O apoio de um grupo mais fanático ao presidente Jair Bolsonaro permanece, mas seu poder de convencimento e contágio se perdeu completamente.
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Brasil Debate

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Luís Fernando Vitagliano

É cientista político e professor universitário. É colunista do Brasil Debate

 
Luís Fernando Vitagliano

O mito morreu de Covid-19

O 'pai da nação' perdeu seu manto sagrado. Quando o país enfrenta seu maior desafio, Bolsonaro continua a desorganizar a casa, expor as famílias ao caos e a não cuidar dos mais vulneráveis. Fica evidente que sua preocupação não é com a saúde e a vida, mas com as finanças e os negócios

20/04/2020

Mais uma vítima fatal do Covid-19 foi confirmada: o mito de Bolsonaro. Não, o governo ainda não morreu; embora sua sustentação se torne cada vez mais crítica daqui em diante. Tampouco e muito menos o próprio presidente tenha morrido. Este, pelo contrário, aparenta desfrutar de boa saúde. O que morreu, de fato, foi a subjetividade construída em torno da figura do presidente. Subjetividade tão cara que o tornou popular nas urnas e nas redes e que o fez sustentar medidas bastante impopulares de governo.

Para alguns, que não observam o reflexo da subjetividade na realidade concreta, isso pode ser pouco. Entretanto, engana-se quem pensa assim. Não há ponto de retorno. A carapaça de que se valia Bolsonaro de algum tipo de veneração e garantia à popularidade da personalidade política era o que dava unicidade à frágil coalizão de governo. A admiração de seus apoiadores era pedra angular da popularidade do presidente e o maior valor eleitoral de que este desfrutava. A referência ao mito era o capital político mais valorado de governo. Não que isso vá se perder completamente, ou que vamos ver aquele bolsonarista raiz totalmente arrependido, mas o poder de convencimento e contágio daqueles fanáticos se perdeu completamente.

Toda a campanha de Bolsonaro girava em torno do arquétipo do pai da nação. As palavras de ordem e orientação casam com a construção da figura do pai. Diferentemente da construção coletiva da mãe, existe na imagem do pai a noção patriarcal representando o rei, soberano, a representação do governo e que tem o cuidado com a família. Mesmo muitas daquelas pessoas que viam com pouco entusiasmo o bolsonarismo, reconheciam ou supunham que ele era preocupado com o povo. Por isso, essa imagem casa-se tão bem com a subjetividade construída nas redes sociais para as campanhas de Bolsonaro.

Porém, quando ele abre mão dos cuidados com a saúde da família, se descontrói esse arquétipo e nasce uma crise na própria imagem da liderança. Principalmente quando ficar claro (e está cada vez mais claro), que a proposta de voltar da quarentena de Bolsonaro não é uma preocupação com a renda do trabalhador, mas resposta à pressão dos negócios e dos donos de negócios que estão se prejudicando financeiramente com a alternativa de isolamento durante a pandemia – mas que têm condições de se tratar ou evitar o contágio. Não seria, portanto, uma decisão vinda da preocupação legítima de alguém que pensa no cuidado com a nação, mas atitude mesquinha de governante que cede à pressão do grupo de interesse que sustenta o governo.

A subjetividade do arquétipo, ou popularmente o mito em torno de um político funciona como uma camada protetora contra as críticas e ataques dos adversários. Mito é um tipo de teflon (nada gruda), é o escudo protetor da imagem que tudo se justifica; que tudo encontra uma desculpa. Humaniza e redime. Mas, agora, o rei está nu. Sua carapaça de governante sábio, de grande pai da nação, de xerife, de protetor das famílias se foi. Não dá pra justificar tamanha estripulia ou descaso durante uma crise tão forte. Sua imagem se arranhou e as desculpas perderam o sentido.

Bolsonaro sempre foi um representante medíocre do baixo clero político. E, ao contrário do diagnóstico que o subestimou, este demérito foi o grande trunfo da sua escalada à presidência. Ter uma base social na classe média baixa (de 2 a 5 salários mínimos de renda média) revelou sua jornada das insatisfações absorvidas do homem comum até as conquistas heroicas – a figura de Bolsonaro se encaixou na identidade dessa classe média ralé que viu nele uma a oportunidade de eleger alguém que demonstrava fortes tendências ao cuidado com a família e com um discurso de ordem que agrada este segmento social mais que a qualquer outro.

A categoria social mediana que apoia fortemente Bolsonaro é composta por pequenos comerciantes, donos de negócios familiares, pequenos empresários formais ou trabalhadores de renda média que estagnaram. Atualmente, este grupo olha o isolamento como inimigo maior que a pandemia. Protegidos na condição social relativamente estável, eles veem a economia com graves prejuízos com o isolamento e reagem agressivamente contra a ação do Estado regulando suas estruturas domésticas.

O lado negativo desse seguimento que ficou obscurecido e à sombra dos acontecimentos recentes se mostrou forte agora. A tendência egoísta, individualista, competitiva e predatória desta categoria social – que oprime e explora empregados e empregadas domésticas e seus funcionários dos pequenos negócios – aflorou em um salve-se quem puder. Ao revelar tão fortemente sua identidade com esse grupo político, Bolsonaro  desnuda não apenas seu pouco apreço à coletividade nacional, como o lado negativo e impopular da origem social que o elegeu. Se antes era possível esconder esses aspectos da personalidade política, agora o rei está nu.

A política tem uma lógica própria. O socialmente impossível se torna possível. A moral subverte. A ótica se transforma. Mentir muitas vezes não é problema e encontra desculpa, o conflito é parte do jogo de aliados, se aceita o intolerável e condena-se o razoável. Aquilo que na esfera doméstica, privada pode ser visto como abusivo, na política é tolerável. É a arte de tornar possível o necessário ou necessário o possível (na subversão das palavras de um ex-presidente). Mas nessa esfera também há delitos. E é o crime capital da política a incoerência. Dizer que fez e não fez, fazer que vai e não ir. Dizer que é e não ser…

O mito morreu. Se dizia o pai da nação, mas perdeu o manto sagrado. Quando o país enfrenta seu maior desafio público, Bolsonaro continua a desorganizar a casa, expor as famílias ao caos e a não cuidar dos mais vulneráveis. Por mais que o governo possa tentar se justificar do ponto de vista econômico, fica evidente que sua preocupação não é com a saúde e a vida das pessoas, é com o sistema financeiro e com os negócios. E, no fundo, fica mais que a decepção dos que acreditaram, aflora o sentimento de desencanto.

Morre o mito. O governo que caminha para a derrocada pode perder a sustentação a partir da queda de popularidade do chefe do Executivo. Não sabemos quanto tempo isso vai demorar, pode depender da emergência da própria pandemia. Mas, já não é mais possível esconder os erros através do argumento de que queria acertar, de que fez na melhor das intenções. E, para um governo que erra tanto, essa proteção era mais que fundamental.

Crédito da foto da página inicial: Sérgio Lima/AFP/CP

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