Considerações sobre as principais correntes do pensamento econômico a partir de um debate no Instituto de Economia da Unicamp.
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Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Métodos da economia: heterodoxia e mainstream

A economia necessita de novas ideias serem testadas com novos métodos, novas tecnologias e novas informações. Muitas ideias da vanguarda heterodoxa foram sendo absorvidas pelo mainstream em ambientes acadêmicos e midiáticos pluralistas

18/06/2019

Assisti ao debate entre os economista e professores Guilherme Mello (IE-Unicamp), Marcos Lisboa (Insper), Pedro Paulo Zahluth Bastos (IE-Unicamp) e Samuel Pessôa (FGV-IBRE), no Auditório do Instituto de Economia da Unicamp, em evento de lançamento do livro “O Valor das Ideias” (São Paulo: Companhia das Letras; 2019). Na primeira parte, tratou-se dos distintos métodos da Economia do Mainstream e da Economia Heterodoxa, respectivamente, o hipotético-dedutivo-racional e o histórico-indutivo.

No debate, inicialmente, Marcos Lisboa adotou o discurso presidencial proferido por Robert Shiller na 129ª reunião anual da American Economic Association, no dia 7 de janeiro de 2017, em Chicago, a respeito de Narrativas Econômicas. Passou a ser uma referência para debate entre os economistas.

Shiller, um economista comportamental, foi ganhador do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2013. A Economia Narrativa é o estudo da disseminação e dinâmica de narrativas econômicas populares por meio de histórias, particularmente aquelas correspondentes aos interesses e às emoções humanas. Observa como as estórias mudam através do tempo para compreender as diversas flutuações econômicas.

A apresentação de Lisboa lembrou-me também do artigo “The Changing Face of Mainstream Economics”, escrito por David Colander, Ric Holt e Barkley Rosser, e publicado em 2003. Eles comentam: se alguém lê a literatura heterodoxa em Economia hoje em dia, tem-se a impressão de a moderna Economia Mainstream ainda ser muito parecida com a Economia de 50 anos atrás. Ela é chamada ainda de “Economia Neoclássica” e é criticada da mesma forma como adotada nos anos 1950 ou 1960.

Lisboa alega muito desta crítica hoje estar anacrônica porque o pensamento econômico dominante mudou. Para ele, a Economia da corrente principal se afastou de uma adesão estrita à Santíssima Trindade neoclássica – racionalidade, egoísmo e equilíbrio – para uma posição mais eclética de diversos modelos. Estuda, inclusive, comportamentos com racionalidade limitada, combinando interesse próprio e sustentabilidade. O que importa é o falsificacionismo: ponto de vista metodológico segundo o qual as hipóteses só são científicas – e não meras narrativas sobre “O Sistema” – se e somente se suas previsões são empiricamente falsificáveis.

Desde o ensaio de Milton Friedman sobre A Metodologia da Economia Positiva, publicado em 1953, há uma ideia-fixa por parte de muitos economistas: não importa a realidade dos pressupostos, mas sim a capacidade preditiva da teoria. Hoje, Lisboa caracteriza o pensamento econômico como um conjunto de ideias em evolução, mantido por uma abordagem de modelagem dos problemas e testes de hipóteses.

Daí alguém pode fazer parte do mainstream e ainda assim não necessariamente manter ideias “ortodoxas” neoclássicas. Sua narrativa sobre a Economia nas últimas décadas diz respeito àcrescente variação de visões aceitáveis. Para Lisboa, deixou de ser relevante o núcleo [hard core] da Economia neoclássica.

A história do pensamento econômico era lida antes como sutis variações de três premissas básicas do Programa de Pesquisa Científica neoclássico. A primeira é a racionalidade: os agentes econômicos maximizam suas funções de utilidade e lucro, isto é, agem racionalmente. A segunda diz respeito ao atomismo: os mercados livres, inclusive o mercado de trabalho, tendem para o equilíbrio via flexibilidade de preços e salários. Finalmente, a terceira se refere à simetria de informações: todos os agentes têm informação perfeita e jamais se enganam.

O monetarismo manteve a primeira premissa e alterou as outras duas, substituindo-as, respectivamente, por ilusão monetária – com taxas de inflação crescentes, os salários reais estariam sempre atrás do crescimento dos preços – e expectativas adaptativas, formadas a partir da experiência passada, com ênfase maior para os períodos mais recentes.

O novo-classicismo também não questionou a racionalidade. Ele focalizou a desestabilização, quando variações previstas na oferta da moeda não afetariam a produção, apenas as mudanças imprevistas o fariam. Adotou as expectativas racionais. Todos os agentes, seja capitalista, seja trabalhador, teriam o mesmo modo de entender a economia, correspondente à “lógica verdadeira de funcionamento”, isto é, a sua.

