Brasil Debate

Brasil Debate

Ricardo Luiz Chagas Amorim

É doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp

Keila C. Gonçalves Rosa

É pesquisadora e mestre em Comunicação e Sociedade pela UnB

 
Ricardo L. C. Amorim e Keila C. G. Rosa

O dilema do PSDB: social democracia ou direita?

Distanciado da origem social democrata, o PSDB adotou o receituário inspirado no Consenso de Washington, abraçou explicitamente o moralismo da velha UDN em 2010 e em 2014 saiu das urnas fortalecido à direita

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) nasceu quando o PMDB deixava de representar a aliança contra a ditadura e transformava-se, aos poucos, em uma força política indefinida. Naquele fim dos anos 1980, quando surgiu, o PSDB personificou a esperança de organizar uma alternativa social democrata em meio ao conjunto das forças políticas que emergiam no País.

Suas alianças e estratégia permitiram que, já em 1994, o partido chegasse à Presidência da República com a promessa de dar continuidade ao Plano Real, fundamental esforço de combate a inflação.

O controle de inflações elevadas, todavia, implica custos e redistribuição de renda. O governo do PSDB escolheu, então, os perdedores, os que pagariam a conta: os trabalhadores (1).

Foram os anos de liberalização da economia com abertura comercial (sem contrapartidas), privatização de empresas (em processos questionados), redução do papel do Estado (desarticulando e minando órgãos) e ênfase sobre a regulação (enfraquecendo políticas estratégicas de Estado).

O capital, por sua vez, pouco sofreu, pois o Governo Federal propôs uma rota de fuga para a multiplicação do dinheiro. Foi o período das incrivelmente elevadas taxas de juros, em que a compra de um papel da dívida pública garantia alto rendimento com baixíssimo risco.

A liquidez necessária aos ativos para serem aplicados no mercado financeiro foi conseguida, muitas vezes, com a venda de empresas nacionais ao capital estrangeiro.

Além desse receituário inspirado no Consenso de Washington, outras medidas aumentaram a distância do PSDB em relação à população menos abastada: o partido raro conversou com as organizações populares, os pobres foram pouco aquinhoados no orçamento da União, o governo aliou-se à direita mais conservadora (o Democratas, ex-PFL que, antes, foi PDS e Arena) e, por fim, emendou a Constituição no capítulo econômico, extinguindo qualquer viés nacionalista.

Como prêmio pela ajuda aos capitais nacionais e estrangeiros, o governo do PSDB recebeu apoio da imprensa nacional que, mesmo quando denunciava problemas, não aprofundava a investigação e tendia a esquecer rápido cada acusação (2).

Em 2002, todavia, outra força política ganhou as eleições ao encarnar a esperança na retomada do crescimento econômico e na melhor distribuição de renda no País. Nos anos seguintes, programas redistributivos foram melhorados e ampliados, o salário mínimo cresceu significativamente, cessaram as privatizações e os investimentos públicos foram retomados.

O setor externo facilitou a tarefa, pois a valorização das commodities exportadas gerou divisas suficientes para controlar, através de importações, qualquer pressão inflacionária.

O cenário favorável ao novo governo acuou a oposição peessedebista que, sem projeto político alternativo, passou a gritar o samba de uma nota só: corrupção, corrupção, corrupção. Era o início do período lacerdista do PSDB, a inesperada aflição de refundar o comportamento da velha UDN que acusava Getúlio Vargas de administrar um “mar de lama”. O contraditório era que o PSDB acusador também era acusado de ter seu próprio “mar de lama” (3).

Em 2010, o PSDB abraçou explicitamente o moralismo da velha UDN. Naquele ano, José Serra (PSDB) enfrentou Dilma Rousseff (PT) pela Presidência da República. Ali, a guinada conservadora do partido impressionou pelo uso de símbolos religiosos e partidarização de temas caros aos fiéis evangélicos e católicos. A escolha feita pelo PSDB, naquele momento, afastou-o de mais elementos primários da social democracia. Agora, o partido descuidava da defesa do Estado laico.

Do mesmo modo, a recente eleição de outubro de 2014 reforçou a opção do PSDB de afastar-se da social democracia e trouxe, também, uma preocupação: o partido encarnou, para parte dos eleitores, uma alternativa conservadora e de direita no cenário político brasileiro.

Clique para contribuir!

O motivo estava nas escolhas. Por exemplo, o PSDB continuou buscando apoio de figuras conservadoras do pensamento religioso, não se aproximou dos movimentos sociais, o programa de governo destacou a regulação e as funções liberais do Estado, o candidato cercou-se de economistas neoliberais, arrecadou o apoio do setor financeiro entre outras escolhas.

A imagem do candidato do PSDB, então, atraiu os insatisfeitos com o atual governo, mas principalmente os radicais de direita, muitos deles sem qualquer noção sobre o funcionamento da política, da economia ou da história do País, mostrando o lado para o qual pendia a candidatura.

