Brasil Debate

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Fernando Nogueira da Costa

É professor titular do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

 
Fernando Nogueira da Costa

Maxidepreciação e dependência do petróleo

Os preços do petróleo devem cair 7% na média em 2014, fechando em torno de US$ 100, e sofrer nova queda, de mais 10%, no próximo ano. Porém, o setor de óleo e combustíveis deverá influenciar positivamente o balanço comercial em 2015, com aumento da produção e da exportação e alguma redução da importação

No último governo do regime militar, em regime de câmbio fixo, Delfim Netto fez uma primeira desvalorização (30%) da moeda nacional em dezembro de 1979. A taxa de inflação anual passou de 70% para 110%.

A segunda (também 30%) foi realizada em fevereiro de 1983. A taxa de inflação dobrou para 220%. Provocou a “crise do subprime brasileira”, inclusive com a quebra do BNH. O regime militar deixou como “herança maldita” o regime de alta inflação inercial.

Durante o primeiro governo Dilma, houve não um tratamento de choque, mas sim uma gradual maxidepreciação da moeda nacional, desde 02/01/2011, quanto a taxa de câmbio estava em R$ 1,65. Chegou a R$ 1,53 no final de julho daquele ano, e começou a se elevar, alcançando R$ 2,53 em 06/11/2014.

Em menos de três anos e meio, houve essa elevação de um real na cotação de um dólar – ou 65%! E a “flutuação suja”, isto é, controlada pelo Banco Central, permitiu que ela não impactasse muito a taxa de inflação, pois esta se manteve dentro da meta inflacionária.

Nas contas de um economista adepto da abordagem do balanço de pagamentos pelas elasticidades, uma taxa de câmbio em torno de R$ 2,50 será suficiente para trazer o déficit em transações correntes para 2,9% do PIB em 2015, afastando-o de vez do nível de 4% do PIB, considerado sinal de um financiamento mais difícil.

Sendo assim, “o ajuste já está em curso e, nas contas externas, o governo não vai ter que fazer nada”. A melhora virá basicamente do balanço comercial, seja por conta de câmbio mais competitivo, seja porque a perspectiva é de a economia mundial crescer um pouco mais no ano que vem.

Dadas as condições presentes hoje no mercado externo no que diz respeito à liquidez internacional, um déficit em torno de 3% do PIB no balanço de transações correntes parece ser financiável.

Como o Brasil tem recebido cerca de 3% do PIB em Investimento Estrangeiro Direto (IED), cerca de US$ 65 bilhões, o déficit externo (US$ 83 bilhões) tem que cair para um nível inferior ou igual ao IED, que é fonte de financiamento de longo prazo saudável.

O setor de petróleo e derivados será outro fator importante a ajudar esse ajuste. A Petrobras inaugura, em novembro de 2014, a refinaria de Abreu e Lima, diminuindo muito a dependência de importação de diesel, o que acaba pressionando o balanço comercial referente a petróleo e derivados.

Eventual déficit comercial no ano corrente poderá virar superávit nos próximos, tanto pela inauguração da refinaria quanto pelo crescimento da extração.

De fato, os saldos comerciais, desde o início do governo Dilma, teriam sido muito mais superavitários – US$ 39 bilhões em 2011, US$ 27,5 bilhões em 2012, US$ 25,7 bilhões em 2013 e estimados US$ 20 bilhões para o ano corrente – caso se desconsiderasse os combustíveis nessa contabilidade.

Em 2013, mesmo tendo uma queda de 28%, petróleo e combustíveis ocuparam o quarto lugar no ranking de principais produtos exportados pelo Brasil com US$ 22,4 bilhões. Só foram inferiores a minérios (US$ 35 bilhões), material de transporte inclusive plataformas petrolíferas (US$ 31,6 bilhões) e complexo soja (US$ 31 bilhões).

No entanto, diferentemente dessa abordagem estruturalista, um economista que adota a abordagem monetária do balanço de pagamentos avalia que a redução do déficit em transações correntes no próximo ano virá de uma imposição externa.

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Segundo ele, essa queda será puxada por um mundo bem menos disposto a financiar o Brasil e outros emergentes com déficits altos em conta corrente, em razão da expectativa de retomada de alta dos juros americanos. Nesse cenário, ou o real se deprecia mais e propicia a queda do déficit externo ou este tende a crescer ainda mais, levando o País a uma crise cambial.

Segundo essa abordagem monetária, os termos de troca em queda pressionam negativamente o balanço comercial e uma inflação superior a de seus parceiros comerciais afeta a paridade entre poderes de compra.

O Brasil vai precisar de uma depreciação cambial mais forte em termos nominais para reequilibrar as contas externas. Como o dólar mais caro impacta a taxa de inflação, provocando queda do consumo, é necessário combinar essa depreciação com ajuste fiscal mais crível. Leia-se “elevação do superávit primário com cortes de gastos”.

