Os trabalhadores, além de forçados a deixar o confinamento para retornar ao contato social, são expostos no caminho de casa ao local de trabalho, e vice-versa, a um risco gigantesco de contágio.
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Wagner de Alcântara Aragão

É jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco

 
Wagner de Alcântara Aragão

No transporte, o risco máximo de disseminação do novo coronavírus

Com a ‘flexibilização’ da quarentena, os trabalhadores obrigados a retornar às atividades são colocados duplamente em situação de perigo: pelo retorno ao convívio no local de trabalho e, principalmente, em ônibus, metrôs, trens e barcas lotados

28/04/2020

Desde que prefeituras e governos estaduais estabeleceram a quarentena, os trabalhadores de atividades essenciais não conseguem evitar as aglomerações em terminais, estações, e em ônibus, trens, metrôs, barcas e VLTs. Escancarando uma de nossas mazelas – o transporte público tratado como mercadoria, não como serviço –, as empresas concessionárias têm reduzido frota e horários.

As superlotações são, pois, inevitáveis. Algumas autoridades têm emitido ordens (decretos, portarias) proibindo, por exemplo, que ônibus circulem com passageiros em pé. São, no entanto, medidas inócuas, afinal as pessoas embarcam em veículos com os assentos tomados não porque gostam de viajar espremidos; sim porque não há outra opção. Seria preciso esperar um dia inteiro até passar no ponto um coletivo com lugar vago.

Diante da “flexibilização” da quarentena – em algumas cidades já em vigência e, em outras, sendo cogitada – o problema tende a piorar. Os trabalhadores, além de forçados a deixar o confinamento para retornar ao contato social inerente às suas funções laborais, são expostos no caminho de casa ao local de trabalho, e vice-versa, a um risco gigantesco de contágio.

Em Curitiba, por exemplo, desde o último dia 20 a Prefeitura não tem impedido o comércio de rua de abrir as portas – cedendo ao lobby de segmentos empresariais. As lojas estão funcionando até às 16h. O que tem acontecido? O horário de pico foi antecipado, e entre 16 e 17h o que se vê desde então são ônibus mais cheios e pontos com maiores aglomerações.

Em Aracaju, o Ministério Público do Estado de Sergipe instou a administração municipal e as empresas concessionárias a, nos horários de pico, colocarem frota máxima em circulação. Ônibus e terminais lotados têm sido motivo de justas queixas.

Na região metropolitana da Baixada Santista, os intervalos do VLT (veículos leves sobre trilhos) aumentaram, dada a queda no fluxo. No entanto, embora em Santos, para onde se dirige a maior parte dos trabalhadores, a Prefeitura não tenha flexibilizado a quarentena, em outras cidades vizinhas sim. Mais gente voltou a precisar do modal.

No Rio de Janeiro, a proibição de passageiros em pé nos veículos vigora, oficialmente, desde o início das medidas de isolamento social. Na prática, todavia, torna-se impossível impedir que alguém espere a barca seguinte ou deixe de subir no ônibus já cheio, sob pena de essa pessoa chegar atrasada ao trabalho, e ser punida por isso. Belo Horizonte tem registrado a mesma dificuldade.

Exigir que motoristas e passageiros utilizem máscaras, ou instalar cortinas de plástico ou acrílico isolando condutor e cobrador são iniciativas imprescindíveis, porém paliativas diante do potencial disseminador do vírus que o transporte público representa. Intensificar a restrição de atividades, minimizando os efeitos socioeconômicos com renda mínima digna, é – está evidente – a medida mais eficaz.

Crédito da foto da página inicial: Rovena Rosa/Agência Brasil

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