualmente é consultora do PNUD para a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

 
Camila Tribess

O que a ‘Primavera das Mulheres’ pode mudar na política em 2016?

Com o crescimento das pautas feministas na sociedade, é possível que mais mulheres sejam eleitas para cargos políticos em 2016. Mas a mudança real se dará se elas tiverem engajamento com os temas das mulheres hoje discutidos, nos lugares de poder, essencialmente por homens

Podemos dizer que 2015 foi um ano da “primavera feminista” e 2016 tem se mostrado bastante promissor também. Como quase tudo no Brasil, começamos no carnaval. As campanhas antiassédio e antiviolência contra a mulher foram finalmente levadas a uma escala nacional, com inserções na televisão e nas ruas.

O debate sobre o que é assédio gerou materiais criativos, que buscaram levar de forma simples e bem humorada as reivindicações de muitas décadas das mulheres, de vários grupos sociais distintos. Como resultado dessas campanhas, as denúncias de abuso, assédio e violência cresceram 174% em relação ao carnaval de 2015. Esse número mostra como a questão ganhou repercussão e, acima de tudo, adesão de mulheres e homens contra um comportamento antes tomado como “natural”.

Essa repercussão durante o carnaval tende a ganhar corpo em novas campanhas, mas não deixa de gerar polêmica. Outro fato interessante e considerado significativo para o movimento feminista foi a nota de desculpas publicada pela atriz e escritora Fernanda Torres, depois de ela publicar um texto na Folha de S. Paulo num espaço que, teoricamente, estaria servindo para empoderar mulheres.

A campanha #AgoraÉQueSãoElas tem como objetivo dar espaço na grande mídia a mulheres, para que elas se expressem e publiquem seus textos, vídeos, produções. Essa campanha se dá justamente para combater o machismo nos meios de comunicação, que faz com que a maioria dos colunistas de jornais e revistas, diretores de filmes, editores e outros formadores de opinião sejam homens (brancos).

Apesar dessa ideia geral, Fernanda Torres publicou um texto absolutamente machista, racista e conservador aproveitando-se de um espaço que tem intenção completamente oposta. Mas o que importa nesse caso é que, em 24 horas, Torres e a FSP foram obrigadas a publicar nota pedindo desculpas pelo texto anterior, tamanha a repercussão negativa que a coluna teve.

A sociedade tem sido obrigada a discutir, ou ao menos ver essas pautas sendo discutidas, nos meios de comunicação. Isso graças a uma juventude feminista que cresce a cada ano, com movimentos muitas vezes pontuais (o grupo do shortinho em POA, por exemplo), mas que fazem brotar grupos de discussão de gênero em escolas, universidades e, principalmente, online.

O próprio youtube lançou há poucos dias uma parceria em que busca dar mais visibilidade – com o apoio da ONU – a canais feitos por mulheres, que sejam consideradas jovens lideranças. Apesar de abarcar canais tão distintos quanto “Jout Jout” (abertamente feminista) e “Acidez Feminina” (bastante controverso entre os movimentos feministas), a iniciativa é busca dar voz, visibilidade e espaço para novas lideranças – mulheres.

Amelinha, uma das primeiras feministas brasileiras, deu recentemente entrevista e destacou a importância das jovens no crescimento do feminismo no Brasil. Apesar desse crescimento expressivo e do fato de as pautas feministas estarem cada vez mais presentes, muito ainda precisa ser feito. Ainda temos índices de violência absurdos a serem superados e líderes políticos, dentro do próprio Congresso, que fazem apologia ao estupro. Vale lembrar que o deputado Bolsonaro foi condenado a pagar indenização por danos morais após fazer comentário de violência sexual contra a deputada Maria do Rosário.

Semanas atrás, em 24 de fevereiro, comemoramos no Brasil os 84 anos de voto feminino. A primeira deputada (estadual) foi eleita em 1934, em Santa Catarina, era negra e chamava-se Antonieta de Barros. Desde lá, os números sobre mulheres na política no Brasil nunca foram muito animadores. O IPU (Inter Parliamentary Union) faz pesquisas periódicas e o Brasil oscila sempre entre os países com menor número de mulheres no Congresso.

Assim, minha questão principal aqui é: será que em 2016, com esse crescimento tão significativo das pautas feministas na sociedade e nos meios de comunicação, teremos mais mulheres eleitas?

Por se tratar de eleições municipais, minha resposta inicial é sim. Diversas pesquisas mostram que temos muito mais mulheres disputando cargos locais, como vereadoras e prefeitas. O número diminui drasticamente quando subimos nas hierarquias. Assim, 2016 promete ser um ano de campanhas de mulheres voltadas para mulheres.

Diversas candidatas vão saber aproveitar esse público, que começa a votar agora – as jovens feministas – e podem ter algum apoio dos partidos, já que podem agregar bom número de votos que de outra forma se dissipariam.

No entanto, acredito que fatos como a polêmica em torno do texto de Fernanda Torres, bem como a formação de um “Partido da Mulher”, tomado por homens e com posturas completamente machistas explicitam muito bem uma grande questão: Dar mais espaço para mulheres na política, simplesmente, melhora a situação das mulheres no Brasil?

A resposta é sim e não. Sim, porque mesmo com posicionamentos machistas, o fato de haver mais mulheres em lugares de poder abre precedentes importantes, cria imagens de representação e fomenta o debate, como aconteceu com o texto de Torres. Por outro lado, apenas isso não é suficiente, já que precisamos de representantes mulheres que de fato tenham engajamento com as pautas feministas para que se possa avançar em temas das mulheres que hoje são discutidos, nos lugares de poder, essencialmente por homens.

São as mulheres que têm que decidir sobre políticas de saúde feminina, violência contra mulher, direitos de reprodução, acesso aos meios contraceptivos, espaço no mercado de trabalho, igualdade salarial, remuneração por trabalho doméstico e de cuidado de crianças e idosos entre milhares de outros temas.

São pautas em que o Brasil precisa urgentemente avançar e só com a efetiva mobilização de todos esses novos grupos feministas que estão surgindo e crescendo a cada ano é que poderemos nos tornar força política formal, elegendo mulheres, de preferência que estejam aptas a discutir os temas que são as reivindicações históricas do movimento feminista.

Se não queremos homens e religiosos decidindo sobre nossas vidas, nossa desigualdade e nossos úteros, precisamos ir além e eleger mulheres que sejam capazes de travar essas batalhas no âmbito da política institucional também.

 

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