Brasil Debate

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Ana Luíza Matos de Oliveira

É economista (UFMG), mestra e doutoranda em Desenvolvimento Econômico (Unicamp), integrante do GT sobre Reforma Trabalhista IE/Cesit/Unicamp e colaboradora do Brasil Debate

Helga do Nascimento de Almeida

É cientista política. Mestre e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também se graduou em ciências sociais

 
Ana Luíza Matos de Oliveira e Helga do Nascimento de Almeida

Mais reflexão e menos rosas no “Dia Internacional da Mulher”

Nesse dia, presentes nos são dados como compensação pelas injustiças que vivenciamos todos os dias? Os “bom dias” educados são contrapartida às cantadas odiosas? A rosa vermelha nos locais de trabalho uma reparação por salários e empregos piores?

O Dia Internacional da Mulher tem sido apropriado de forma estereotipada pelo capitalismo e o patriarcado. Se em sua origem esse dia representa a luta das mulheres em uma sociedade extremamente machista, acabou por ser esvaziado de significado e de quase qualquer discussão consciente: se transformou no dia mundial de dar “parabéns” vazios para as mulheres.

E por que deveríamos ser parabenizadas por sermos mulheres? Somos parabenizadas por vivermos em um mundo que nos oprime diariamente, tanto na esfera pública como na esfera privada?

Nesse dia, presentes nos são dados como compensação pelas injustiças que vivenciamos todos os dias? Os “bom dias” educados que recebemos pelo caminho nos são oferecidos em contrapartida a todas as cantadas odiosas que ouvimos nas ruas durante o ano e ao assédio de todos os tipos que sofremos?

A rosa vermelha dada a nós em nossos locais de trabalho são uma reparação por termos salários e empregos piores e por não ocuparmos cargos públicos de importância?

O Dia Internacional da Mulher é parte de uma luta política centenária das mulheres que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), surgiu a partir do Dia Nacional da Mulher nos EUA, por sua vez criado em homenagem às mulheres trabalhadoras do vestuário de Nova York que, no ano de 1908, se mobilizaram em uma greve emblemática. O 8 de Março, desde seu marco originário, foi idealizado como um dia para refletir sobre as lutas, vitórias e desafios das mulheres na sociedade moderna.

Nesse espírito de reflexão e pensando no Brasil, boas notícias que podemos comemorar são a redução de homicídios dentro do domicílio após a promulgação da Lei Maria da Penha, porém os desafios permanecem na luta contra a violência familiar.

Quanto ao mercado de trabalho, como já apresentado aqui, apesar das melhorias que reduziram as diferenças nas taxas de desemprego e participação da força de trabalho de 2003 a 2012, ainda há um abismo muito grande se consideramos as condições que homens e mulheres. Por exemplo, em média as mulheres gastam mais que o dobro do tempo que homens em trabalhos domésticos, o que faz com que sua jornada de trabalho total seja maior.

tabela dia da mulher1

Os diferenciais de salário entre homens e mulheres continuam altos e se elevam com o aumento da escolaridade, i.e., quanto mais uma mulher estuda, menos ela recebe (em média) em relação a um homem com a mesma escolaridade (e lembrando que nós mulheres já temos escolaridade média mais alta que a masculina).

Também as mulheres são minoria nas carreiras de nível superior do ciclo de gestão governamental do Executivo Federal: em 2014, apenas 38,4% dos diplomatas, 34,6% dos especialistas em políticas públicas e gestão governamental e 30,5% analistas de comércio exterior eram mulheres, segundo dados da Escola Nacional de Administração Pública.

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tabela dia das mulheres2

No âmbito da maternidade, dados recentes mostram que as brasileiras são mães cada vez mais tarde: o número de mães de primeira viagem com mais de 30 anos aumentou (de 22,5% em 2000 para 30,2% em 2012) e a porcentagem de adolescentes de 15 a 19 anos que são mães diminuiu(de 2000 a 2010 percebe-se a queda desse índice de 14,8% das jovens dessa faixa etária para 11,8%).

Mas, apesar de tais índices mostrarem maior autonomia por parte da mulher, o Brasil continua longe de bater a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio quanto à mortalidade materna. Ainda, pesquisas mostram que o maior índice de mortalidade no Brasil é de mulheres pobres e negras e a precária educação sexual e número insuficiente de serviços para o atendimento da mulher vítima de violência também resultam em gestações indesejadas e abortos clandestinos.

Outro agravante do problema é a alta (e crescente) realização de cesáreas, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz): o percentual de partos cesáreas no Brasil em relação ao total é de 52%, sendo 46% na rede pública e 88% na rede privada, sendo que a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a ONU recomendam índice de somente 15%.

