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Entrevista Costas Lapavitsas

‘O capitalismo, mais uma vez, não está funcionando’

A frase é do economista grego Costas Lapavitsas, eleito deputado pelo Syriza em 2015. Para ele, a crise exige pensar que o anticapitalismo é insuficiente e que a esquerda precisa recuperar a credibilidade

Por Ana Luíza Matos de Oliveira e Paula Quental

Um dos convidados internacionais do 22º Encontro Nacional de Economia Política (Enep), realizado na Unicamp, em Campinas, entre 30 de maio e 2 de junho, o economista grego Costas Lapavitsas, eleito deputado pelo Syriza em 2015, proferiu uma das palestras mais concorridas do encontro, sobre o tema “Políticas de austeridade e as alternativas na periferia em tempos de crise do capitalismo”. Professor de economia na Escola de Estudos Orientais e Africanos, da Universidade de Londres, a SOAS, e autor de vários livros, ele é conhecido por suas críticas ao sistema financeiro ocidental moderno, o qual se dedica a estudar, e às políticas de austeridade.

Lapavitsas defende uma ruptura da Grécia com as políticas da União Europeia e menciona com frequência a existência de uma periferia na zona do euro formada por países que, como o seu, têm pouco a ganhar com o mercado comum. Também é um dos maiores entusiastas de um movimento que unifique as esquerdas dos vários países do bloco, embora admita que este seja um processo lento, de longo prazo.

Em entrevista exclusiva ao Brasil Debate, falou de como a esquerda anda combalida em todo o planeta, e pregou que ela ultrapasse o discurso apenas anticapitalista para trazer propostas “positivas” que conquistem os cidadãos, em geral bastante cansados e desiludidos. “A esquerda perdeu confiança em si mesma e a aproximação com a classe trabalhadora, porque perdemos a credibilidade”, admite. “O momento é de um processo de cura. De recriação da esquerda. De levantar, se reerguer.”

Comentou, ainda, sobre a importância da novidade representada pela micropolítica de gênero e raça, mas alertou que esta não deve se distanciar da questão da luta de classes, para que a esquerda continue a falar a mesma língua dos trabalhadores.

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Lapavitsas, na Unicamp: ‘Austeridade não é o caminho’. Foto: Álvaro Micheletti

Leia, a seguir, a entrevista:

Brasil Debate – Existem alternativas para países emergentes, como o Brasil, que sejam respostas à retomada agressiva do neoliberalismo pós-crise de 2008? No caso do Brasil, a esquerda assiste, quase perplexa, a uma ofensiva das classes dominantes para impor reformas ultraliberais. Que opções ela tem diante desta ofensiva?

Costas Lapavitsas – A crise dos anos 2008-2009 atingiu vários países desenvolvidos, além dos Estados Unidos, que foi onde ela se iniciou. Atingiu vários países, desenvolvidos e em desenvolvimento, de forma sincronizada, e rapidamente. Isso porque atingiu o comércio de commodities, o fluxo de capitais, os investimentos estrangeiros. Houve impressão por parte de algumas pessoas, em vários países desenvolvidos, de que se poderia continuar no mesmo caminho e a crise terminaria, tudo ficaria OK. Que seria uma situação de crise temporária. Elas estavam dormindo. Agora nós sabemos a realidade. A situação atinge o mercado global e países como o Brasil. Não se imaginava a duração dessa crise e antes dela países da América latina com governos comandados pela esquerda falharam em suas economias com foco no extrativismo e em commodities. Falharam em perceber o que estava acontecendo na economia mundial nas últimas duas décadas. Deveriam ter desenvolvido outros setores da economia, de maneira mais equilibrada. Mas nós sabemos que a mudança é uma coisa difícil.

Brasil Debate – Você acredita que o capitalismo está em crise agora?