Analisando a pauta brasileira de exportações, 70% são commodities. A queda nas suas cotações piora a relação entre a evolução do preço das exportações e das importações, os chamados termos de troca, cujo índice evoluiu de 93,4 em 2003 para o máximo de 129 em 2011, caindo para 116,7 em junho de 2014.

Isto estimulou o poder relativo de compra externa do País, permitindo o crescimento da absorção doméstica (consumo, investimento e gastos públicos) em ritmo mais rápido que o do PIB. Este soma a absorção e a renda líquida recebida do exterior.

Um economista que faz a abordagem do balanço de pagamentos por absorção interna diz que “esse crescimento explicável pelo acúmulo de poupança externa não deve acontecer nos moldes que acontecia antes”.

Segundo essa abordagem, impõe-se a diminuição dos gastos internos, porque não se tem mais o boom de commodities. O fluxo de capitais também deve se reduzir com a alta global do dólar pela expectativa de início da elevação da taxa de juros norte-americana.

Os preços do petróleo devem cair 7% na média em 2014, fechando em torno de US$ 100, e sofrer nova queda, de mais 10%, no próximo ano. Porém, o “óleo e combustíveis” deverá influenciar positivamente o balanço comercial em 2015, com aumento da produção e da exportação e alguma redução da importação.

Óleo e gás é o setor que responde pela maior parte (60%) dos investimentos a serem realizados no País entre 2014 e 2018. Seus programas somam R$ 543,4 bilhões.

A produção de petróleo está em ritmo mais acelerado. No pré-sal, supera bastante 500 mil barris de petróleo produzidos pordia, patamar alcançado apenas oito anos após a descoberta em 2006. Isso contando com somente 25 poços produtores.

Mesmo com a queda dos preços do óleo, o efeito do petróleo tende a ser positivo para o comércio exterior brasileiro. Já temos uma economia cujo desempenho depende do petróleo?

Crédito da foto da página inicial: Refinaria Abreu e Lima/Divulgação Petrobras

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6 respostas to “Maxidepreciação e dependência do petróleo”

  1. Carlos Alberto Jacques de Castro disse:

    No meu – Carlos Castro – FB em 18 de novembro às 19:28

    FB TAMBÉM É UM LUGAR PARA A INFORMAÇÃO ESSENCIAL (CCXI): Fiz a nota anterior sobre a conjuntura difícil que “se abate” sobre a Petrobrás e não posso deixar de dar divulgação para esse ótimo artigo que ilustra como o PETRÓLEO FOI ALÇADO À POSIÇÃO ESTRATÉGICA PARA “CONTROLAR” AS NOSSAS RESTRIÇÕES EXTERNAS – CONTA CORRENTE COM EXTERIOR. >>>> O ótimo artigo é de Fernando Nogueira da Costa – >> “professor livre-docente do IE-Unicamp. >> Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), >> ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007)” – >>>> que conclui com uma pergunta que, ao mesmo tempo, se apresenta como a resposta mais possível: >>>> “JÁ TEMOS UMA ECONOMIA CUJO DESEMPENHO DEPENDE DO PETRÓLEO?” >>>> E é exatamente isso que explica esse “ataque sinistro” contra a Petrobrás, a >>>> PETROBRÁS DO PT, porque foi o PT que recebendo “uma petrobrax”, conseguiu recuperar o >>>> papel central e “hegemônico” da Petrobrás na cadeia do Petróleo e operar a sua articulação – com sinergia positiva – nas cadeias da Energia. >>>> Fernando Nogueira da Costa enfoca essa questão sob três abordagens – estruturalista; monetária; de absorção interna – sempre chegando a mesma resposta e nos dando grande certeza sobre a justeza dessa resposta. >>>> Nada a ressalvar, mas algo a acrescentar. >>>> Enquanto o Petróleo durar a economia brasileira contará com essa “quilha” para sua estabilidade e segurança. >>>> Mas não podemos sucumbir à “doença holandesa” e essa >>>> fase de “vacas [mais] gordas” deve nos preparar para o futuro. >>>> “Investir” fortemente na nacionalização integral de toda a cadeia de negócios – fornecedores e clientes “diretos” – da Petrobrás e também, “partindo” da cadeia da Petrobrás, nas cadeias de negócios da Energia. >>>> O objetivo será completar essa nacionalização ainda enquanto a cadeia de negócios da Petrobrás estiver “fundeada” no Petróleo. >>>> Se nos aplicarmos nisso estaremos irradiando essa “mesma revolução” em todo o resto da economia brasileira, e deixaremos de ser uma promessa emergente para sermos uma realização potente. >>>> Muito simplesmente é essa a estratégia de desenvolvimento mais coerente e mais consistente e, portanto, mais exequível. >>>>

  2. Paulo disse:

    Em poucos anos o Brasil se tornara uma arabia saudita dos trópicos

  3. Wagner Moraes disse:

    Provocação, com estilo, mas uma simples provocação!!!

  4. Marcio Marques Alves disse:

    O que o autor está tentando dizer? Que já estamos sentido os efeitos da chamada “doença holandesa”?

Comentários