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Eduardo Fagnani

É professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (CESIT) e coordenador da rede Plataforma Política Social.

 
Eduardo Fagnani

O mito do déficit da Previdência

Publicado no Blog do CEE Fiocruz em 1-8-2016

O déficit da Previdência é um mito. Da Assembleia Nacional Constituinte, nos anos 1980, aos dias atuais, setores detentores de riqueza do país desenvolvem ativa campanha difamatória e ideológica orientada para demonizar a Seguridade Social e, especialmente, o seu segmento da Previdência Social (a Seguridade Social compreende, ainda, a Saúde e a Assistência Social). Há um esforço dessas elites em comprovar a inviabilidade financeira da Previdência, cujo gasto equivale a 8% do PIB, para justificar nova etapa de retrocesso em direitos garantidos pela Constituição de 1988.

De acordo com nossa Carta, a Seguridade Social deve ser financiada pelo Orçamento da Seguridade Social (artigos 194 e 195), um conjunto de fontes próprias e exclusivas: as contribuições sociais pagas pelas empresas sobre a folha de salários, o faturamento e lucro; e as contribuições pagas pelos trabalhadores sobre seus rendimentos do trabalho. Além disso, há a contribuição do governo, por meio de impostos gerais pagos por toda a sociedade. Entre esses impostos, destacam-se as contribuições sobre o faturamento (Cofins) e sobre o lucro líquido (CSLL), criadas também em 1988 para que o Estado integralizasse sua parte.

A Constituição não inventou a roda. O Orçamento da Seguridade Social segue o mecanismo clássico de financiamento tripartite (trabalhador, empresa e governo) dos regimes do Welfare State

Mas a Constituição não inventou a roda. Essas definições seguem a experiência internacional. Com o Orçamento da Seguridade Social, os constituintes estabeleceram o mecanismo de financiamento tripartite clássico (trabalhador, empresa e governo) dos regimes do Welfare State. Estudos realizados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2006, demonstraram que, para um conjunto de quinze países da OCDE, em média, os gastos com a Seguridade Social representam 27,3% do PIB e são financiados por 38% da contribuição dos empregadores; 22% da contribuição dos empregados; e 36% da contribuição do governo. Dinamarca, Irlanda, Luxemburgo, Reino Unido e Suécia têm a participação do governo relativamente mais elevada.

Na Dinamarca, por exemplo, mais de 50% dos recursos da seguridade social vêm do Estado; o restante, de trabalhadores e empresas. Em relação ao PIB, o trabalhador lá contribui com o equivalente a 2% do PIB e a empresa, com 3%, enquanto o Estado entra com 28% do PIB. Se na Dinamarca houvesse as mentiras, os mitos difundidos aqui, o rombo da Previdência daquele país seria de 28%! Por que não existe rombo? Porque contabilizam o orçamento da forma clássica, tripartite.

O que se insiste em chamar de déficit da Previdência nada mais é do que a parte que cabe ao Estado, que não se contabiliza

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O que aqui se insiste em chamar de déficit refere-se simplesmente ao fato de, desde 1989, tanto o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) quanto a área econômica não contabilizarem a contribuição do Estado. Adota-se o critério contábil segundo o qual a sustentação financeira da Previdência depende exclusivamente das receitas próprias do setor (empregados e empregadores). A parcela que cabe ao governo no sistema tripartite não é considerada, embora exista. O déficit nada mais é do que a parte do Estado que não se contabiliza.

Em 2012, de um total de R$ 317 bilhões utilizados para pagar benefícios previdenciários, as contribuições exclusivamente previdenciárias (empresas e trabalhadores) somaram R$ 279 bilhões (88% do total). A parcela estatal, de apenas 12%, portanto, corresponde a um montante muito inferior à terça parte (33%) que lhe caberia numa conta tripartite. Essa prática contábil cria e alardeia um falso déficit, para justificar mais reformas, com corte de direitos.

Se organizado da forma como ordena a Constituição, o Orçamento da Seguridade Social é superavitário, como mostram diversos estudos. Em 2012, por exemplo, apresentou saldo positivo de R$ 78,1 bilhões – as receitas totalizaram R$ 590,6 bilhões e as despesas atingiram R$ 512,4 bilhões (ANFIP, 2013).

Assim, como ocorria na ditadura, a Seguridade Social continua a financiar a política econômica.

A Seguridade Social é o mais importante mecanismo de proteção social do país e também um poderoso instrumento do desenvolvimento: contempla transferências monetárias para a Previdência Social (rural e urbana) e oferta de serviços universais pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Sistema Único de Assistência Social (Suas) e Sistema Único de Segurança Alimentar e Nutricional (Susan), bem como pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

À luz da Constituição, não há como se falar em déficit na Previdência Social. Na verdade, sobram recursos, que são utilizados em finalidades não previstas na lei. Todas as mudanças previdenciárias levadas à frente pelos países são para aperfeiçoar o sistema, não para destruí-lo, como aqui, de forma a capturar recursos para outras finalidades. Assim, como ocorria na ditadura, a Seguridade Social continua a financiar a política econômica.

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6 respostas to “O mito do déficit da Previdência”

  1. Gilvane disse:

    Wilson, de acordo com o texto, a contribuição que o governo dá provém de arrecadação de impostos.

  2. Lázaro Manoel de Alcântara Alcântara disse:

    Não sou o que poderia se convencionar, “um versado nesse assunto”, mas sobre ele, todo mundo conhece um pouco. Sou funcionário público aposentado, tendo contribuído por quase 30 anos para a PS e, graças ao Lula, estou sendo obrigado a contribuir novamente para a Previdência Social, pela segunda vez desde de 2003, cujos objetivos dessa medida, até hoje, nunca consegui compreender as razões, acho que deve ser para eu me “aposentar” de novo (risos), só pode. Falando sério, cheguei em Brasília em meados de 60, ainda adolescente e sempre vi e acompanhei a pujança e o vigor financeiro da Previdência. Tanto que, mesmo sem entender nada desse assunto à época, lembro-me muito bem que o que se comentava sobre ela, era de que era uma verdadeira “fortaleza” financeira e econômica, com verdadeiras cidades em bens imóveis e outros, espalhados por este país a fora. de norte a sul e de leste a oeste. Certa vez, ouvi ainda o seguinte comentário, bastante abalizado, de um profundo conhecedor do assunto – “A Previdência Social é um verdadeiro País dentro do Próprio País”. Será o que aconteceu de lá para cá? Por isso, concordo plenamente com a tese de mito atual, como deficitária.

  3. Wilson disse:

    Gostaria de entender como pode ser feito um financiamento tripartite com participação do governo, empresas e trabalhadores. As empresas e trabalhadores geram produção, geram riqueza. De onde vem o dinheiro do governo? Das empresas e dos trabalhadores, logo o financiamento do rombo é sempre coberto pelas empresas e trabalhadores. O governo nada produz, só serve para tomar o dinheiro do povo!

  4. Anderson Oliveira da Silva disse:

    Não tenho uma contribuição a dar, suponho, mas gostaria de ter uma forma de divulgarmos esta questão para a população em geral. Seria algo como encaminharmos este link para vários grupos de whatsapp, além de pressionarmos os nossos parlamentares para algo do tipo, se for para reduzir o déficit da União, o interessante seria começarmos a diminuir os privilégios dos próprios parlamentares, como a aposentadoria após dois mandatos somente, uma reforma administrativa ampla e séria no Poder Executivo, de cima para baixo e por aí vai…

  5. […] 17.08.2016 Do BLOG DO MIRO,  Por Eduardo Fagnani, no site Brasil Debate: […]

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