Costas Lapavitsas – O termo crise tem que ser usado cuidadosamente. A esquerda fala em crise o tempo inteiro. E às vezes não significa muita coisa. Óbvio que não estamos em crise como estávamos em 2008-2009. Aquela realmente foi uma crise. Mas nós estamos em um período histórico de transformação nas últimas três décadas, com a globalização, a financeirização e o liberalismo. Não está claro. No largo senso, o capitalismo, mais uma vez, não está funcionando. Temos que pensar que não se trata apenas do pensamento anticapitalista. De não apenas se opor ao capitalismo. Precisamos buscar alternativas positivas ao capitalismo.

Brasil Debate – O que você quer dizer com alternativas positivas ao capitalismo?

Costas Lapavitsas – Temos que propor coisas positivas, alternativas que unam as pessoas em um mesmo propósito, não somente criticar o capitalismo. Não basta ser anticapitalista. Temos que propor alternativas socialistas, associativismo. Basicamente alternativas socialistas. O capitalismo iniciou uma nova etapa, mas não terminou. Não é o fim.

Brasil Debate – O que a crise da Grécia, Portugal, Espanha e outros países da União Europeia submetidos aos rigores da Troika tem a ensinar ao Brasil? E, ao contrário, o que os últimos governos populares do Brasil (com Lula e Dilma), seguidos de um golpe dado pela direita, têm a ensinar à Grécia?

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Costas Lapavitsas – Isto é muito interessante. Na Europa há claramente uma periferia. Uma nova periferia, conformada pelos países que vocês mencionam. Assim, a Europa tem a ensinar à esquerda sul-americana que as políticas de austeridade que nós fizemos nos últimos sete anos produzem resultados, que promovem a estabilização, mas destroem o emprego, destroem a produção e, na verdade, enfraquecem a economia. É um ponto muito importante para considerar. A perspectiva de crescimento com a estabilização, que na verdade não existe, é a mais importante lição que poderá ser aproveitada pelo Brasil. O resultado das políticas de austeridade na Europa são um equilíbrio da economia muito problemático e uma economia muito fraca. Não se podem cometer os mesmos erros no Brasil. Apenas porque eles querem estabilizar. Austeridade não é o caminho.

Brasil Debate – Diante de uma crise do capitalismo de grandes proporções, como a que estamos vivendo, por que a esquerda – em nível mundial – está com dificuldades de propor saídas e ganhar corações e mentes? E, ao mesmo tempo, assistimos ao fortalecimento da direita?

Costas Lapavitsas – Eu não sei muito sobre o Brasil, mas eu posso dizer sobre a Europa. Na Europa há duas razões. A primeira é que por muito tempo a esquerda foi apenas anticapitalista. Quando a esquerda propõe na Europa qualquer coisa concretamente é uma proposta para consertar instituições que já existem. E isso vem falhando, sistematicamente. A esquerda perdeu confiança nas ideias mais radicais, de socialismo. Ela parou de ser mais radical porque não confia mais nessas ideias.

A segunda razão, ligada à primeira, é que a esquerda deixou de ser conectada aos trabalhadores, como era antes. Da forma orgânica anterior. Parou de falar dos interesses dos mais pobres, de suas ideias, aspirações. Deixou de falar a mesma língua dessas pessoas. As políticas de raça e de gênero se tornaram mais evidentes. A partir do momento em que a esquerda abandona a política clássica de classes sociais e a substitui pelas políticas sexuais, de gênero, ela para de falar a língua das classes sociais, dos pobres, das classes trabalhadoras. Fala com pessoas com certo nível de educação, basicamente da classe média. Esquece sua origem plebeia. A esquerda precisa falar a língua das classes trabalhadoras e isso é muito importante para a esquerda na Europa.

Brasil Debate – Você acha que essas questões de gênero e raça não deveriam estar interligadas com as de classes?

Costas Lapavitsas – Completamente. Deveriam estar conectadas sim. Estamos falando de identidade política. A gente deveria perceber que classe e nação são um tipo de identidade. A questão da classe, da nação, é tudo meio unificado. Ao esquecer a questão de classe, a esquerda se torna supérflua.

Brasil Debate – Nós ouvimos falar sobre movimentos e partidos da esquerda dos países da zona do euro de se unirem para propor algumas medidas de enfrentamento da Troika, como a de criar uma moeda complementar ao euro e estatizar o setor financeiro e energético. Isso é verdade? Como está o andamento dessas conversas e propostas?