E na política, os dados das últimas eleições não são muito animadores se utilizamos um recorte de gênero e raça: na Câmara dos Deputados, a grande maioria dos nossos representantes são homens brancos, com quadro semelhante nas Assembleias Estaduais. O gráfico abaixo mostra que, apesar de a lei determinar que pelo menos 30% das candidaturas sejam de mulheres, essa porcentagem não é alcançada entre os candidatos efetivamente eleitos.

tabela dia da mulher3

Os dados dão uma dimensão dos enormes desafios que temos adiante todos nós, mulheres (e homens!) que lutamos por igualdade. Assim, que este 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, nos inspire a aprofundarmos todos os dias do ano a reflexão sobre as condições sociais vividas pelos diversos grupos de mulheres excluídas e oprimidas (mulheres trabalhadoras, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres donas de casa, mulheres pobres, mulheres lésbicas, mulheres trans, mulheres mães, mulheres na política, mulheres estudantes, mulheres em situação de violência etc).

E que possamos entender e nos engajar na luta pela emancipação e empoderamento das mulheres.

Crédito da foto da página inicial: EBC

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14 respostas to “Mais reflexão e menos rosas no “Dia Internacional da Mulher””

  1. […] semana do Dia Internacional da Mulher, a nosso ver, deve ser de reflexão e luta pela igualdade . Nós, mulheres, não enfrentamos as […]

  2. Adão Fernandes disse:

    A violência doméstica praticada contra homens é um assunto pouco debatido em nosso país e quando se fala no assunto é em forma de piada.
    Há dificuldade, muito resistência e até mesmo vergonha de muitos homens para admitir serem vítimas dessa espécie de violência, os homens tendem a esconder ou disfarçar essa situação.
    As consequências são devastadoras, face aos danos físicos, moral e psicológicos que causam, podendo inclusive levar ao suicídio.
    Atualmente no Brasil não existe norma específica que trate da violência doméstica praticada contra homens (companheiros, filhos, pais) e nem estatísticas confiáveis dessa violência.
    Na Delegacia da mulher, evidências não valem mais que a versão da mulher, e nenhuma violência contra o homem é demais, ou seja, ainda se tem o pré conceito de que “se o homem apanhou foi porque mereceu”.
    As leis brasileiras sempre discriminam em favorecimento da mulher: aposentadoria, proteção ao mercado de trabalho da mulher, separação, guarda dos filhos, desproporção entre licença maternidade e paternidade, pensão alimentícia, lei Maria da Penha, delegacia da mulher, casa da mulher, etc.
    No caso de violência doméstica só existem abrigos para as mulheres, embora os homens, na maioria dos casos, sejam os únicos a serem afastados de casa.
    As pensões alimentícias, via de regra, recai sobre os homens, mesmo quando as mulheres ganham mais.
    Campanhas retratam o homem invariavelmente como agressor, violento, pedófilo, estuprador, sem se importar se isso atinge a todos os homens, à imagem dos pais e dos filhos.
    Não se importam se a esmagadora maioria dos homens são pessoas de boa índole, não se importam se são excelentes pais, filhos, esposos, amigos. A propaganda sempre colocam “os homens”, coletivamente, como perpetradores.
    Pais que negam suporte financeiro são mais criticados, mesmo que as mães sejam piores pagadoras.
    O programa “pai presente”, no final, tem enfoque somente nas OBRIGAÇÕES dos pais, não nos direitos deles, nem na importância da presença deles com os filhos.
    Os investimentos na saúde do homem são feitos em espantosa desproporção.
    Pensar em campanha contra o câncer é lembrar o câncer de mama, talvez de colo do útero, sem nenhuma menção ao câncer da próstata.
    Pensar em câncer feminino faz lembrar tragédias, câncer masculino normalmente lembra uma piada.
    O nome do pai é legalmente dispensável nas certidões de nascimento.
    O estupro masculino é comumente tratado como uma piada pela mídia.
    Garotos ainda são vistos como sortudos se escolhidos como parceiros sexuais de professoras, vizinhas, tias, etc.
    Abuso sexual de crianças e adolescentes do sexo masculino é desprezado, especialmente se a perpetradora for mulher.
    A violência contra o homem é vista com banalidade, com desprezo. E a ideologia de gênero, apenas aprofundou isso ao justificar o sofrimento do homem como “consequência do ‘machismo”.
    A mulher tem direito de tomar a iniciativa no relacionamento, o homem, a expectativa. Se a mulher toma a iniciativa, é vista como uma mulher moderna, se o homem toma a iniciativa pode ser acusado de assédio.
    A mulher tem o direito de trabalhar fora, o homem, a obrigação.
    A mulher tem o direito de ir às guerras, de fazer parte das forças armadas, os homens, a obrigação exigida em lei.
    Homens tem o dever de pagar a conta quando saem com as mulheres para se divertirem e ainda se espera que abram a porta do carro, puxe a cadeira, ceda o lugar.
    Ainda se espera que os homens se ausentem menos do trabalho para cuidar da saúde (ao mesmo tempo, quando eles não cuidam de sua saúde, são chamados de “machistas”).
    O Programa minha casa minha vida é o verdadeiro apartheid, onde a discriminação contra o homem é elevada ao extremo.
    Em recente pesquisa comentou-se muito que a maioria dos jovens assassinados no Brasil são negros, mas nada se falou que quase 90% desses jovens são do sexo masculino.
    “E ninguém luta pelo o fim do alistamento militar obrigatório para os homens nem pela igualdade na aposentadoria por tempo de contribuição (soma idade/contribuição, de 80 para mulheres e 90 para homens) ou por idade (60 anos para mulheres e 65 para os homens).” Mesmo que as mulheres vivem mais do que os homens.
    Vê-se que a maioria dos congressistas são homens, mas não se vê que quase todo ser humano pendurado atrás do caminhão de lixo é homem, nem que os mendigos, na sua maioria são homens.
    E por aí vai…

