A despeito de ter sido seriamente avariado no percurso de 35 anos, o Partido dos Trabalhadores, segundo o autor, é hoje melhor do que nos anos 1980. Graças ao choque de realidade de ser governo, tanto PT como a esquerda brasileira estão em outro patamar.
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Marcelo Manzano

É economista, professor de economia da Facamp (Faculdades de Campinas) e pós-doutorando do programa de Desenvolvimento Econômico no Instituto de Economia da Unicamp

 
Marcelo Manzano

O PT e o mar

Assim como os ataques dos tubarões estraçalharam o peixe de Santiago, o pescador protagonista do livro “O velho e o mar”, de E. Hemingway, o exercício do poder produziu estragos irreparáveis sobre o corpo e a alma do PT. Mas será que ele caminha para o seu fim?

09/02/2015

Desde que Lula assumiu o mais alto cargo político do Brasil em 2003, são incontáveis as manifestações anunciando o fim do Partido dos Trabalhadores. O primeiro ato dessa procissão talvez tenha sido protagonizado pela turma que migrou para o PSOL.

O saudoso Plínio de Arruda Sampaio, em “entrevista explosiva” à revista Caros Amigos de maio de 2005, já tratava de jogar luz sobre a “crise terminal” do PT. De lá para cá, a despeito de o PT ter realizado uma transformação social sem precedentes no País e ter conseguido vencer mais três eleições seguidas para a Presidência, a obsessão com o fim do PT só faz crescer.

E tem pra todo gosto. Da extrema esquerda ao Instituto Millenium, de petistas históricos a jejunos, de sindicalistas a ilustres acadêmicos, fervilham palpites e maus agouros a respeito do tempo de vida do partido.

Entre os argumentos, o mais frequente, espécie de denominador comum entre todos os críticos – inclusive dentro do partido – é o de que “o PT já não é mais aquele”. Já não teria o vigor nem a ousadia que tão bem empunhou na campanha das Diretas, no inesquecível processo eleitoral de 1989, na defesa intransigente de utopias de um difuso socialismo democrático.

Será? De fato, o desgaste que o PT vem sofrendo lhe tira o lustro e traz dúvidas quanto à sua capacidade de continuar avançando como partido. Talvez tenha cometido erros que transformem a sigla em um fardo excessivamente pesado para se carregar nos próximos pleitos eleitorais. O tempo dirá.

Entretanto, é preciso tomar cuidado e separar a análise da viabilidade política da sigla nas próximas eleições da análise do significado da experiência do PT como vetor de um projeto de esquerda para o País.

Tal qual o velho pescador Santiago, protagonista do livro “O velho e o mar” de E. Hemingway, o PT se aventurou pelo mar bravo do sistema eleitoral brasileiro e, em busca de realizar seu sonho de longa data – a construção de um país mais justo, soberano e igualitário – fisgou o seu Marlin-azul: a Presidência do País.

Peixe grande, canoa pequena, a viagem desde então se transformou em intensa luta pela sobrevivência e trouxe à tona as ameaças inescapáveis que recaem sobre aqueles que ambicionam avançar para além da linha do horizonte. Assim como os ataques dos tubarões estraçalharam o peixe do valente Santiago, o exercício do poder produziu estragos irreparáveis sobre o corpo e a alma do PT.

Mas, quando finalmente é avistado da costa, o peixe está lá, estampado na canoa do velho: na forma de um esqueleto enorme, a lição de que parte do sonho era inalcançável, mas também que o cerne de osso, esticado de uma extremidade à outra, é a peça de resistência que dá sentido à luta.

O PT errou, muito – como, aliás, erraram todos os outros partidos de esquerda ao redor desse mundão capitalista em que estamos metidos. Mas errou não porque abriu mão dos sonhos de outrora. Errou principalmente por ter acreditado ser possível, a um só tempo, jogar o jogo sujo do sistema eleitoral brasileiro, enfrentar os interesses rentistas que há tantas décadas nos governam e garantir os avanços das instituições republicanas que emergiram com a Constituição de 1988. A equação não fecha.

Contudo, a despeito de ter sido seriamente avariado no percurso, há motivos para dizer que o PT de hoje, talvez apenas uma carcaça do vigoroso partido dos anos oitenta, é melhor do que aquele.

O PT sabe hoje que não se constrói um país com arroubos voluntaristas, com uma cesta de boas causas, com um catado de princípios valorosos. O PT – e parte importante da esquerda brasileira – aprendeu na marra que não se consegue avançar em um país capitalista da periferia se não houver um Estado que seja o protagonista do desenvolvimento econômico, isto é, que lidere a acumulação capitalista e, ao mesmo tempo, imponha limites aos interesses privatistas.

Aliás, vale recordar, o PT dos oitenta, das “Diretas Já”, da encantadora melodia do “Lula-lá”, dava de ombros para o tema do “desenvolvimento” – olhava torto, por exemplo, para debates sobre os rumos da nossa indústria, desconfiava dos empréstimos subsidiados do BNDES ao capital e acendia velas para a austeridade fiscal.

Com a estrela na testa, restringia-se à defesa valorosa dos direitos dos trabalhadores, dos sem terra, das minorias e dos desvalidos. Aquele PT foi, sim, fundamental no processo constituinte e na sua longa jornada regulatória: mas às bandeiras meritórias de então foi acrescido o cerne, o eixo estruturante que até 2003 passava ao largo do ideário petista.