Mantendo o suposto de racionalidade, as duas hipóteses do novo-keynesianismo são a rigidez de preços e a descoordenação. Ele estuda os fundamentos microeconômicos (instituições, contratos, clientela etc.) para explicar a rigidez de salários e preços. Esta rigidez decorre de externalidades das decisões individuais e dos problemas de coordenação entre os agentes.

Portanto, todas as principais correntes do pensamento econômico possuem em comum a premissa de racionalidade dos agentes, mesmo limitando-a. Apenas, recentemente, a Economia Comportamental parte do pressuposto de irracionalidade e/ou decisões emocionais equivocadas e incoerentes. Destaca a ineficiência do mercado por conta de vieses heurísticos e dependência da forma desviarem os preços de seus fundamentos microeconômicos, setoriais ou macroeconômicos determinantes.

A partir da década de 1950, a classificação “Economia neoclássica” deixou de ser a mais apropriada para caracterizar a Economia moderna. Como escreveu meu ex-colega do IE-UNICAMP, Mário Possas, no artigo “A Cheia do “Mainstream” – Comentário sobre os Rumos da Ciência Econômica” (publicado na revista da UFRJ, Economia Contemporânea, Nº 1 Jan. – Jun. 1997), “vários temas relevantes considerados marginais ou intratáveis, e por isso relegados à heterodoxia (ou ao limbo), passaram a ser incorporados, ganhando o status de objetos cientificamente sérios”.

Como exemplos, cita os seguintes. Um economista industrialista precisa estudar Teoria dos Jogos, exaustivamente, por conta de as estratégias empresariais do mundo real serem em geral formuladas em condições bem mais complexas. O macroeconomista adepto de Keynes explica não fazer sentido uma curva de oferta de trabalho e o desemprego não ser só uma “falha de mercado”, devida à rigidez dos salários nominais. Quando constrói um modelo de investimento ou de preços, precisa justificar-se por não assumir expectativas racionais, mas sim incertas. Seus “microfundamentos” se referem à diferença entre incerteza e risco e ao pressuposto crucial de o mundo econômico ser não-ergódico e não-estacionário.

O economista atualizado ao trabalhar com crescimento e dinâmica não pressupõe otimização e equilíbrio geral competitivo em longo prazo. Isso ocorria nos modelos de crescimento com progresso técnico endógeno e rendimentos crescentes. Quem não pressupõe equilíbrio permanente como norma decorrente, tanto dos “mercados eficientes”, como de “agentes pressupostos racionais”, argumenta com base na Economia Institucionalista: existem regras, inclusive informais, hábitos, lógicas de ações e organizações capazes de impor outra dependência de trajetória bem-sucedida.

Portanto, as tendências recentes do mainstream da Ciência Econômica, distinto da ultrapassada ortodoxia neoclássica, destaca a ampliação das fronteiras do seu objeto. Haveria certo consenso a respeito dos critérios comuns de cientificidade aceitos por seus diversos praticantes.

Para a Economia ser bem-sucedida em termos científicos, necessita de novas ideias serem testadas com novos métodos, novas tecnologias e novas informações. Em geral, isso acontece na “fronteira da Economia”. Muitas ideias da vanguarda heterodoxa foram sendo absorvidas pelo mainstream ao longo do debate intelectual em alguns ambientes acadêmicos e midiáticos pluralistas em lugar de outros monolíticos.

Por exemplo, avanços na tecnologia analítica, como desenvolvimentos em dinâmica não linear, permitem modelos alternativos de processos. Tornam possível estudar modelos muito mais complexos se comparados aos estudados antes sem apoio computacional.

A atividade econômica dinâmica pode ter uma dependência de trajetória caótica, afastando-se das condições iniciais. A economia vista como um dos componentes de um sistema complexo se configura a cada conjuntura com uma feição distinta. Porém, é inteligível por pesquisadores perspicazes em análises de diversas escalas.

Para entender o argumento do novo mainstream, é útil pensar na profissão também como um sistema complexo. Não pode ser entendido a partir dos primeiros princípios assumidos. Ele só é compreensível através do processo de mudança subjacente. Da mesma forma, o pensamento econômico pode ser melhor entendido pelo processo de mudança caracterizador de sua evolução ao incorporar ideias antes heterodoxas.

Nesse sentido vanguardista, os debatedores “heterodoxos” questionaram Lisboa. O holismo metodológico ou organicismo sociológico se contrapõe ao individualismo metodológico ainda predominante na Economia do mainstream. Na visão holística, os sistemas sociais constituem “totalidades” a serem analisadas em busca de identificação dos elos principais das interconexões entre seus diversos componentes. Seus desempenhos em grande escala são regidos por leis macroeconômicas essencialmente sociológicas. Há sofismas da composição como o Paradoxo da Parcimônia. Nem tudo verdadeiro para as partes – por exemplo, corte de gastos – se confirma para o todo.

Crédito da foto da página inicial: Agência Brasil

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