Costas Lapavitsas – Sim, isso está ocorrendo e por duas razões… A primeira é o nível geral da política. Uma grande parte da população grega se sente cansada, exausta, desiludida, zangada por tanta exclusão. Ela sente que foram tentadas muitas opções diferentes nos últimos anos, também por parte da esquerda, e todas falharam, causando desapontamento. A desilusão é em relação à política de uma forma geral. É muito importante que isso seja levado em conta. A segunda razão é que os cidadãos se sentiram traídos em vários pontos pela esquerda. Esse é o estrago feito pela esquerda, e suspeito que esse é o estrago feito pela esquerda através do mundo. O prejuízo na Grécia é enorme. A esquerda perdeu confiança em si mesma e perdemos a aproximação da classe trabalhadora, porque perdemos credibilidade. Então para a gente é um tempo muito difícil. O momento é de um processo de cura. De recriação da esquerda. De levantar, se reerguer. A Grécia tem a necessidade de dar um tempo das instituições capitalistas. A esquerda precisa reinventar a ideia de soberania, o que isso significa, de soberania da população, como nós definimos o conceito do cidadão na Grécia, e como isto está conectado à classe trabalhadora. Como nós podemos nos unir de novo, porque a economia está indo muito mal, há ainda a questão da imigração, o movimento dos refugiados em direção à Europa. A Europa está sendo desafiada a redefinir a sua população nacional, a soberania popular. Nós estamos vivendo um processo de reunificação das esquerdas, pois observamos que o que acontece na esquerda na Espanha é semelhante ao que acontece com a esquerda na França e nos outros países. O movimento é de reunificação, mas não espere um processo rápido.

Brasil Debate – É verdade que a Grécia vive hoje o florescimento de iniciativas anarquistas, de organizações autogestionárias, como resultado da crise e no vácuo do desmonte do próprio Estado?

Costas Lapavitsas – Eu tenho razão para acreditar que isso está acontecendo. Sempre houve várias formas de anarquismo na Grécia, mas o que há de novo agora? De fato nesse momento na Grécia há uma influência forte do fascismo, e assim também é com o anarquismo. Você pode entender o porquê de isto estar acontecendo de muitas diferentes maneiras, claro. No caso do anarquismo, eles se unem de forma descompromissada, cada um faz seu trabalho, mas há um movimento forte de querer mudar as coisas. O sentimento de traição dos cidadãos dá um impulso extra a esse movimento. Então definitivamente algo está acontecendo. É difícil de dizer o que é. E há tempos que nós não tínhamos tanta violência, a violência terrorista. O anarquismo cresce nesses tempos. Em época de crise, em momentos de fraqueza (do capitalismo), o anarquismo cresce. Eu acho que eles estão se expandindo e seduzem principalmente os mais jovens. Potencialmente, pode ser uma forma de evolução da esquerda, por meio do que chamamos de esquerda radical. Um tipo de esquerda incorruptível na sua proposta de mudar a sociedade. Estamos diante de um desafio e de uma oportunidade para a esquerda.

Brasil Debate – Gostaria de fazer algum comentário?

Costas Lapavitsas – Sim, eu penso que a esquerda latino-americana especialmente a esquerda que eu vejo no Brasil, na Argentina, tem muitas coisas a ensinar à esquerda europeia. Eles deviam perceber isso. A esquerda europeia está num momento fraco e a esquerda latino-americana tem coisas as mostrar sobre formas de lidar com o capitalismo financeiro, o capitalismo global. Me refiro ao jeito com que vocês lutam contra isso. Até porque existe a histórica exploração da América Latina pela Europa, experiência que a Europa desconhece. O intercâmbio, o fluxo de informação, ainda está muito no começo, é muito embrionário. Temos muito que aprender uns com os outros.