  3. […] parte do trabalho doméstico – é desigualmente dividido entre homens e mulheres (como vemos aqui), com ônus para a mulher, a quem é atribuído esse papel […]

  4. Anônimo disse:

    Arrasaram no mat

  5. Nadja Penayo de campos disse:

    que texto ótimo ! Concordo plenamente, nunca havia pensado nisto!

  6. Rafa Santtos disse:

    Gostei da reflexão. Mto legal estar recheada de números. Acho ruim transformar o tempo de luta em tempo de ódio e foi um pouco do que li das amigas feministas na minha timeline no Facebook. Gostei mto da abordagem que vcs fizeram ao longo do texto.

  7. Lindalva de Jesus Macedo disse:

    Sinto-me presenteada com esta reflexão. O Dia Internacional da Mulher tem seu nascimento nas lutas de nós mulheres de esquerda em tempos ainda muito difíceis. E as lutas continuam. A luta de classe é fundamental para basilar o debate. O capitalismo insano quer transformar este dia em “cheiros” e “coloridos” de Natura e Boticário? Jamais. “Mais Reflexão e menos rosas”!
    Beijo para vocês.

  8. Zilá Matos disse:

    Gostei muito da reflexão que vocês duas fizeram.
    Sempre me incomodou a transformação do DIA DA MULHER em dia de presentinhos, sem enxergar os problemas que atingem as mulheres.
    Existem ainda aqueles que perguntam: E o dia do homem?
    Parabéns!
    Mais reflexão e menos rosas!!!

  9. Gustavo disse:

    Parabéns pelo artigo!

    Apenas gostaria de sugerir duas indicacoes de leitura que, creio, podem contribuir com uma questao especifica abordada por voces, qual seja, a diferenca salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho:

    http://www.economistax.com/por-que-as-mulheres-ganham-menos-do-que-que-os-homens-uma-explicacao-comportamental/

    http://www.economistax.com/que-desigualdades-entre-homens-e-mulheres-importam/

    Forte abraço,

    Mauro

    • Ana Luíza Matos de Oliveira Ana disse:

      Olá Mauro, obrigada pela indicação.
      Creio que os modelos explicam parte das desigualdades salariais sim, mas há parte que não explicam (vide esse sumário de um relatório da OIT bem recente http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—dgreports/—dcomm/—publ/documents/publication/wcms_325643.pdf). A meu ver, parte importante do problema é devido ao preconceito, ao fato de a mulher ter responsabilidades fora do trabalho e que mudam a sua relação com o ambiente de trabalho, de chefes relutarem em contratar/promover mulheres porque são ou podem ser mães, o fato de muitas mulheres darem uma pausa na carreira para cuidar dos filhos, o fato de que os homens desde pequenos são mais incentivados a falar em público e a ter cargos de liderança que mulheres (o que tem mudado, mas nas gerações mais novas) etc… Isso é talvez a causa do aumento do diferencial salarial com o aumento da escolaridade que colocamos no texto, o que se chama “teto de vidro”: as mulheres estudam mais e em tese poderiam ter salários mais altos, estar em cargos de liderança, mas diversos fatores “exógenos” impedem que isso ocorra.
      Se fosse uma questão meramente de educação (no sentido de escolaridade) e não de preconceito/machismo/desigualdade na atribuição do trabalho doméstico etc, ela seria resolvida simplesmente aumentando a escolaridade das mulheres. No entanto, a gente vê que hoje as mulheres são a maioria da população com mais de 12 anos de estudo no país e continuamos com um rendimento médio de 70% da população masculina.
      É uma questão muito complexa, sobre a qual precisamos jogar mais luz, ter mais estudos etc e é muito bacana ver que homens também se interessam pelo assunto.
      Um abraço!

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