Brasil Debate

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Wladimir Pomar

É jornalista, escritor e membro do conselho de redação da Revista Teoria e Debate e do Grupo de Conjuntura da Fundação Perseu Abramo

 
Wladimir Pomar

O que a Copa tem a ensinar sobre colapso político

Reflexões sobre o colapso da seleção brasileira podem ajudar a examinar com mais prudência o atual quadro político, pois nem sempre a desorganização capaz de provocá-lo é evidente. O atual governo deve ficar atento às mudanças exigidas pelas manifestações de junho de 2013

Não acredito que as vergonhosas derrotas da seleção brasileira tenham qualquer efeito sobre as tendências eleitorais. Acredito, por outro lado, que o sucesso da Copa no Brasil, ao contrário de todas as previsões catastróficas a respeito, respingará negativamente sobre os arautos do fracasso, principalmente se a comunicação do PT e do governo demonstrarem capacidade positiva.

Porém, na relação da Copa com a política, chama a atenção o colapso de uma seleção com jogadores competentes, condições de treinamento e logística excepcionais, e uma comissão técnica, apesar dos fracassos históricos, vitoriosa no teste da Copa das Confederações. Os jogadores se transformaram em baratas tontas, a comissão técnica congelou, e a torcida emudeceu.

É verdade que muitos comentaristas criticavam a evidente falta de organização nos jogos anteriores. Descoordenada, a seleção era incapaz de realizar passes acertados. Tudo confluía para a capacidade individual de alguns poucos jogadores. Bastou o desfalque de dois deles para que o desastre se consumasse, evidenciando lacunas profundas na preparação estratégica e tática do time brasileiro.

Em termos políticos, colapsos desse tipo têm ocorrido até mesmo em partidos, governos e Estados. Exemplo de colapso anunciado de um partido e de um Estado foi o da União Soviética, que visitei no início dos anos 1990. Seu grau de desorganização econômica e social, e a ausência de políticas capazes de revertê-la, eram visíveis a qualquer observador.

No entanto, nem sempre a desorganização capaz de levar a um colapso é evidente. E nem sempre o colapso é fulminante, como nos casos da seleção do Filipão, do Estado soviético. Era difícil prever que a ditadura militar brasileira naufragaria justamente no auge de seu “milagre econômico”. E que o regime militar ainda conseguisse flutuar até 1984 e só afundasse quando seu partido político, a Arena, se partiu. Foi um colapso arrastado, produzindo estragos de toda ordem.

O governo Collor é outro exemplo de colapso anunciado. Dando o pontapé inicial à implantação do programa neoliberal, ele confiscou as poupanças, promoveu uma intensa e rápida desorganização econômica e social, e iniciou uma expropriação mafiosa de ativos públicos e privados para o enriquecimento meteórico de seu grupo. Seu colapso foi mais rápido do que qualquer analista poderia supor.

No caso dos governos neoliberais de FHC, econômica e socialmente ainda mais desastrosos do que o de Collor, ele parecia blindado contra qualquer colapso. Tinha o apoio do FMI, do Banco Mundial e do sistema financeiro internacional. Apesar disso, o colapso veio logo após a eleição de 1998. Foi prolongado e paralisante, porque os mentores externos e a burguesia nativa não tinham qualquer projeto alternativo.

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O governo Lula e o PT quase entraram em colapso político em 2005, diante da crise que atingiu algumas de suas principais lideranças. O colapso só foi evitado porque a militância do PT ainda tinha garra e certo grau de organização. Além disso, a equipe de governo saiu da defensiva, apelou para as grandes massas populares, e enfrentou a disputa política numa perspectiva de mudanças.

Portanto, reflexões sobre o colapso da seleção brasileira podem nos ajudar a examinar com mais prudência o atual quadro político. Precisamos ter na lembrança as jornadas populares de junho de 2013 e a sequência de greves de trabalhadores assalariados, as mobilizações de trabalhadores sem-terra e sem-teto, e as manifestações dispersas de outros setores sociais. Elas apanharam de surpresa parcelas importantes do PT e do governo Dilma, que até hoje parecem não haver entendido que tais mobilizações e lutas expressam a emergência das novas gerações das classes populares.

Após quase três décadas de descenso, a luta de classes retornou. Em seu início, como sempre, apresentando dispersão, desorganização, e confusão de objetivos. Mas relacionada ao crescimento econômico a partir de 2003 e à criação de mais de 20 milhões de empregos. Milhões de excluídos ascenderam para a classe dos trabalhadores assalariados, e outros milhões desses excluídos ascenderam à posição de semi-incluídos, através dos programas de transferência de renda.

As políticas dos governos Lula e Dilma, ao invés de amortecerem a luta de classes, atenderam a uma parte das demandas básicas dos pobres e miseráveis e introduziram condições para demandas e reivindicações mais elevadas. Isto é, demandas relacionadas com o transporte urbano e suburbano, com a educação e a saúde pública, com a moradia e o saneamento básico, com o aumento da oferta de alimentos e bens de consumo não duráveis a preços mais baixos, e com a segurança pública.

