Em “Os homens explicam tudo para mim” (Editora Cultrix, 2017), Rebecca Solnit relata muitas das dificuldades que nós mulheres temos para ser ouvidas. Seja para defender um ponto de vista ou simplesmente poder falar.
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Brasil Debate

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Ana Luíza Matos de Oliveira

É economista (UFMG), mestra e doutoranda em Desenvolvimento Econômico (Unicamp), integrante do GT sobre Reforma Trabalhista IE/Cesit/Unicamp e colaboradora do Brasil Debate

 
Ana Luíza Matos de Oliveira

O machismo que silencia

Para a escritora estadunidense Rebecca Solnit, os ‘silenciamentos’ no dia a dia vão de pequenos incidentes sociais à morte violenta com os feminicídios. Tudo faz parte do que se chama abuso de poder

17/04/2018

Em “Os homens explicam tudo para mim” (Editora Cultrix, 2017), Rebecca Solnit conta o episódio em que conheceu um homem e este, ao saber que ela era escritora, não parou de falar sobre um livro sobre o qual tinha lido uma crítica no jornal. Não parou nem mesmo para dar a Rebecca a chance de dizer que era a autora do livro ao qual ele insistentemente se referia (e que ele no fim das contas nem tinha lido).

Obviamente, o caso é uma anedota, não generalizável, mas ilustra muitas das dificuldades de nós mulheres para sermos ouvidas. Solnit trata no livro de como a maioria das mulheres em geral luta em “duas frentes”: uma da defesa de seu ponto de vista, seja ele qual for; e outro simplesmente pelo direito de falar, ter ideias, ser reconhecida. Grande parte das mulheres precisa lidar com interrupções ou conversas paralelas constantes (quando digo constantes, digo mais constantes que aos pares masculinos), indicações de que não seriam interlocutores à altura… E não creio que os que o fazem, o façam necessariamente por mal (nada contra homens, até tenho amigos que são!), mas por uma questão social. Ou como diz Rebecca:

“Toda mulher sabe do que eu estou falando. São as ideias preconcebidas que tantas vezes dificultam as coisas para qualquer mulher em qualquer área; que impedem as mulheres de falar, e de serem ouvidas quando ousam falar; que esmagam as mulheres jovens e as reduzem ao silêncio, indicando, tal como ocorre com o assédio nas ruas, que esse mundo não pertence a elas. É algo que nos deixa bem treinadas em duvidar de nós mesmas e a limitar nossas próprias possibilidades – assim como treina os homens a ter essa atitude de autoconfiança total sem nenhuma base na realidade” (:15)

A esse respeito, a autora não menciona a chamada “síndrome do impostor”, mas seu raciocínio nos leva na mesma direção: entre as pessoas que assumem postos de liderança ou destaque, há para alguns uma sensação de que chegaram lá por sorte, por acaso e que a qualquer momento alguém descobrirá que ele/a é um impostor. Alguns indicam que as mulheres seriam mais acometidas por essa “síndrome”, pela constante dúvida sobre estar ocupando um lugar que não sentem ser delas. Os homens têm mais liberdade para errar, as mulheres se cobram mais.

Faço uma pausa aqui para explicar que, para abordar essa questão, parto do meu ponto de vista de mulher branca (e economista). Obviamente, se considerarmos questões raciais no Brasil, ou de status migratório, questões de orientação sexual e – não menos importante! – questões de classe social, a história é ainda mais grave.

Ou aquela já velha questão: mesmo dentro de movimentos progressistas alguns homens e mulheres ainda se recusam a ceder espaço a mulheres em geral ou negras/os – espaço esse que foi negado durante séculos, como discutimos aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Continuam dizendo que é preciso ouvir os especialistas, aqueles que dominam as questões por ”mérito próprio”, sem discutir como se constrói o conceito de mérito.

Ora, só falam aqueles que têm espaço para falar e se nunca ouvirmos as mulheres e os negras/os, por exemplo, nunca vamos ouvir as mulheres e a/os negras/os. Nunca teremos essas referências nos debates. Não é buscar negras/os e mulheres para “enfeitar” mesas ou simplesmente cumprir um critério, mas é efetivamente passar a ouvir uma grande parte da sociedade que é historicamente excluída – e vamos lembrar que negras/os são mais da metade da população brasileira e mulheres também são mais da metade da população brasileira – e têm outras vivências que podem nos ajudar a mudar nossa estrutura patriarcal de poder e colocar em prática outras formas de relação. É necessário colocar em prática a não hierarquização das formas de opressão: não é falar de raça e deixar de lado o conceito de classe, ou falar de gênero e deixar de lado as discussões sobre exploração no capitalismo, mas ter uma perspectiva que reconheça as diferentes formas de opressão hoje e efetivamente rompa com elas.

E ainda outro elemento para pensar: no episódio em que os Ministros do STF Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes recentemente se desentenderam, Barroso fez uma fala dura e muito repercutida contra Gilmar Mendes. A fala virou meme, poema, vídeo e até camiseta. Diziam alguns que era um sertanejo ou um pagode dos anos 1990. Mas a reação da internet teria sido a mesma caso as mesmas palavras tivessem sido proferidas por uma das Ministras? Ou é possível que, na boca de uma delas, o desabafo tivesse soado como “fora de tom”, “agressivo” ou simplesmente “histérico”? Histeria, aliás, como relembra Solnit, vem da palavra grega para “útero” e pensava-se ser causada por um útero deslocado. Quantas mulheres, ao longo da história e até hoje, não foram apelidadas de histéricas por terem tido atitudes fortes, as mesmas que nos homens são vistas como sinônimo de força e de “macheza”? Homens podem até ser agressivos por direito; mulheres precisam ser delicadas, e, se “saem do rumo”, isso certamente (!) tem a ver com hormônios ou com seu estado civil, para não dizer algo mais chulo.

Ao fim do livro, a autora mostra que inicia a obra com um exemplo de como foi tratada de forma condescendente por um homem (aquele pavão que explicava para a autora o livro dela mesma sem tê-lo lido) e termina falando sobre estupros e assassinatos. Segundo ela, a tendência é tratar cada uma dessas questões como coisas em separado (assédio, intimidação, espancamento, estupro, assassinato), mas o que ela diz ao fim é que “essas coisas, quando começam, vão escorregando ladeira abaixo”. A autora defende que esses silenciamentos no dia a dia, no debate público, se estendem de um “pequeno incidente social desagradável” até a morte violenta com os feminicídios. Assim, é preciso ter uma visão mais ampla do que é o abuso de poder, pois, quando se vê tudo em conjunto, os padrões predominantes ficam muito claros. Os homens se sentem mais legitimados (e por vezes com nosso apoio tácito) a silenciar as mulheres.

Mas a mensagem, no fim das contas, pode ser de esperança. Ou como finaliza a autora: “Eis que a caixa que Pandora tinha nas mãos e as garrafas de onde os gênios foram libertados hoje nos parecem prisões e caixões. Nesta guerra morrem pessoas, mas não é possível apagar as ideias”. Diante da escalada fascista no Brasil que também parece querer que as mulheres voltem à submissão, e diante dos companheiros nossos que também por vezes nos diminuem, não vamos nos calar.

Crédito da foto da página inicial: Paulo Pinto/Agência PT

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