Nesse ambiente, o PSDB, ao solicitar uma auditoria sobre a eleição presidencial, lançou uma nuvem de suspeita sobre o processo eleitoral e o Tribunal Superior Eleitoral. O pedido atendeu aos reclamos dos descontentes com o resultado da eleição e jogou gasolina sobre a brasa dos grupos de extrema direita. Aparentemente, a intenção limitou-se a agradar esses grupos para mantê-los ativos em ataques ao Governo Federal, como linha de frente da batalha política que se anuncia.

Em resumo, o PSDB precisou assumir o apoio da direita e caminhar mais alguns passos na mesma direção, encarnando, no imaginário dos brasileiros, a ordem e o status quo, em oposição a projetos populares.

O resultado, portanto, foi que o PSDB saiu fortalecido das urnas em 2014, mas fortalecido à direita e não em nome da social democracia. O crescimento do partido é um fato para seus líderes comemorarem, mas pode revelar-se lamentável quando se recorda o discurso de sua fundação: um partido social democrata que deveria buscar a construção da justiça social em uma nação marcada pela desigualdade e pobreza, aplicando-se, portanto, na luta pela distribuição de oportunidades, poder e cultura (4).

Diante disso, o melhor para o Partido da Social Democracia Brasileira seria surgir um verdadeiro partido de direita no Brasil, a fim de não ser mais confundido como tal. Poderia o PSDB, então, resgatar seu programa social democrata e, na oposição, chamar para si a relevante tarefa de ajudar o Brasil a ser mais democrático, justo, empreendedor e laico.

Notas

(1) Os trabalhadores sofreram, no período, as maiores taxas de desemprego já registradas no país. Na Região Metropolitana de São Paulo, a taxa de desemprego cresceu de 12,6%, em dezembro de 1994, para 20,4%, em abril de 2002.

(2) Esse comportamento da mídia nacional fica muito claro a partir dos números coletados pelo Prof. João Feres Junior (IESP/UERJ), reunidos no site Manchetômetro.

(3) As acusações de compra de votos de parlamentares na emenda constitucional que permitiu a reeleição para cargos no poder executivo, as desconfianças de favorecimento nos processos de privatização de grandes empresas públicas e a condenação do banqueiro Salvatore Cacciola com problemas junto ao Banco Central são alguns dos casos mais famosos do período.

(4) O Programa Partidário aprovado no III Congresso Nacional do PSDB parece relativizar o documento de fundação de 1988. Ver AQUI.

 

Clique para contribuir!
Share

10 respostas to “O dilema do PSDB: social democracia ou direita?”

  1. Mauro Martins disse:

    Com uma inflação altíssima, que destruía nossa economia, a estratégia do Plano Real foi impor à força a estabilidade do nosso mercado da seguinte forma:
    – desestimulando o consumo, mantendo a taxa de juros básicos (Selic) elevada. Conforme a lei da oferta e da procura, quanto maior a procura, mais elevados são os preços e quanto menor a procura, menores são os preços. A taxa de juros elevada dificulta o crédito, empréstimos, financiamentos, parcelamentos, que são atividades de muitos consumidores. Sem eles, diminui a circulação de dinheiro, diminui a procura e consequentemente, o preço dos produtos baixa.
    – mantendo o câmbio fixo, no qual 1 real equivalia a um dólar. A moeda forte faz com que os produtos nacionais compitam com maior dificuldade com os produtos estrangeiros. Por exemplo, um produto que custa R$ 40,00, com o dólar custando R$ 4,00, custaria apenas USD 10,00. Supondo que esse produto compita com outro que custe USD 18,00. Com o dólar custando R$ 1,00, o produto passa a valer USD 40,00, o que força o empresário a baixar seus custos, para que seu produto custe USD 18,00 ou menos ou aumentar muito a qualidade do que vende. Na época, muitas empresas que não eram suficientemente competitivas, fecharam, pois os consumidores compravam produtos estrangeiros por um baixo custo.

    Essas foram medidas que foram extremamente necessárias para a época, visto que ninguém ainda havia achado uma solução. Por conta delas, muitas empresas faliram, muitos trabalhadores foram jogados nas ruas. Isso não quer dizer que o PSDB seja liberal, tanto é que a base para os programas sociais do governo Lula foram todas criadas pelo PSDB, como Bolsa Escola, Vale Gás e outros, que posteriormente se tornaram o Bolsa Família. Eu, particularmente, sou contrário às políticas de esquerda, pois geralmente oneram o Estado e não trazem riqueza alguma, apenas usam a estrutura de riqueza deixada pelas ideologias liberais e de centro. É o velho ditado: o socialismo termina quando o dinheiro dos outros acaba! A simpatia que a direita tem pelo PSDB talvez seja porque, entre as esquerdas, ele é um partido grande situado mais ao centro, apesar de não deixar de ser farinha do mesmo saco que os demais partidos brasileiros.

