Para o autor, a crise europeia escancara o fato de que o capitalismo não só não erradica a pobreza, como torna a criá-la. A vitória do Syriza, na Grécia, mostra, porém, que pode estar se criando um caminho para frear os efeitos deletérios da política de austeridade.
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Bruno De Conti

É professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON/Unicamp)

 
Bruno De Conti

O capitalismo produtor de pobreza e a reação do povo grego

A erradicação da pobreza, no capitalismo, jamais será definitiva. É o que se constata quando, no coração dos países tidos como desenvolvidos, o capitalismo está novamente criando pobreza. A vitória do Syriza, como brado da rejeição à austeridade a qualquer preço, ao menos dá esperança

O capitalismo é uma máquina de produção de riqueza e de pobreza. Produz tecnologias a serviço da humanidade – daí deriva seu pretenso caráter de “promotor do progresso” –, mas enquanto produz abundância e ostentação para alguns, produz, complementarmente, escassez e miséria para outros.

O que parece contraditório nada mais é do que o próprio modus operandi do sistema. No mesmo ato de geração de riqueza, o capitalismo funciona produzindo e reproduzindo pobreza. E é exatamente por isso que essa pobreza é inaceitável, pois não resulta de acidentes naturais ou falta de recursos. É uma pobreza produzida e reproduzida incessantemente, nas periferias das grandes cidades e na periferia do mundo.

Isso nos leva a uma constatação muito forte, mas esclarecedora: a erradicação da pobreza, no capitalismo, não será jamais definitiva. E o momento atual escancara essa constatação, já que, no coração dos países tidos como desenvolvidos, o capitalismo está novamente criando pobreza.

Na Europa Ocidental, referência do Estado de Bem-Estar, o capitalismo, em pleno século 21, produz de novo pobreza em massa e in loco – porque alhures ele nunca deixou de produzir. É evidente que essa pobreza não acomete a todos – isso também faz parte do modo de funcionamento capitalista –, mas, na periferia da zona euro, verdadeiras multidões são arremessadas a uma condição de elevada vulnerabilidade econômica e social.

E a causa não é uma guerra, nem tampouco uma catástrofe natural, mas apenas e tão somente uma crise econômica. Uma crise profunda, mas, ainda assim, uma crise construída pelo próprio capitalismo.

Estando a crise em curso, resta lidar com ela, minimizando seus efeitos. A própria palavra “crise” vem do grego e significa “transformação”, podendo inclusive assumir alguns aspectos positivos. O importante, então, seriam os rumos dessa transformação. E quais são eles? Esses rumos vêm sendo determinados pela chamada Troika, que congrega membros do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia.

Para solucionar a crise, essa tríade escolheu como remédio simples e nada inédito a imposição da austeridade fiscal, condicionando todo tipo de auxílio financeiro à “disciplina orçamentária” dos diversos governos nacionais. Afinal, a queda nos gastos públicos tornaria mais viável o pagamento das dívidas. E dívidas são dívidas.

Tem início, então, a crônica de uma tragédia anunciada. O caso da Grécia é o mais eloquente e os efeitos da crise cum austeridade são simplesmente devastadores. O PIB grego é hoje 30% menor do que era antes da crise. A taxa de desemprego mais do que triplicou de 2008 até agora, alcançando a marca de 27,5%. Entre os jovens com menos de 25 anos, essa taxa atinge inacreditáveis 55,3%!

Em função disso, muitos gregos estão saindo do país, em busca de trabalho e dignidade. Funcionários públicos foram demitidos ou tiveram seus salários rebaixados. Idosos aposentados sofreram cortes nos seus rendimentos. Famílias sem condições de pagar suas contas tiveram a eletricidade cortada ou foram despejadas de suas casas. Problemas de saúde pública se alastram e até mesmo a malária, que estava erradicada do território grego, reapareceu. Fome e desnutrição voltaram a ser uma realidade. A mortalidade infantil se elevou.

Falta de recursos? Não. Isso é simplesmente a pobreza sendo re-produzida pelo próprio capitalismo. Nada diferente do que já ocorre na imensa maioria dos países do mundo, especialmente na África, Ásia e América Latina. Mas chama a atenção porque mostra que a erradicação definitiva da pobreza, no capitalismo, é uma falácia. No que depende da lógica de funcionamento do capitalismo, a perenidade de um padrão de vida digno para o conjunto da população é inconcebível.

E se essa erradicação da pobreza, dentro do capitalismo, não será nunca definitiva, como empenhar esforços para mantê-la minimamente perene? A própria Grécia dá a resposta: por meio das lutas sociais. O contexto grego revela, infelizmente, a força do capitalismo produzindo pobreza; e revela, felizmente, a força do povo reagindo a esse rebaixamento no seu padrão de vida.

Não sabemos o que virá, mas a vitória do Syriza como brado da rejeição à austeridade a qualquer preço dá ao menos a esperança de que essas transformações assumam uma nova direção.

E no Brasil? O país é diferente e o contexto também, mas o remédio empurrado goela abaixo é o mesmo: a austeridade fiscal. E o risco inquestionável é que nos enredemos em um marasmo prolongado e que se retroalimenta, como aquele vivido hoje pela zona do euro, laboratório vivo e atual dos efeitos deletérios de uma política de austeridade em uma economia já combalida.

Se essa dinâmica perversa ameaça o padrão de vida da população até mesmo na Europa, que diremos dos países periféricos? A melhoria verificada nos últimos anos no padrão de vida de parte importante da população brasileira não está de forma alguma assegurada. Ao contrário, está em xeque. Eficiente por excelência, o capitalismo rapidamente destrói as conquistas sociais pretéritas, sejam as mais antigas e amplas, como as europeias, sejam as mais recentes e restritas, como as brasileiras. E a única maneira de manter, aprofundar e ampliar conquistas é por meio do enfrentamento social.

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3 respostas to “O capitalismo produtor de pobreza e a reação do povo grego”

  1. Caio disse:

    O artigo foi muito bem escrito, mas ignora algumas verdades. Cita a Grécia como um país capitalista que está passando dificuldades por causa do capitalismo. Mas se esquece de relatar todos os gastos insustentáveis que houve nesse país ao longo de décadas com welfare state, os quais ela quase sempre protelou o pagamento. Cita a África e a América Latina como países capitalistas, que são pobres por causa do capitalismo. Ignora, porém, todas as políticas públicas populistas características desses países, que os levou a ter dívidas imensas e afastou investimentos estrangeiros. Ignora todas as ditaduras socialistas que existiram na África durante o século XX. Ignora o fato de que países como França, EUA e Japão foram, por muito tempo, baseados essencialmente nas liberdades individuais e liberdades econômicas e, por isso, enriqueceram, praticamente eliminando a miséria. Ignora que pequenos países super liberais, com pouquíssimos gastos estatais, poucos impostos, poucas regulamentações, Como Liechtenstein e Singapura estão entre os mais ricos do mundo, levando em conta a razão entre a riqueza e a população. Ignora o evidente fato de que o capitalismo gera riqueza e o socialismo distribui, quase igualitariamente, a miséria.

    • Caroline Teixeira Jorge disse:

      Excelente artigo, Bruno. O capitalismo tende a reforçar, e não mitigar as desigualdades. Os debates nas últimas eleições mostraram como o tema é pouco enfrentado e refletido na própria sociedade.

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