Crédito da foto da página inicial: Álvaro Micheletti

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4 respostas to “‘O capitalismo, mais uma vez, não está funcionando’”

  1. Pedro A. Figueira disse:

    Vou começar dizendo o óbvio: o mundo está vivendo um processo de transformação muito profundo. Mas talvez não seja tão óbvio dizer que esta é uma crise do mundo capitalista de uma natureza profundamente diferente daquelas que tivemos no curso dos últimos dois séculos. Estas foram crises financeiras, comerciais, mas sempre marcadas pela superprodução, que era condição para que as mazelas capitalistas assumissem sempre proporções trágicas, predominantemente do lado dos trabalhadores. Todas elas foram, sempre, acompanhadas de um processo de concentração da riqueza, até porque elas significaram, como regra geral, explorar a classe trabalhadora até a liquidação de contingentes não pequenos.
    Mas a crise atual, que mantém todos esses aspectos, sobretudo aspectos de um retorno generalizado ao escravismo, traz coisas muito novas. É dessas que pretendemos tratar a seguir.
    Antes, no entanto, de entrar nelas, gostaríamos de assinalar que desde a crise que desencadeou a Primeira Guerra Mundial o capitalismo esteve muito próximo de mostrar que o mundo já estava precisando de relações sociais e políticas novas. Não é por acaso que tivemos a realização da primeira “ameaça comunista” com o socialismo na União Soviética.
    Mas voltemos ao nosso propósito principal que é tentar mostrar que a crise atual contém elementos novos que não podem ser ignorados ou desprezados, pois estamos vivendo uma sanha destruidora que só pode ser entendida se considerarmos, por exemplo, o que aconteceu nos momentos de decadência dos modos de produção que antecederam o capitalismo. Creio não ser exagerado nem um recurso retórico afirmar que a partir de agora passamos a viver a tragédia capitalista, que encerra uma forte ameaça à civilização humana.
    Por que tragédia? Sem entrarmos propriamente em pormenores, vamos direto ao que, pensamos, está acontecendo. Cremos que não é exagerado chamar de tragédia ao que está acontecendo internamente ao capitalismo. Em primeiro lugar, o capitalismo é um modo de produção (ou foi), e, enquanto tal, é substancial que ele produza, em primeiro lugar, e sobretudo, as condições necessárias à sua reprodução. E assim foi. Mas, as coisas mudaram. E como mudaram.
    Quando o capitalismo deu o parto ao monstro chamado nazismo, aí tivemos uma demonstração clara de que a destruição de riquezas, sobretudo de homens, passaria a ser o seu propósito principal. Passou, claramente, de modo de produção ao um modo de destruição.
    E como se apresenta, agora, este modo de destruição? Acho que entender profundamente, ou seja, cientificamente, este processo, e porque ele se tornou necessário, passa a ser condição sine qua non para enfrentar a tragédia, revolucionariamente.
    Falemos deste modo de destruição interna ao próprio capitalismo, que é o que está acontecendo numa velocidade muito grande e que resulta concretamente nesta estupenda concentração financeira da riqueza. Falar da divisão atual da sociedade em 99% e 1% não é mais um recurso retórico. Esta é a realidade mais real que existe. E esta financeirização da vida, o que é que ela significa? Nada mais, nada menos, do que o capital realizando aquela tarefa que Marx estudou em suas obras, mas principalmente no Capital. Como ninguém, Marx analisou a trajetória necessária do capital, e mostrou que, ao perder sua função social, ele converteria crescentemente em dinheiro inútil o capital. Assim, sua sobrevivência se tornaria cada vez mais difícil. De força essencialmente produtiva, passaria a ser uma inutilidade financeira. Eis o que ainda, por força do hábito, chamamos de capitalismo, ou de capital.

  2. Carlos Tramontina disse:

    Pretencioso e ruinzinho.

  3. Jorge Figueiredo disse:

    O papel do Sr. Lapavitsas e’ dar uma cobertura “de esquerda” aos bandalhos do governo SYRIZA-ANEL. E’ uma falta de vergonha fazer belos discursos muito avançados nos meios academicos e continuar a ser militante do SYRIZA e da sua politica de traição nacional. As pessoas devem ser julgadas não so’ pelos discursos que fazem mas tambem, e sobretudo, pela coerencia entre os seus actos e as suas palavras.

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