Hoje, graças ao choque de realidade de ser governo, tanto o PT quanto a esquerda brasileira estão em outro patamar. Graças às contradições enfrentadas pelos governos de Lula e Dilma, sabe-se, por exemplo, como a defesa dos empregos e dos salários, exige uma musculatura do Estado e de outras instituições públicas que vai muito além da intransigente defesa dos direitos da pessoa humana ou da inocente prática do orçamento participativo.

Dizem os críticos – externos e internos – que o PT, na medida em que galgou a hierarquia política do País, permitiu-se enrijecer; que seus quadros se encantaram com os vícios do poder e da grana; enfim, que o projeto de transformação social do País foi reduzido a um projeto de poder.

Sim, em parte isso de fato aconteceu – o que não é novidade alguma em se tratando de seres humanos, sejam eles franceses, japoneses ou menonitas. Mas é verdade também que muito se fez para avançar no sentido do pleno emprego e da melhora sistemática da renda dos assalariados e dos mais pobres. Isso foi conquistado – e não é pouco: basta olhar ao redor do planeta.

Em última instância, portanto, esse é o esqueleto que mantivemos preso ao barco, e é ele que nos permite perceber, por um lado, o quão pouco sabíamos antes de nos lançarmos ao mar e, por outro, o quanto tivemos que enfrentar para conquistar avanços civilizatórios fundamentais para o povo deste País.

 

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11 respostas to “O PT e o mar”

  1. Eduardo disse:

    “Hoje, graças ao choque de realidade de ser governo, tanto o PT quanto a esquerda brasileira estão em outro patamar. Graças às contradições enfrentadas pelos governos de Lula e Dilma, sabe-se, por exemplo, como a defesa dos empregos e dos salários, exige uma musculatura do Estado e de outras instituições públicas que vai muito além da intransigente defesa dos direitos da pessoa humana ou da inocente prática do orçamento participativo – See more at: http://brasildebate.com.br/o-pt-e-o-mar/#comment-7737 ” Sinto muito caro autor, se for para olhar só para as necessidade do deus MERCADO, é bom que o PT saia de cena, pois fazer isto os outros fazem e com louvor, OS DIREITOS DA PESSOA HUMANA, deve ser balizador de qualquer governo, ou os governos depois de eleitos viram robôs, insensíveis as dores e necessidades da pessoa humana. O LIMITE EM QUALQUER GOVERNO É A PESSOA HUMANA, O MERCADO É SECUNDÁRIO, POIS ESTE VISA O LUCRO ENQUANTO A PESSOA HUMANA VISA O ALIMENTO, E COMO DISSE OS GOVERNANTES SE INCLUEM AÍ, SÓ QUE COMEM COM O DINHEIRO DO POVO.

  2. facto disse:

    Resumindo o texto: O PT se perdeu no mar do capitalismo e da democracia burguesa(que é suja em si mesma), mas fez alguma coisa para com os mais pobres.

    Tal discurso é a principal( e única) amuleta argumentativa dos petistas( da base ou da cúpula) para legitimar a decadência do PT, cujo projeto político esvaeceu-se em suas próprias contradições, visto que tentava conjulgar e mediar interesses materiais antagonicos entre si, com o fim de manter-se no poder para construir uma utopia democrática que beira à ideologia burguesa de negar das lutas de classe e de possibilidade de existência de uma sociedade burguesa “justa”.

    O fim do projeto do pt não decorre de fatores externos, mas de sua própria organização interna. Se o fim do pt significará o fim do partido, eu não sei. Mas, para o PT se manter no governo em 2015 e não perder o restígio do apoio popular que existe,terá que se camuflar no PSDB e, ao mesmo tempo, se aproximar da sua base aliada mais radical.

    Portanto, o sucesso político do PT se dará em saber contornar e lidar com os desafios e contradições que a realidade atual lhe impõe.

    • Eduardo disse:

      e qual é amuleta dos outros que passaram o bastão pra Lula em 2003???? NENHUMA só fizeram espoliar o que é de todos os brasileiros, seguindo as lições de Portugal que levava tudo de bom que o país produzia, os que antecederam Lula, com raríssimas exceções quando não entregaram fecharam os olhos para quem levou grana do governo para cobrir rombos e roubos…. vide escândalo do Banco Econômico no site do Jornal do Brasil e verão o tanto de coisa ruim que já fizeram com o país, sem nunca terem feito nada para os pobres…. a não ser empobrece-los mais.

  3. Milton Peloso disse:

    cheguei a me emocionar. fazia muito tempo que procurava uma lupa. É ESTE O TEXTO!!!

  4. Ricardo da Mata disse:

    Primeiro é de péssimo gosto revelar o enredo de uma história, pois é falta de respeito com quem não leu o livro. Segundo, esta é uma análise alienada de quem não sabe realmente nada de política. A questão é que o PT nunca foi esquerda e este papo de choque de realidade é coisa de reacionário que acha impossível mudar o mundo. Inventar desculpas para o PT é fácil, difícil é ver a realidade…

  5. Martha Coelho disse:

    Obrigada! Valeu, uma reflexão que ajuda sair do apenas “joga merda na Geni” e dá um alento para pensarmos o que é realmente ser governo NESTE nosso mundinho.
    um abraço, Martha

  6. Eric Leonardo disse:

    Parabéns pelo texto, foi muito feliz na comparação entre o governo e o livro “O velho e o mar”.

Comentários