Poucas forças são mais poderosas na política do que a mobilidade para baixo, a desapropriação dos privilegiados, e uma das tarefas mais difíceis do ativista é convencer a classe trabalhadora de que ela tem direito a algo melhor.
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Brasil Debate

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Reginaldo Moraes

É professor da Unicamp, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu) e colaborador da Fundação Perseu Abramo. É colunista do Brasil Debate

 
Reginaldo Moraes

Movimentos de massas e suas leis

Há uma teoria que se aplica aos indivíduos dos andares de cima da sociedade, que se mobilizam a partir da queda ou da ameaça percebida da queda, e outra aos de baixo, cuja organização exige uma revolução nos sentimentos, na sua percepção da ‘ordem das coisas’

15/02/2018

“Existem poucas forças mais poderosas na política do que a mobilidade para baixo, a desapropriação daqueles antes privilegiados (…), a tarefa mais difícil que um ativista enfrenta quando organiza os pobres ou a classe trabalhadora é convencê-los de que eles têm direito a algo melhor, que podem apresentar suas próprias reivindicações e que elas serão levadas a sério. A classe média alta da América não precisa de tal provocação.” [Christopher Hayes, em Twilight of the Elites: America After Meritocracy]

Deveríamos pensar seriamente nessa “lei” da teoria dos movimentos sociais – para julgar sua pertinência, seus limites, as condições em que se aplica. E o que dela se deduz como orientação para quem quer mudar o mundo, não fazê-lo repetir sua trajetória.

Na verdade, há várias “leis” nessa lei geral. Ou dois lados da lei. Uma delas se aplica aos indivíduos dos andares de cima da sociedade – a mobilização resultante da queda ou da ameaça percebida da queda.  A outra ao lado de baixo: a organização e a mobilização desses segmentos exigem quase que uma revolução nos seus sentimentos, na sua percepção da “ordem das coisas”.

Agora vejamos o Brasil recente e o que essas “leis” podem sugerir. Entre as classes médias, recentemente, vimos uma enorme mobilização de massas – ainda que fortemente inflada pela mídia orquestrante, claro. O objetivo desse movimento é agora mais claro do que nunca: derrubar o governo de Dilma e tirar da pauta as políticas com ele identificadas. Essas classes médias tiveram perdas nesses 13 anos? Aqui e ali, esta ou aquela parcela desse grupo talvez tenha tido estagnação. Perda? Sim, houve pelo menos uma, grande, para a escala de preferências desse grupo social: perdeu a distinção. Algo que não se mede em absolutos, mas em relativos, em posicionais. Como? Perdeu aquilo que a punha acima da ralé. Aos poucos, a massa cheirosa de dona Cantanhede foi percebendo a vizinhança incômoda da plebe. Nos aeroportos  – “isto aqui está parecendo a rodoviária”. Nas universidades – “isto aqui não é entidade assistencial”, diz o reitor da USP. Nos shopping centers, a praia de cimento e vidro reservada aos bons – “os mano e as mina resolveram dar um rolê nessa praia”.

A primeira lei, portanto, parece ter evidenciado seu vigor. Isso, porém, nos deveria fazer refletir sobre o que pode acontecer agora, em 2018. Uma outra perda, desta vez em absolutos, parece chegar às classes médias –  com uma recessão deliberadamente aprofundada, um “enxugamento” de empregos e rendas, um “liberou geral” para planos de saúde, mensalidades escolares e outros bens e serviços relevantes para tal segmento. O que acontecerá com essa classe média? Para que lado vai pender? Juntar-se-á a demandas dos de baixo ou constituirá, como muitas vezes ocorreu, a massa de manobra de uma direita do ressentimento?

A queda do tabu e o reconhecimento ao ídolo

E o segundo vetor da lei, aquele que diz respeito aos de baixo? A lei diz que é difícil convencê-los de que têm direito a algo melhor e que podem conseguir esse algo melhor. Lula é um grande frasista e costuma utilizar imagens do futebol. Lembro-me de uma dessas, talvez menos conhecida e difundida. Ainda da época em que presidia do sindicato de São Bernardo, acho que foi na campanha pela reposição salarial, antes, portanto, das grandes greves de 1978. A imagem era esta:  a classe trabalhadora está precisando de uma vitória, assim como o Corinthians precisa ganhar um campeonato. O Corinthians, na época, atravessava uma fase terrível, a fase do chamado “tabu”, a fila de anos e anos sem ganhar qualquer título. A percepção de Lula era essa: o time entrava derrotado, começava as disputas já pensando “não é para nós”. Tinha que romper essa barreira para dar um salto de qualidade. Assim ocorria com a classe trabalhadora – uma vitória, ainda que pequena, mas perceptível, ampliaria de tal modo sua confiança que a partir daí seria difícil segurá-la.

É isto o que podemos tirar da “lei” que Hayes enunciou. Mas podemos tirar mais, no contexto em que estamos. Vivemos um momento em que os andares de baixo de nossa sociedade – os trabalhadores sindicalizados do sudeste, mas também as massas mais desprovidas e abandonadas do nordeste e dos rincões – tiveram um gosto, um pequeno gosto de conquistas antes sequer visualizáveis. Não apenas o acesso ao avião e à universidade. Algo mais elementar. Comer três vezes ao dia, para milhões. Cisternas e “luz para todos”, crédito, muitas e muitos gostinhos de uma vida antes inimaginável. Uma alteração no “padrão alimentar”.

Uma vez um economista engomadinho do plano Collor respondeu com surpresa e arrogância a pergunta simples de um repórter: como o governo faria aplicar sua politica de congelamento e controle de preços e contratos no que diz respeito aos cheques pré-datados. A resposta: o plano nada estabelecia porque legalmente o cheque pré-datado não existia. Não podia ser mais hilário e ao mesmo tempo tão exuberante a arrogância do sábio: aquilo que a lei não prevê não existe. O que, aliás, é uma interpretação singular da lei: aquilo que a lei não proíbe, a realidade pode fazer existir sem que seja passível de pena. O cheque pré-datado não existe no terreno do engomadinho, mas existia no cotidiano da “plebe”, porque era (em grande parte ainda é) assim que se contrata, por exemplo, material de construção para construir ou reformar o barraco. Ora, nos últimos 13 anos, a conta em banco e o acesso a um talão foram coisas massificadas por uma política da Caixa Econômica Federal. Para horror de muita gente que pensa (enviesadamente) que a plebe é mais propícia ao endividamento e ao calote do que os “de bens”.

Nesse mundo – em que algumas coisas deixaram de ser objetivos irreais e entraram na conta do viável e, até, do direito – é compreensível que a figura identificada com esses avanços seja venerada como o líder na conquista do campeonato. Abriu uma porta e por aí mais coisa pode passar. Ou, mais importante: precisa passar. O tabu foi quebrado.

É esse o quadro que temos diante de nós. É apenas um quadro tosco, cheio de lacunas e incertezas. Exageros, detalhes mal desenhados. Não me iludo sobre a precisão dos traços. Apenas sugiro que pensemos nele como esboço. Precisamos resolver esses enigmas.

Crédito da foto da página inicial: Ricardo Stuckert

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