Paradoxalmente, tais demandas foram erigidas pela direita e pela ultraesquerda políticas como a ponta de lança de sua ofensiva política. O fracasso na preparação e organização da Copa seria a demonstração cabal da incompetência do PT e do governo Dilma em atender às demandas populares. Parte dessas correntes políticas também teve esperança de que a derrota do time nacional influiria no aumento da rejeição popular ao governo, e torceu pela derrota da seleção canarinho.

As obras, a organização e a realização da Copa foram um sucesso nacional e internacional. E é difícil colocar o colapso da seleção na conta do governo. Apesar disso, é preciso ter em conta de que continuam atuando fatores desestabilizadores na economia, na sociedade e na política brasileira. Vários desses fatores atuam sobre as condições de vida das camadas populares, e vários outros atuam sobre a lucratividade e rentabilidades da burguesia e da pequena-burguesia.

Todos esses fatores podem tender ao colapso, dependendo das políticas adotadas para revertê-los. Portanto, ao invés de se deitar sobre o sucesso da Copa e achar que o perigo passou, PT e Dilma precisam precaver-se e empenhar-se nas mudanças exigidas pelas ruas. Sem vacilação.

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2 respostas to “O que a Copa tem a ensinar sobre colapso político”

  1. Gilberto Rezende-Rio Grande/RS disse:

    Gostaria de acrescentar que o colapso da seleção tem correlação DIRETA ao atraso político do futebol brasileiro no geral e da CBF em particular que estão congelados no Neoliberalismo da ERA FHC e da sua Lei Pelé.

    O Futebol Brasileiro está a DÉCADAS estruturado como um produto privado compartilhado por dois poderes neoliberais econômicos um superior a Rede Globo e um subordinado a CBF.

    Em janeiro de 2011 a mídia, a população trabalhadora e torcedora no futebol nacional e o governo federal petista assistiram omissamente(sem piscar o olho para intervir) a Globo e a CBF esmagar a organização do Clube dos Treze que pretendia pela primeira vez em décadas mudar o patrocinador do campeonato brasileiro da série A da Rede Globo para a Rede Record que pagaria 3 vezes mais e aproximaria os valores pagos do campeonato aos pagos pelos campeonatos das ligas europeias. Por pressão ou simples suborno de dirigentes a CBF de Ricardo Teixeira e a Rede Globo conseguiram implodir a organização dos clubes através dos dirigentes do Corínthians, Flamengo e do endividado Botafogo. Resulta disto que os clubes do futebol brasileiro CONTINUAM em elevado percentual dependentes das baixas cotas de televisão pagas pela rede de televisão capitã-donatária do futebol brasileiro. Hoje a Rede Globo paga menos da metade que a Rede record ofereceu aos clubes em 2011 e deste valor a Globo paga quase a metade só para dois clubes os ajudantes na implosão do C-13, Flamengo e Coríntians e deformando ainda mais o futebol brasileiro premiando dois dos mais polêmicos e desorganizados times do futebol brasileiro.

    Exemplo da atuação da Rede Globo ?
    Além de impor aos clubes uma promoção tímida e burocrática do nosso futebol impõe seu exercício em horários incompatíveis ao torcedores como mostra o recente exemplo de Corinthians e Bahia no horário de 22:00 para encaixar na grade da telenovela da Globo e o torcedor corintiano foi BRINDADO pelo poder público paulista (tucano) com o fechamento da estação de metrô de Itaquera 20 minutos antes do final previsível da partida.
    E isso logo após a copa.

    Isto dá a medida EXATA de quanto a Rede Globo e os responsáveis do metro paulista se importam com o bem estar dos torcedores paulistas.

    Nossa seleção vem desde 1982 sofrendo um lento processo de AFRICANIZAÇÃO na medida que a cada Copa do Mundo é menor a proporção de jogadores que jogam fora do país. A seleção de 2014 chegou a um novo patamar onde além da quase totalidade de jogadores jogavam no exterior, tivemos um número nunca antes acontecido em convocações anteriores de jogadores que NUNCA ou que não jogaram uma temporada inteira num clube de primeira divisão no país. Como o Messi.

    Messi é um europeu de formação (espanhol) que nasceu na Argentina. Não é e nunca será um jogador argentino. Nosso futuro como base exportadora neoliberal de PÉ-DE-OBRA para o futebol mundial é esse modelo onde o David Luiz quer jogar pelo país que nasceu e o Diego Costa prefere jogar pelo país onde exerce seu ofício como imigrante na Espanha.

    Continuar sob o jugo econômico da Rede Globo e dirigida por uma CBF que valoriza TANTO o mercado do futebol a ponto de escalar como “salvadores da seleção” os ex-empresários (ex mesmo ?) Gilmar Rinaldi e Dunga indica que nada de substancial irá mudar a partir da CBF e sua “colaboradora” Rede Globo.

  2. José Barbosa disse:

    Parabéns ao articulista pela excelente reflexão. Ontem foi o meu primeiro encontro com o Brasil Debate, e já estou divulgando o site para amigos nas redes sociais. Precisamos de espaços sérios de reflexão acerca da realidade brasileira. Creio que Brasil debate pode contribuir muito para para que isto aconteça.

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