    • Luciano disse:

      O PSDB abandonou a social democracia e provavelmente nunca mais vai retomá-la. A direita simpatiza com o PSDB porque virou um partido conservador, e não porque está mais ao centro das esquerdas. Se o PSDB se mantivesse como uma ideologia social-democracia jamais receberia apoio dos conservadores.

  2. Keila C. G. Rosa disse:

    Agradeço muito os comentários, considero-os pertinentes. Faremos (eu e Ricardo) reflexões sobre eles e quem sabe logo mais continuemos o debate em torno do assunto. Grande abraço.

    • Amanda Lopes disse:

      Isso mesmo Keila. Acho muito interessantes suas análises, mas acho que, como muitos outros autores, você e o Ricardo criticam o PSDB ( com razão) e , em contrapartida, tecem elogios ao PT. Infelizmente, hoje, tanto o PT quanto o PSDB perderam em grande parte a ideologia democrática que sustentavam. Chamar o PT de partido de esquerda, a favor dos direitos e bem estar dos trabalhadores é uma insanidade. O Lula e sua família obtiveram um enriquecimento assombroso. O Brasil precisa é de uma reforma eleitoral, o voto tem que ser ao candidato e não ao partido, porque a confiança na transparência partidária já esvaiu-se a muito tempo.

  3. Marcos Vinicios disse:

    O DEM, que antes havia sido Arena e PFL, é o partido que doou terreno para o construção do Instituto Lula. Por isso meus atores Ricardo Amorim e Keila, saibam que o maior líder da esquerda do Brasil, o Lula, terá um instituto num terreno que fora presenteado por esse mesmo partido que vocês conhecem como de ultra direita, o DEM e antigo PFL. O Instituto Lula existirá graças ao PFL, já pensaram nisso??!!!

  4. Claudio Casseb disse:

    Prezados Ricardo L. C. Amorim e Keila C. G. Rosa,
    Essa abordagem é interessante. Concordo com tudo!O PSDB é da burguesia, da direita e representa os banqueiros, o agronegócio e os donos de iate. O PT não (Acho que só no caso da FRIBOI, mas o Lulinha já desmentiu e afirmou que não é empresário e nem sócio dessa empresa). Mas tirando a FRIBOI e as doações milionárias que essa empresa derramou de dinheiro durante às eleições, tudo fica normal. Acho apenas que faltou mencionar alguns outros pontos, como a importância que teria PROER para o combate implicável aos impactos da crise financeira de 2008 (elogiado a POSTERIORI pelo presidente Lula, que quando não mais na oposição, foi ouvir conselho do ex-presidente do BC Henrique Meirelles – deputado do PSDB e banqueiro internacional – pois o PT de fato enfrentou de forma dura os impactos da crise e blindou a economia brasileira porque seu escudo foi a semente brotada durante o PROER. O papel do INCRA, vocês deveriam abordar, visto durante os anos de FHC, se que fez expandir a qualquer custo o número de distribuição de terras e de assentamentos às famílias rurais, e ainda; da criação das Agências Reguladoras Nacionais, que serviriam para arbitrar as imperfeições e falhas de mercado e assim punir rigorosamente as operadoras de telefonia cúpidas, .Mas por favor, da próxima vez não deixem de escrever um texto sobre o Joaquim Levy e a Katia Abreu. Já que são conhecedores de PSDB de PFL, gostaria renovassem seus conceitos e fizessem uma comparação para depois concluírem se há mais divergências ou convergências entre PT e PSDB.

  5. ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA disse:

    Amigos, não atino com qualquer justificativa para uma social-democracia sem
    burguesia nem trabalhadores.

  6. Eduardo Rezende disse:

    Importante e interessante a análise, lembro-me que no início dos anos 90, o PSDB realmente significava, no imaginário de muitos cidadãos, uma esperança, um gás novo – isso vindo pelo sucesso do Plano Real no controle da inflação, o que foi sentido no boldo de todo mundo. Na época era uma alternativa que parecia que ia melhorar tudo… e era o menos ruim no mar das forças políticas.

  7. […] Por Ricardo L. C. Amorim e Keila C. G. Rosa, de Brasil Debate […]

    • Marcos Vinicios disse:

      Durante a crise de 2008, o mundo inteiro jogou a taxa de juros para baixo e só o Brasil continuou com a política dos juros altos na época. Todos os setores de mídia criticam a decisão do presidente Lula em manter os juros altos. Tava claro o ESPAÇO que se tinha para baixar a taxa de juros mas o governo não o fez. Não fez porque o presidente do BC era o Mr . Bank Boston Henrique Meirelles e ficou provado o rabo preso que PT tinha com os banqueiros. O Lula entupiu o rabo dos banqueiros de dinheiros!!!! Nunca um partido foi tão generoso aos banqueiros quanto foi o PT!!! E esses autores, ao invés de relembrarem esse fato, ficam falando de PSDB. Eles se acham de esquerda… coitados!!!!

Comentários