Brasil Debate

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Camila Tribess

É cientista social e mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná. Foi bolsista Capes em programa de cooperação internacional em Timor-Leste. Atualmente é consultora do PNUD para a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

 
Camila Tribess

Mulheres e participação política

As posturas das candidatas à Presidência são um diferencial para a política brasileira, ou o fato de serem mulheres nos cargos mais altos de representação nacional é apenas um detalhe, pois suas políticas seriam essencialmente iguais às dos homens?

Este ano, as eleições presidenciais estão de certa forma atípicas do ponto de vista das questões de gênero: temos duas candidatas mulheres com fortes possibilidades de vencer o pleito e, além disso, existe mais uma candidata mulher concorrendo às eleições e participando em debates – algo inédito na história da democracia brasileira, e que mostra o nítido aumento da participação feminina no espaço político.

No entanto, diversas pesquisas e rankings internacionais mostram que nesse quesito o Brasil ainda tem muito o que crescer: o País se encontra hoje na posição de número 131 em levantamento feito com 188 países sobre a quantidade de mulheres na política representativa, em especial no Legislativo (Inter Parliamentary Union)

Qual seriam os motivos de tamanha disparidade?

Além da falta de apoio dos partidos e dos espaços políticos para a participação das mulheres, existem também os pesados fardos sociais, que fazem com que a maioria das mulheres do País tenha uma jornada dupla ou até tripla de trabalho (trabalhos formais, informais e domésticos), além do pouco espaço na própria família para que se expressem e reflitam politicamente.

Programas que deram prioridade ao atendimento às mulheres, como o Bolsa Família, ajudaram a incluí-las ainda mais nos planos sociais e econômicos nos últimos anos no Brasil.

Eles trouxeram um empoderamento expressivo das mulheres, especialmente das camadas mais populares, como bem mostrou o trabalho da professora Walquíria Leão Rego (Vozes do Bolsa Família).

No entanto, essa inclusão ainda não alterou a proporção de mulheres na política institucional brasileira: essa realidade vem mudando aos poucos, mas parece ainda não atingir as esferas políticas institucionais da mesma forma com que as mudanças sociais vêm ocorrendo. Veja o gráfico:

grafico mulheres em cargos políticos

Porém, e quando as mulheres que estão nos espaços políticos e de poder acabam por reproduzir discursos e práticas dos grupos hegemônicos?

Percebe-se que algumas mulheres, ao concorrerem a cargos políticos, repetem o discurso mais conservador e elitista de nossa sociedade, primando por uma atuação machista e retrógrada em relação a políticas essenciais para a mulher, por exemplo, ou reproduzindo estereótipos machistas em suas falas e práticas.

Então levamos o debate sobre a participação feminina a outro aspecto, refletindo sobre quais mulheres são alçadas aos postos políticos. É recorrente na política municipal e estadual brasileira que filhas e esposas de políticos sejam também lançadas como candidatas, apenas para “cumprir a cota” de 30% de mulheres candidatas nos partidos.

Não é o caso das duas candidatas à Presidência às quais nos referimos no início, ambas formadas na política a partir de suas militâncias. Mas seriam suas posturas um diferencial para a política brasileira ou o fato de serem mulheres ou homens nos cargos mais altos de representação nacional seria apenas um detalhe, pois as políticas dessas mulheres seriam essencialmente iguais às dos homens?

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Temos aqui então duas linhas de análise. A primeira e mais óbvia é que sim, importa o fato de serem mulheres, pois têm vivências e socializações diferentes e, ainda que tenham discursos tão machistas ou conservadores quanto os “homens-brancos-classe-alta” da política tradicional, representam exemplos de empoderamento para as próximas gerações de mulheres, que passam a ver como possível, e até corriqueiro, que as mulheres estejam em altos postos políticos.

Já a segunda linha de análise nos traz um problema mais complexo, de que não basta apenas que sejam mulheres nessas posições para que a democracia ganhe em qualidade e em representatividade, mas é preciso que essas mulheres rompam (ou ao menos questionem) os paradigmas machistas impostos em nossa sociedade.

Inclusive em suas posturas e, principalmente, em seu fazer político, dando prioridade a temas e problemas que atingem a população feminina e que são ignorados sistematicamente pela política masculinizada.

Nesse sentido, os movimentos que lutam pelos direitos das mulheres entendem que não basta apenas eleger candidatas, mas é preciso que elas defendam temas da igualdade de gênero.

Mas além das dificuldades institucionais e ideológicas, a nossa sociedade ainda vê a mulher que se impõe, que possui uma personalidade tida como “forte”, que entende de política e de economia e que se expõe ao debate, como uma mulher masculinizada, especialmente se essa mulher não se encaixar no padrão de “mãe” ou de “bem casada”.

Assim, o valor de uma mulher, também na política, é medido pelas suas relações com os homens e sua postura como uma mulher dócil, bondosa, carinhosa, maternal e sensitiva (qualidades ditas femininas).

Portanto, a mulher que trata a política com racionalidade, assertividade e objetividade (qualidades ditas masculinas) é vista como não-mulher, pois contraria os estereótipos femininos do senso comum.

Se destaca, também, a tendência a julgamentos relacionados à sexualidade e à aparência das mulheres em questão, sendo que tais comentários são raramente feitos em relação aos candidatos ou políticos homens.

É importante perceber o papel da mulher na democracia brasileira não como figura externa ao plano político, mas sim como pessoa que, a partir de socializações diferentes, possa também trazer novas visões, especialmente quando não se adequa ao padrão da mulher casada, mãe, dona de casa, religiosa, meiga e emotiva.

Esses fatores são também, em especial em épocas eleitorais, usados para medir capacidades dos candidatos homens. No entanto, a medida e o peso para as mulheres é sempre mais rígida e mais cruel.

Além disso, destaca-se o fato de que, para o aprofundamento da democracia, não basta apenas eleger mulheres, mas sim mulheres comprometidas com transformações substanciais da cultura machista brasileira e que coloquem em pauta as desigualdades e a opressão sofridas pelas mulheres.

Crédito da foto da página inicial: EBC

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